Entre lembranças, feridas e recomeços, o escritor e leitor compulsivo Ângelo Delgado - presença ativa no debate sobre identidade e racismo - dá lugar a uma conversa em que a escrita aparece, ao mesmo tempo, como abrigo e como embate. “É onde vomito aquilo que me vai na alma”, admite, deixando claro que o seu impulso criativo é íntimo e, não raras vezes, doloroso.
“Foi o Preto”, de Ângelo Delgado: vivências reais e catarse
No núcleo do diálogo está “Foi o Preto”, um livro erguido a partir de experiências verdadeiras - dele, da família e de pessoas do seu círculo. Mais do que uma obra literária, assume-se como um gesto de exposição e de libertação.
Para chegar a esse resultado, o autor teve de revisitar camadas profundas do que viveu. “Tive de remexer nas minhas entranhas”, reconhece. Daí nasce uma narrativa que provoca e empurra quem lê para o incómodo, deixando-o, tal como o racismo faz, “num beco sem saída”.
Infância, escola e a sensação de diferença
Ao regressar à infância, Ângelo Delgado recorda um crescimento marcado pelo sentir-se fora do lugar. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, diz, apontando a escola como o primeiro cenário onde essa perceção se instala - muitas vezes sem explicações e sem margem para perguntas.
É nesse contexto que sublinha a ideia de pertença condicionada. “A nacionalidade não vale por si só”, afirma, defendendo que o reconhecimento continua dependente de códigos invisíveis: hábitos, comportamentos e formas de estar que funcionam como filtros sociais.
Memória, diáspora e (re)descoberta da identidade
A conversa passa também pelas dinâmicas familiares e culturais que lhe moldam o olhar. Entre referências às mulheres cabo-verdianas - fortes, resilientes e frequentemente sobrecarregadas - e às estruturas comunitárias que, na origem, contrastam com o isolamento sentido na diáspora, desenha-se um movimento constante entre geografias e significados. “É como colorir memórias a preto e branco”, descreve, num processo de redescoberta da própria identidade.
Pelo caminho, há ainda espaço para pensar o racismo para lá do imediato, questionando como o tema é tratado no espaço público e defendendo a literatura como um lugar indispensável para essa reflexão. Porque escrever, aqui, não se reduz a narrar: é atribuir sentido ao passado, reorganizar o presente e, talvez, encontrar alguma forma de liberdade.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
O Tal Podcast: formato, missão e as anfitriãs
O Tal Podcast é um podcast semanal centrado nas relações interpessoais e nos afetos humanos. Através de conversas aprofundadas com convidados notáveis, constrói uma narrativa própria e abre portas a uma comunidade internacional de reflexão e de interesse.
Assumindo-se como pioneiro na cultura negra e afrodescendente em Portugal, é um espaço onde cabem múltiplas vidas, unidas emocionalmente por experiências de provação e por histórias de humanização.
Em conversas longas e sem guião, Georgina Angélica e Paula Cardoso recebem convidados especiais em novos episódios, todas as quintas-feiras, nos sites do Expresso, SIC e SIC Notícias, ou em qualquer plataforma de podcasts.
Georgina Angélica é especialista em Educação e Intervenção Social. Trabalha como educadora, formadora e palestrante, com mais de 20 anos de experiência em Portugal, Inglaterra e Angola.
Paula Cardoso é fundadora da rede Afrolink e autora da série de livros infantis ‘Força Africana’. É também apresentadora do programa de TV "Rumos", transmitido na RTP África.
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