A notícia no caminho para o Douro
Parece impossível, mas a verdade é que já passaram quinze anos desde a morte de David Lopes Ramos, jornalista do “Público”. Eu seguia pela estrada, a caminho do Douro, para uma prova de vinhos velhos, quando recebi a mensagem com a notícia triste - enviada pela nossa amiga comum Ana Sousa Dias, também jornalista, que conheci logo nos primeiros tempos do “Público”.
Ainda o visitei no hospital, já numa fase terminal, muito mais magro do que era habitual, e deixou-me um aviso em forma de conselho: “O pessoal tem de ter cuidado com o fígado e muitos copos podem dar mau resultado.”
O fígado, a Casa da Imprensa e o humor do David
Lembro-me bem de como o David recorria à médica de clínica geral associada aos serviços da Casa da Imprensa. Em análises de rotina que não auguravam nada de bom, ela insistia que ele tinha de proteger o fígado, porque estava demasiado gordo. O David contava isto com aquele ar irónico que lhe era tão próprio e rematava: “olha, faz-se foie gras!”
David Lopes Ramos entre a redação do “Público” e a mesa
Conheci o David numa altura em que, apesar de já mostrar interesse pela gastronomia, desempenhava funções como editor de Sociedade no jornal “Público”. O que me ficou é a imagem de ele chegar a eventos depois de fechar a secção - verdadeiramente exausto, num cansaço que dava pena. Ainda assim, isso não o travava na etapa seguinte: sentar-se, comer, beber e depois escrever sobre o que tinha provado. Tinha fibra; era resistente.
Numa época em que se falava por todo o lado do filme “O Senhor dos Anéis”, participou num almoço que organizei com gente do vinho - pessoal que, no tempo do 25 de Abril, ainda estava na tropa. Dei ao encontro o nome “À Mesa com os Senhores dos Quartéis” e, para animar a conversa, só se abriram vinhos de 1974. Recordo um Aliança em garrafa de 1,5 litros e um Porto Colheita Quinta do Noval, também de 74. Foi uma tarde bem divertida.
O David sabia o que dizia quando escrevia sobre vinhos e comida. Era mais guloso do que seria aconselhável e tinha uma curiosidade genuína pelos assuntos que ainda não dominava - desde técnicas estranhas usadas na confeção até castas invulgares que apareciam em certos vinhos.
Por isso, falávamos imensas vezes, aproveitando a proximidade (morava a 50 metros de minha casa) e o facto de, não tendo carta de condução, acabar por voltar muitas vezes comigo, de boleia.
Também era uma personagem a oscilar entre a modernidade informática, que a redação de um jornal exigia, e uma teimosia que acabou por se tornar “imagem de marca” na relação com o telemóvel. Já em pleno século XXI, recusar o aparelho roçava o patético, mas o David manteve-se firme: quando precisava, lá pegava no telemóvel de quem estivesse mais perto para falar com a mulher ou com a filha.
Dois trabalhos em comum: Lisboa e “Metrópoles”
Com o David fiquei ligado a dois projetos. Um foi um pequeno livro dedicado aos vinhos e petiscos da região de Lisboa. O outro passou por uma colaboração partilhada numa revista - “Metrópoles” - uma publicação institucional, editada trimestralmente pela Área Metropolitana de Lisboa, onde o espaço que nos era dado permitia escrever com outra profundidade e escala.
Foi uma experiência muito interessante, porque nos obrigava, com frequência, a pensar em temas em conjunto, fosse a partir de regiões, de autores ou de eventos.
“Era um gajo porreiro!”
Mais do que uma vez, o David disse-me que a única coisa que desejava, quando um dia morresse, era que dele se afirmasse: “era um gajo porreiro!” Como se diz na linguagem popular, “era uma boa alma”: pouco dado a conflitos e, só em raríssimas ocasiões, o vi levantar o tom de voz por se irritar com o que estava a ouvir.
Tinha uma orientação ideológica clara, mas era inquieto. E acabou por não conseguir desfrutar da reforma que merecia - aquela que lhe permitiria pôr ordem nos livros e nas garrafas que se amontoavam em casa e em que se tropeçava. Perdi um amigo.
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