Pressão no serviço de Pneumologia do Hospital de Santa Maria
No serviço de Pneumologia do Hospital de Santa Maria, as 42 camas estão, de forma constante, ocupadas por doentes internados. “Às vezes, uma cama chega a ter dois doentes no mesmo dia – sai um de manhã, à tarde está lá outro. A taxa de ocupação é sempre superior a 100%”, relata Paula Pinto, diretora do serviço de Pneumologia desta Unidade Local de Saúde (ULS). O cenário é particularmente preocupante e ilustra o aumento da carga global associada às doenças respiratórias, com destaque para a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC).
Naquela unidade, as patologias respiratórias lideram as razões que levam as pessoas à urgência. Para este crescimento contribuem vários fatores, entre os quais o envelhecimento da população, o surgimento de infeções respiratórias emergentes, a exposição ao tabaco e o impacto das alterações climáticas. Para Paula Pinto, o ponto crítico é o que acontece depois da entrada no hospital: os doentes “nunca ficam iguais”. “Podiam ser autónomos, trabalhar, ir com os netos à escola, contribuir para a atividade familiar e da sociedade, mas precisam de fazer oxigénio ou ventilação não invasiva, o que muda a sua vida”, explica, sublinhando que a DPOC é tratável e pode ser prevenível.
Diagnóstico precoce da DPOC e espirometria nos centros de saúde
Apesar do seu peso, a DPOC continua a ser uma das doenças mais subdiagnosticadas em Portugal. Há doentes que acabam por desvalorizar sinais como tosse crónica, expetoração ou falta de ar - sobretudo quando os associam ao tabagismo ou ao avançar da idade -, o que atrasa a identificação da doença e pode piorar o prognóstico. Por isso, o diagnóstico atempado assume um papel determinante.
Paula Simão, diretora do serviço de Pneumologia da ULS Matosinhos, chama a atenção para a necessidade de ampliar o acesso à espirometria nos cuidados de saúde primários, reforçando as equipas técnicas especializadas, até porque os espirómetros, enquanto equipamento, são “extremamente baratos”.
Na mesma linha, José Alves, presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão, defende que seja adotado um modelo de rastreio semelhante ao que existe na Madeira, dirigido a fumadores entre os 40 e os 74 anos.
Tratamentos: reabilitação respiratória e consultas estruturais
No âmbito terapêutico, o acesso à reabilitação respiratória nos cuidados de saúde primários é igualmente determinante. Cláudia Vicente, médica de família e coordenadora do Grupo Estudos de Doenças Respiratórias (GRESP), salienta ainda que o tratamento domiciliário pode ser otimizado através de consultas estruturais, orientadas para ensinar o doente a realizar corretamente o que lhe é prescrito. “Posso ter um fármaco incrível, mas, se eu não o estiver a fazer bem, não vai ter efeito nenhum (...). A consulta estrutural, mais ou menos periódica, é uma das chaves para o sucesso”, afirma. E acrescenta: “Além do acompanhamento correto do médico e enfermeiro, devemos envolver técnicos e farmacêuticos da comunidade. Vai mudar completamente o compromisso do doente em controlar a sua doença.”
Fumar faz mal
Paula Duarte, vice-presidente da Respira, insiste que a prevenção com foco no tabagismo deve ser uma prioridade no combate à DPOC, através de campanhas consistentes. “Num país com a iliteracia que o nosso tem, têm de existir campanhas sistemáticas com mensagens claras e precisas, que devem começar nas camadas mais jovens”, defende. “Há quem invoque que isto deve começar no 3º e 4º ano, mas achamos que é impossível que eles interiorizem alguma coisa, por isso a Respira vai a turmas do 5º e 6º ano. É algo que deve ser pensado de maneira estruturada com o envolvimento do Ministério da Saúde e da Educação.”
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