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Julgamento da herança do pai no tribunal

Homem sentado à mesa em tribunal, a analisar documentos, com fotografia de homem idoso e advogada ao fundo.

A sala de audiências e o banco dos réus

No banco dos réus, encostadas umas às outras - braço com braço, perna com perna - alinhavam-se quatro mulheres como se fossem uma mesma sequência de ADN. Uma senhora já idosa, a filha de corpo volumoso e duas netas altas, quase espelho da mãe.

Na cadeira das testemunhas estava outra figura: uma mulher extremamente magra, com o cabelo tingido em tons que iam do vermelho ao roxo do Senhor dos Aflitos, sem qualquer semelhança com aquelas quatro. Ainda assim, todas estavam presas à mesma pequena história humana.

Há muitos anos, um contabilista saiu de casa, construiu uma segunda família com uma colega de escritório e, um dia, morreu. Foi então que a procuradora da República se dirigiu à mulher de cabelo púrpura.

As perguntas da procuradora da República

  • Conhece estas senhoras que estão sentadas atrás de si?

  • Não. Só em relação ao processo, pessoalmente não as conhecia antes.

Falava com uma serenidade de quem diz: perguntem-me o que quiserem. A procuradora prosseguiu:

  • Quando diz pessoalmente, quer dizer que nunca esteve na sua vida na presença destas senhoras, ou não são das suas relações pessoais?

  • Não, na minha vida, eventualmente em bebé, em criança poderei ter convivido com a senhora Edite numa festa da empresa, visto que era colega do meu pai. Pessoalmente, se me cruzei com ela, foi numa festa, mas não tenho qualquer...

  • E as outras senhoras?

  • Não.

Não conhecia a meia-irmã nem as meias-sobrinhas - as netas do contabilista.

  • Não conhece estas pessoas, mas estamos aqui num julgamento no qual a senhora é interveniente... O seu pai ainda é vivo?

  • Faleceu em Setembro de 2019. Doença oncológica.

  • Quando ele faleceu, a senhora tinha contactos com o seu pai?

  • Não. Desde o divórcio dos meus pais, e da saída do meu pai de casa, não voltei a ter contacto.

  • Quando é que foi esse divórcio?

  • Em 1987, salvo erro.

  • E o seu pai saiu de casa logo nessa altura?

  • Sim, saiu no decorrer do processo de divórcio, não é, saiu de casa e não voltou a contactar-me.

  • Portanto, a senhora desde 1987 que não via o seu pai.

  • Exacto.

  • Sabe o motivo para esse divórcio, se esteve relacionado com alguma das pessoas que está aqui na sala de audiências?

  • Não, não sei.

  • Sabe se o seu pai tinha alguma relação com estas pessoas?

  • Era colega da senhora Edite. Se tinha outra relação... Desconheço.

  • Não sabe se esta senhora Edite foi companheira do seu pai?

  • O meu pai vivia em casa com a minha mãe, até à altura do divórcio, mas depois do divórcio fui informada pelo meu irmão... que manteve o contacto... dado ser menor tinha visitas periódicas ao meu pai e, portanto, informou-me que eles tinham o início de uma relação e que mais tarde coabitavam.

  • Portanto, e depois... a senhora foi ao funeral do seu pai?

  • Não. Principalmente por motivos de saúde. Tive problemas graves de saúde, impeditivos da minha mobilidade, esse foi um dos factores principais.

  • Nessa circunstância, porque é que estamos aqui hoje?

O julgamento da herança do pai

  • Estamos aqui hoje porque... a herança do meu pai... eu deleguei no meu irmão ser cabeça de casal e quando foram apurados os factos relativos às contas do meu pai, à herança, ao testamento, tudo isso, constatou-se que havia uma série de transferências, inclusive no período pós-morte, para além de um cheque com grandes possibilidades de ter assinatura falsificada, portanto tudo isso foi apurado pelo meu irmão depois da morte do meu pai.

A advogada das quatro arguidas, sentadas no banco dos réus, interveio:

  • Contribuiu para os cuidados de saúde do pai, as despesas do funeral?

  • Não tive qualquer envolvimento, tal como ele não teve envolvimento nos meus problemas de saúde e em outros que tive na vida.

E a mulher, agora marcada pelo tempo e de cabelos em fogo, voltava a ser ali, em tribunal, a criança que o pai deixara para trás.

(O autor escreve segundo a ortografia anterior)

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