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Neto de Raúl Castro, “El Cangrejo”, deixa de ser só guarda-costas e negoceia com os Estados Unidos

Reunião diplomática com cinco homens de negócios asiáticos em terno e bandeiras dos EUA e Cuba ao fundo.

O neto mais velho de Raúl Castro, conhecido como guarda-costas do avô, deixou de aparecer apenas como elemento de segurança e passou a integrar contactos com representantes dos Estados Unidos num momento de forte pressão.

A incerteza sobre o rumo de Cuba, agravada pela pressão norte-americana - que tem dificultado a entrada de recursos energéticos na ilha e contribuído para uma crise humanitária - esteve em discussão em Havana com enviados de Washington. Do lado cubano, uma das presenças nas conversações é Raúl Guillermo Rodríguez Castro, o “El Cangrejo”, neto e guarda-costas de Raúl Castro, cuja notoriedade tem crescido, em particular pelo possível papel que poderá vir a assumir no futuro do Governo comunista.

“El Cangrejo” (caranguejo), uma alcunha atribuída pela família por ter nascido com um dedo a mais, é o mais velho dos netos de Raúl Castro. Cresceu próximo do avô e recebeu preparação tanto civil como militar. Em 2016, foi promovido a chefe da unidade encarregada da segurança pessoal de dirigentes, tornando habitual a sua presença discreta ao lado do avô em aparições públicas.

Mudança com saída de Fidel

A forma como Raúl Castro, presidente entre 2008 e 2018, se expôs e expôs o seu círculo contrasta com o percurso do irmão, Fidel, que liderou de 1976 a 2008 e morreu em 2016. “Fidel manteve a sua família praticamente fora de cena. Fidel era ele próprio, ponto final. A sua família era excluída. Com Raúl, no entanto, os membros da família estão a ganhar mais destaque”, afirmou à estação britânica BBC o politólogo e historiador cubano Armando Chaguaceda.

Rodríguez Castro é filho de Déborah Castro Espín, a filha mais velha de Raúl Castro, e do general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja. Até morrer, em 2022, López-Calleja liderou a Gaesa - o conglomerado das Forças Armadas cubanas com interesses em turismo, investimentos, importação e exportações. Inserido nesse ambiente de poder, o “Cangrejo” teria tido um quotidiano marcado por luxo - passeios de iate e em jatos privados, pescas de lagostas e festas VIP - segundo o jornal espanhol “El País”.

É este protagonista, que até possui uma camisola personalizada dos New York Yankees com a alcunha, que agora se senta à mesa diante de representantes de Washington. De acordo com o “Miami Herald”, Rodríguez Castro esteve na cimeira da Comunidade das Caraíbas, no final de fevereiro, onde conversou com assessores do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.

As negociações entre Estados Unidos e Cuba, descritas como “orientadas para procurar soluções”, só seriam assumidas publicamente pelo presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, a 13 de março. Desde então, registaram-se novos contactos, incluindo a visita de representantes norte-americanos a 10 de abril e, na última quinta-feira, a deslocação do diretor da CIA, John Ratcliffe. Em todas essas ocasiões, Rodríguez Castro participou.

Testa de ferro ou sucessor?

Em declarações ao “El País”, o historiador cubano Enrique del Risco admitiu que o neto e guarda-costas possa ser “testa de ferro de Alejandro Castro Espín, até há poucos anos o mais claro sucessor de Raúl”. Alejandro Castro Espín, filho de Raúl Castro, teve um papel de mediação no restabelecimento de relações diplomáticas com os EUA há uma década. Del Risco considera ainda que o “Cangrejo” pode vir a ser apresentado como o “verdadeiro sucessor”, apesar de nunca ter exercido funções governativas.

Andrés Pertierra, historiador de origem cubana na Universidade do Wisconsin, citado pela agência France-Presse, traçou uma perspetiva semelhante sobre o futuro da ilha: “Os Castro vão desempenhar algum tipo de papel no sistema político cubano durante muito, muito tempo, mesmo quando já não tiverem necessariamente o apelido Castro”.

Presidente defende direito de resposta a ataque

O presidente cubano sustentou esta segunda-feira o “direito absoluto e legítimo” de responder a uma eventual agressão de Washington, depois de Donald Trump ter ameaçado assumir o controlo da ilha. Esta retórica

Depois de o portal norte-americano Axios ter noticiado, com base em informações confidenciais, que Havana terá comprado 300 drones militares e estaria a equacionar a sua utilização nas proximidades da base militar de Guantánamo, Miguel Díaz-Canel denunciou que se estaria a criar o contexto político para uma intervenção militar que, a acontecer, “causaria um banho de sangue com consequências incalculáveis”. Reforçou ainda que a ilha não constitui ameaça para outros países.

Em destaque

Libertações
Cuba tem emitido sinais enquanto mantém diálogo com os EUA, incluindo a libertação de 52 prisioneiros em março e o perdão de mais de dois mil reclusos em abril. Em abril, a Administração Trump lançou um ultimato de duas semanas a Havana para a libertação de prisioneiros políticos, entre eles o rapper Maykel Osorbo e o artista Luis Manuel Otero Alcántara. O prazo expirou e nenhum dos dois foi libertado.

Guia de proteção
As autoridades cubanas divulgaram um “guia para a família” com medidas de proteção “contra uma agressão militar”. Entre as recomendações está preparar uma mochila com água potável, comida, medicamentos e artigos de higiene.

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