Espanha encerrou no domingo uma sequência de quatro eleições regionais, realizadas ao longo de menos de seis meses, com o Partido Popular (PP, direita) a proclamar quatro triunfos expressivos a pouco mais de um ano das legislativas nacionais.
PP vence, mas continua dependente do Vox
Do lado da esquerda - e em particular do Partido Socialista Espanhol (PSOE), que lidera o Governo nacional - houve reconhecimento das derrotas na Extremadura, Aragão, Castela e Leão e Andaluzia, onde os socialistas ficaram em segundo lugar. Ainda assim, o PSOE insiste que os resultados do PP têm um sabor agridoce: na leitura dos socialistas, os conservadores terão "falhado a estratégia de emancipação do Vox", de extrema-direita, ficando nos quatro territórios condicionados pela formação populista para conseguir governar.
"Onde o PP precisava do Vox, agora ainda precisa mais. E onde não precisava, passou a precisar", afirmou hoje a porta-voz do PSOE, Montse Mínguez, numa conferência de imprensa em Madrid.
Segundo a mesma responsável, "Os dois grandes objetivos" dos conservadores ao convocarem estas quatro eleições regionais num intervalo inferior a seis meses "eram distanciar-se da extrema-direita e divorciar-se do Vox"; porém, o resultado final foi o inverso - o PP acabou por "aproximar-se mais" e por "consolidar o casamento com o Vox".
Na Extremadura e em Aragão, PP e Vox já formalizaram acordos para coligações governativas sob liderança do PP, o que significou o regresso da extrema-direita a executivos em Espanha. Mantêm-se conversações com o mesmo propósito em Castela e Leão, enquanto na Andaluzia ainda não é claro qual será o desfecho.
Nos entendimentos já assinados, o Vox fez incluir o controverso princípio anti-imigração de "prioridade nacional" no acesso a serviços e apoios públicos.
Andaluzia: a maioria absoluta perdida pelo PP
O caso mais emblemático deste ciclo é o da Andaluzia, a região mais populosa de Espanha, onde o PP perdeu, nas regionais de domingo, a maioria absoluta de que dispunha.
Os acordos firmados noutras regiões foram alvo de críticas em múltiplos sectores, incluindo por figuras do próprio PP, como o candidato dos conservadores na Andaluzia, Juan Manuel Moreno (conhecido como Juanma Moreno), que lidera o executivo regional desde janeiro de 2019.
Com uma imagem de conservador moderado, Juanma Moreno defendeu durante a campanha a necessidade de uma maioria suficiente para evitar "confusões" e chegou mesmo a classificar como inviável um governo com o Vox.
Já hoje, declarou que entende ter obtido uma vitória clara para governar sozinho (ficou a dois deputados da maioria absoluta) e disse não ter falado com o Vox.
Por sua vez, o partido de extrema-direita celebrou o facto de se assumir como força "decisiva" nas quatro regiões e reiterou que também os eleitores andaluzes escolheram a "prioridade nacional".
Na Andaluzia, o Vox registou um resultado semelhante ao das eleições anteriores (13,82%), mas conquistou mais um deputado (tem agora 15) e passou a ter capacidade para bloquear a investidura do novo executivo. É, além disso, a única força que admite negociar com o PP a viabilização do governo.
"Não entendemos a euforia do PP", disse hoje a porta-voz do PSOE, salientando que os conservadores foram também quem mais deputados perdeu nas regionais andaluzas (ficou com menos cinco, enquanto os socialistas desceram dois).
Numa leitura "por blocos", acrescentou, a direita e a extrema-direita recuaram quatro deputados no total, ao passo que a esquerda (moderada e radical) avançou, passando de 37 para 41 lugares no parlamento regional.
Pior resultado de sempre do PSOE
A subida global da esquerda ficou a dever-se ao partido nacionalista (de âmbito regional) Em Frente Andaluzia ("Adelante Andalucía", no original em castelhano), que quadruplicou a representação parlamentar (de dois para oito deputados). Já a coligação de esquerda Pela Andaluzia ("Por Andalucia") preservou os cinco assentos que já tinha.
Em contrapartida, o PSOE registou o seu pior resultado de sempre numa região que durante décadas foi o maior bastião socialista em Espanha e onde governou 37 anos consecutivos, até janeiro de 2019.
A candidatura socialista foi liderada por María Jesus Montero, uma das figuras mais próximas do primeiro-ministro e secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, tanto no Governo como na estrutura partidária.
Montero foi ministra das Finanças entre 2018 e este ano e desempenhava funções de vice-presidente de Sánchez. Mantém-se como a 'número 2' da direção nacional do PSOE.
"Espanha quer mudança e a mudança está mais próxima", declarou hoje o líder do PP e chefe da oposição a nível nacional, Alberto Núñez Feijóo, numa intervenção perante a direção do partido, em Madrid, divulgada nas redes sociais.
Feijóo destacou "as maiorias amplas" alcançadas pelo PP nas quatro eleições regionais realizadas nos últimos seis meses e considerou "espetacular" a vitória na Andaluzia, evitando sempre referir entendimentos com a extrema-direita.
"A campanha para conseguir a mudança em Espanha começa hoje", acrescentou, depois de no domingo à noite ter publicado na rede social X que "o 'sanchismo' fecha este ciclo eleitoral devastado".
Os editoriais da imprensa espanhola sublinham hoje a "vitória incontestável" (El Pais), mas também "insuficiente" e "incómoda" (El Mundo), do PP na Andaluzia.
"Com o olhar posto já nas eleições gerais de 2027, em que Sánchez aspira a manter-se na Moncloa [Governo] através da absorção de toda a esquerda e o apoio de todas as marcas nacionalistas, o resultado das eleições andaluzas obriga o PP a ser consciente de que nada está escrito", conclui o editorial do El Mundo, jornal de orientação editorial conservadora.
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