AfD e a transformação do eleitorado alemão
Politólogos defendem que a subida da direita radical da Alternativa para a Alemanha (AfD) não é um fenómeno passageiro: traduz uma alteração estrutural do eleitorado alemão e coloca pressão adicional sobre os partidos tradicionais.
As sondagens nacionais mais recentes sobre intenções de voto posicionam a AfD (sigla em alemão) entre as forças políticas mais robustas na Alemanha. Em alguns cenários, o partido surge mesmo à frente da coligação liderada pelo chanceler conservador Friedrich Merz, num quadro marcado pelo desgaste de quem governa e por uma polarização política cada vez mais acentuada.
Para o politólogo Aiko Wagner, da Freie Universität Berlin, o avanço do partido já não se explica apenas por um voto de protesto.
"Com a AfD existe agora um elemento substancial de convicção. Muitos eleitores parecem sentir-se atraídos não apenas pelas propostas políticas do partido, mas talvez até pelo seu estilo político", sustentou à Lusa, referindo "menos compromisso" e "um estilo político mais autoritário".
Também Benjamin Höhne, investigador na Universidade Técnica de Chemnitz, entende que está em causa "uma mudança duradoura no eleitorado".
"A AfD construiu uma base eleitoral estável. O termo "protesto" não é suficiente para descrever isto", frisou.
Uma leitura próxima é avançada por Johannes Steup, investigador da Universidade das Forças Armadas de Munique e associado ao projeto SPARTA de análise política.
"A AfD conseguiu mobilizar antigos eleitores da classe trabalhadora, abstencionistas e eleitores de protesto. Mas as razões para o crescimento do partido vão muito além disso", realçou.
Migração e segurança interna como motores do apoio à AfD
Na perspetiva de Steup, a AfD retira vantagens sobretudo da centralidade de temas ligados à migração e à segurança interna. "Quando a migração é percecionada como um problema de segurança, os partidos populistas de direita tendem a ganhar apoio", sublinhou.
Já o politólogo Ulrich von Alemann, professor emérito da Universidade Heinrich Heine de Düsseldorf, insere a ascensão da AfD num movimento mais amplo, observável em vários países ocidentais.
"O avanço da AfD reflete uma tendência observada em praticamente toda a Europa e no mundo ocidental", sustentou, defendendo que os partidos tradicionais falharam "na integração dos eleitores alienados do sistema político".
O "cordão sanitário", a nível federal e hipóteses após as eleições regionais
Apesar da subida da AfD, os analistas consideram que o chamado "cordão sanitário" - a recusa de cooperação política com o partido - continua a prevalecer ao nível nacional.
"A nível federal, continua viável", referiu Aiko Wagner, ainda que admita que o quadro possa alterar-se depois das eleições regionais previstas para o outono.
Para Benjamin Höhne, o isolamento político da AfD mantém-se "essencial para evitar uma maior normalização do partido".
Também Johannes Steup sustenta esta opção como mecanismo de salvaguarda democrática.
"O "cordão sanitário" constitui um instrumento válido para impedir que um partido que, em parte, se opõe à ordem constitucional alemã participe no governo", frisou.
Von Alemann vai mais longe na caracterização e descreve a AfD como "um partido antissistema e não uma oposição conservadora de direita".
Ainda assim, alguns especialistas admitem que, a nível regional, o cenário possa evoluir.
Benjamin Höhne considera que a AfD poderá chegar ao poder na Saxónia-Anhalt se as tendências atuais persistirem, um desfecho com impacto "nas rotinas da democracia de consenso alemã".
Apesar da pressão crescente da extrema-direita, os analistas consideram provável que a atual coligação entre os conservadores da CDU/CSU e o Partido Social Democrata Alemão (SPD) sobreviva, sobretudo pela ausência de alternativas políticas viáveis no parlamento alemão.
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