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Quando as turbinas eólicas estragam a vista de uma aldeia

Homem observa moinhos de vento em área rural desde varanda com mesa, caderno, óculos e caneca.

Sebes roçavam nos vidros, pássaros irrompiam do pilriteiro e, no fim da estrada, uma casa de pedra esperava numa concha de colinas verdes. Ele saiu do carro, encheu os pulmões de um ar húmido e terroso e disse para si: era isto. A vida tranquila. Sem sirenes, sem discussasões nocturnas do apartamento por cima, sem máquinas de venda automática a zumbir no corredor.

Descarregou caixas com um sorriso parvo, interrompendo-se de poucos em poucos minutos só para ficar a olhar o horizonte. Ovelhas aqui, um grupo de carvalhos ali, a linha macia dos campos ao longe. E então viu-as. Colunas brancas e finas na crista, com pás a fatiar devagar o céu. Ao início, pareciam quase elegantes. Ao terceiro dia, já eram a única coisa que conseguia ver.

Agora quer que desapareçam. Que as desmontem. E, de repente, a aldeia inteira tem opinião formada.

Quando a vista de sonho vem com pás a girar

A paz rural é uma fantasia teimosa. Imagina-se silêncio, canto de pássaros, uma paisagem que não muda. Na prática, costuma ser mais confuso. A vida moderna no campo inclui tractores às 5 da manhã, cheiro a estrume em dias quentes e, cada vez mais, uma fila de turbinas eólicas no horizonte.

Para quem acabou de chegar e enterrou as poupanças num cenário de postal, essas turbinas sentem-se como uma intrusão. Não apenas na paisagem, mas na narrativa que construiu sobre si próprio: o homem que fugiu. O casal que finalmente conseguiu sair. Quando a vista falha o sonho, a frustração pode endurecer e ganhar arestas.

É assim que uma desilusão privada se transforma numa disputa pública. E é aqui que a pergunta morde: a vista “estragada” de uma pessoa vale mais do que a decisão de uma comunidade em acolher energia limpa?

Um pouco por toda a Europa e pela América do Norte, a mesma tensão repete-se em reuniões de licenciamento e em grupos locais no Facebook. Habitantes que cresceram com horizontes vazios passaram a viver com aquilo a que uns chamam “parques eólicos” e outros chamam “paisagens industrializadas”. Em algumas zonas do Reino Unido, a eólica em terra abrandou muito após anos de oposição centrada no impacto visual.

Investigadores na Alemanha observaram que quem vive perto de turbinas tende a começar neutro e, com o tempo, polariza. Uma minoria gosta delas como símbolos de progresso. Outra minoria, de dimensão semelhante, acaba por as odiar, sobretudo quando sente que as decisões foram tomadas “por cima” da sua cabeça. Entre estes extremos, existe um grupo grande e silencioso que simplesmente convive com elas e segue a vida.

Na história do recém-chegado ao campo, ele cai depressa no grupo ressentido. Descobre que a licença de construção foi atribuída há anos. Percebe que protestar agora é como discutir com o tempo. Ainda assim, a sensação de ter sido enganado não desaparece só porque a papelada está certa. A lei e a emoção não andam ao mesmo ritmo.

No centro disto está um choque entre duas coisas que raramente cabem no mesmo espaço: expectativa pessoal e necessidade colectiva. No papel, as regras são relativamente claras. Na maioria dos sistemas jurídicos, não se “possui” a vista para lá do limite da propriedade. Os tribunais reconhecem incómodos como ruído, efeito estroboscópico das sombras e questões de segurança, mas não a mágoa de ver o recorte do céu alterado.

O problema é que, para quem se muda para o campo, a vista não é um pormenor. É o produto que acredita ter comprado. As imobiliárias vendem “paisagens intocadas” sabendo perfeitamente que as políticas de ordenamento podem mudar. Quando aparece uma turbina, o comprador sente como se alguém tivesse trocado o produto depois do pagamento.

Os responsáveis pelo planeamento energético respondem que são precisamente as paisagens abertas e amplas que fazem mais sentido para as turbinas. Menos vizinhos, mais vento, mais electricidade limpa. As metas climáticas não são abstractas ali: estão em metal e betão naquela crista. Por isso, quando uma pessoa exige que as turbinas sejam removidas por causa da sua vista, não está apenas a discutir com um vizinho. Está a empurrar contra a política energética nacional, as metas globais de emissões e as escolhas de quem vive naquele lugar há muito mais tempo.

Então o que pode mesmo fazer se as turbinas estragarem a “sua” vista?

O primeiro passo não é contratar um advogado. É pegar num caderno. Antes de partir para uma cruzada, convém distinguir o que é realmente prejudicial do que é apenas uma desilusão. Durante algumas semanas, registe quando é que repara mais nas turbinas. É o zumbido de baixa frequência à noite? O jogo de sombras ao pôr do sol? Ou apenas a presença delas nas fotografias tiradas no jardim?

Se existirem problemas específicos - ruído acima do permitido, sombras das pás a entrarem pelas janelas, luzes intermitentes que não constam do licenciamento - então há algo objectivo a apontar. As câmaras municipais e os reguladores trabalham com provas: leituras em decibéis, vídeos com data e hora, registos escritos. Queixas vagas sobre “estragar o campo” pesam muito menos do que um padrão de perturbação bem documentado.

Depois, caminhe - literalmente - até aos vizinhos. Pergunte como se sentem. Alguns podem partilhar as suas preocupações; outros podem depender do rendimento das turbinas para manter a exploração agrícola a funcionar. Essa conversa não muda a paisagem, mas muda o enquadramento: deixa de ser “eu contra eles” e passa a ser “nós a tentar perceber como viver com isto”.

Contestar judicialmente turbinas já construídas é raro, caro e, na maior parte dos casos, pouco eficaz. O direito do urbanismo tende a proteger infra-estruturas existentes que foram licenciadas de forma regular. Por isso, a fase em que a oposição conta mais é antes da construção. É aqui que, muitas vezes, a história descarrila: avisos presos em quadros da junta de freguesia, linguagem técnica que ninguém lê, consultas marcadas a horas a que quem trabalha não consegue ir.

Quando o guindaste chega, parece que já é tarde. E, quase sempre, é mesmo. Daí que a “defesa da vista” mais eficaz comece muito mais cedo e seja aborrecida: ler editais de licenciamento, fazer perguntas directas em reuniões locais, consultar mapas de condicionantes, até procurar documentos de “definição de âmbito” (scoping) na sua zona. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Ainda assim, se já vive com pás a girar à sua frente, pode haver pequenas vitórias. Por vezes, os operadores aceitam ajustar a iluminação, afinar horários de funcionamento em condições específicas ou plantar vegetação de enquadramento em acordo com vizinhos. Não são triunfos para manchetes. São compromissos práticos que tornam o quotidiano mais suportável, aceitando que as turbinas não vão desaparecer.

“Achei que estava a comprar um quadro que ia ficar pendurado em frente à minha janela para sempre”, disse-me o nosso recém-chegado ao campo. “Depois alguém entrou na moldura e recusou-se a sair.”

Essa sensação de invasão tem um peso emocional real. Ao fim de um dia cansativo, depois de uma longa deslocação, aquelas pás podem parecer uma provocação. Olha para elas e pensa: trabalhei tanto para fugir da cidade, e a cidade veio atrás de mim. Numa noite ventosa, o “whoosh” parece cortar o silêncio e meter-se dentro dos pensamentos.

  • Não engarrafe o ressentimento. Fale cedo, antes de a irritação virar obsessão.
  • Vá a um ponto de observação onde as turbinas pareçam menores, para se lembrar de que a paisagem continua a ser maior.
  • Pergunte a si próprio do que precisa, na verdade: silêncio, escuridão, sensação de controlo?
  • Transforme a raiva em algo concreto: regras de licenciamento melhores, anúncios imobiliários mais claros ou mecanismos de benefício local.
  • Lembre-se de que quem vive à sua volta também abdica de alguma coisa, mesmo que não seja a mesma coisa que sente ter perdido.

Uma vista, uma aldeia e um mundo a aquecer ao fundo

Num manhã luminosa, as turbinas podem parecer estranhamente serenas. As aves continuam a atravessar o vale. Os tractores continuam a subir a estrada. As paredes da casa continuam a guardar calor no Inverno e frescura no Verão, como faziam muito antes de tudo isto começar. O homem junto à janela pode continuar a encolher-se ao ver as pás, mas, com o tempo, elas desfocam-se um pouco no fundo dos dias.

Todos já tivemos aquele momento em que percebemos que a vida imaginada não coincide com a vida que estamos, de facto, a viver. Aqui fora, esse acerto de contas está escrito em três grandes traços brancos no céu. Uns defenderão, com força, que ninguém devia ser obrigado a aceitar uma mudança assim. Outros dirão, com a mesma força, que recusá-la é um luxo que o clima já não permite.

Entre esses campos, sobra um compromisso desconfortável: licenciamento mais exigente, consulta pública melhor feita, partilha local dos benefícios financeiros, publicidade imobiliária honesta e uma conversa mais adulta sobre o que “intocado” significa num mundo que aquece. Se o nosso recém-chegado ao campo alguma vez fará as pazes com o novo horizonte é quase uma nota de rodapé. A pergunta maior é o que nós, em conjunto, estamos dispostos a ver quando olhamos pelas nossas próprias janelas.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Direitos legais vs. expectativas Raramente existe um direito legal a uma “vista” fixa para lá do limite da sua propriedade. Esclarece o que pode, de forma realista, exigir se um projecto mudar o seu horizonte.
Momento das objecções A maior influência acontece antes de as turbinas serem construídas, durante o licenciamento e a consulta. Mostra quando deve envolver-se para que a sua voz conte de facto.
Viver com a mudança Negociação, mitigação e adaptação emocional são, muitas vezes, mais alcançáveis do que a remoção. Aponta caminhos práticos se já vive perto de turbinas.

Perguntas frequentes:

  • Posso obrigar legalmente o meu vizinho a remover turbinas eólicas? Na maioria dos casos, não. Se as turbinas foram construídas com licença válida e cumprem as normas de ruído e segurança, é improvável que um tribunal ordene a remoção apenas por razões visuais.
  • A minha casa perde valor se surgir um parque eólico nas proximidades? Os estudos mostram resultados mistos. Algumas casas perto de turbinas são vendidas por menos, sobretudo durante a fase de construção, enquanto outras quase não são afectadas. As condições do mercado local, a distância e a visibilidade contam mais do que um simples “sim ou não”.
  • Posso fazer alguma coisa em relação ao ruído ou ao efeito das sombras? Sim, se os níveis excederem o que foi aprovado nas condições do licenciamento. Registe quando acontece e com que frequência, e depois comunique à sua autarquia e ao operador das turbinas. Por vezes, são possíveis ajustes no funcionamento ou medidas de mitigação.
  • Como descubro turbinas planeadas antes de serem construídas? Consulte o portal de licenciamento da sua câmara municipal, active alertas, leia as ordens de trabalhos da junta de freguesia ou do município e esteja atento a avisos do promotor em jornais locais e em placards comunitários.
  • Uma comunidade pode beneficiar financeiramente de turbinas próximas? Muitos projectos eólicos incluem hoje fundos de benefício comunitário, redução de facturas para casas próximas ou pagamentos directos para projectos locais. Depende do promotor e do acordo negociado na fase de licenciamento. |

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