O “fundo de fundos” que o Banco Português de Fomento (BFP) está a estruturar deverá assumir um papel determinante para dinamizar o investimento em inovação num momento marcado por intensa concorrência geopolítica. Para Manuel Caldeira Cabral, o modelo é particularmente relevante por colocar capital privado e recursos públicos a trabalhar em conjunto.
Fundo de fundos do Banco Português de Fomento (BFP) e co-investimento
Na leitura do antigo ministro da Economia, “Existe uma insuficiência de capital em Portugal, principalmente para capital de risco”. A lógica deste instrumento passa, em termos gerais, por o Estado acompanhar o montante colocado por investidores privados na criação de fundos de investimento.
Ao fazê-lo, a “duplicação” proporcionada pelo financiamento público dá escala aos veículos e facilita a participação em rondas de financiamento mais elevadas. Em paralelo, a existência de equipas de gestão profissionais ajuda a garantir que os incentivos se mantêm alinhados com a identificação de projectos viáveis, orientados para a geração de retorno no futuro.
Risco, retorno e escolhas: o que cabe ao Estado e aos privados
Caldeira Cabral sublinha que a intervenção pública não deve substituir a decisão privada: “O Estado não pode substituir os privados, porque os privados têm que tomar as suas decisões e correr riscos com o seu próprio dinheiro. Se não houver o que se chama skin in the game, os privados investem em tudo e mais alguma coisa. Se estão a meter o seu dinheiro, e se têm dinheiro limitado, vão querer escolher os melhores projetos”, argumenta.
Na mesma linha, considera que o sector público também deve poder beneficiar quando as apostas resultam, assumindo simultaneamente risco: “O Estado alavanca o seu investimento e depois tem o retorno desse investimento e também corre riscos. Mas o que o Estado não pode fazer é pôr funcionários públicos a avaliar projetos de startups”, afirma.
Inovação em Defesa
No investimento em startups, e sobretudo no sector da Defesa, podem surgir inovações de duplo uso - isto é, com aplicação tanto em cenários militares como em contextos civis. Por isso, perante a subida da despesa pública nesta área, Caldeira Cabral defende que a componente de inovação seja prioritária. “Essa é a melhor maneira de nós investirmos na Defesa, e poderia trazer ganhos muito grandes para o Estado e para os cidadãos.”
O potencial não se limita à Defesa. Também noutros sectores, como o da Saúde, uma aposta bem-sucedida em empresas inovadoras pode traduzir-se em poupanças para o Estado. “As startups podem, em muitos casos, trazer soluções mais interessantes e mais desenhadas para a necessidade específica do que as grandes empresas, e certamente vão trazer essas soluções muito mais baratas”, explica.
“Investimento em startups criou um valor equivalente a 18% do Produto Interno Bruto em Portugal”
Contratação pública e acesso das startups ao Estado
Neste contexto, as alterações anunciadas para a contratação pública - que deverão permitir às startups testar soluções junto do Estado - são encaradas de forma positiva. Caldeira Cabral observa, contudo, que as regras actuais muitas vezes funcionam como uma barreira de entrada: “Diria que as regras de contratação pública, em alguns casos, ao exigirem que as empresas tenham não sei quantos anos de contas e que apresentem uma série de coisas, estão praticamente a dizer que uma startup não entra. A contratação pública dificulta muito isso”, aponta.
Resultados na última década: emprego, produtividade e 18% do PIB
Ainda assim, o ex-governante faz um balanço francamente favorável às políticas públicas adoptadas nos últimos dez anos, destacando “a quantidade de emprego que criaram, o aumento da produtividade que induziram, o valor que criaram na economia portuguesa”.
Em 2021, startups e ‘unicórnios’ [empresas em fase de arranque avaliadas em mais de mil milhões de dólares] somavam 18% do Produto Interno Bruto (PIB). A conclusão, para Caldeira Cabral, é clara: “estamos a falar de empresas que dez anos antes não existiam. Criámos um valor correspondente de 18% do PIB com base na inovação em Portugal. Muitos projetos falharam, porque nas startups é sempre assim, mas os que resultaram resultaram tanto e tão bem que grande parte dos fundos tiveram retorno positivo”.
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