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Michael Ignatieff: Democracia em teste, universidades sob ataque e autonomia estratégica da Europa

Homem idoso segurando livro e portátil em campus universitário com estudantes ao fundo.

Percurso académico e político de Michael Ignatieff

Michael Ignatieff liderou a Universidade da Europa Central (CEU) como presidente e reitor entre 2016 e 2021, anos em que a instituição foi forçada a sair de Budapeste e a reinstalar-se em Viena. Mantém-se ligado à CEU como professor no Departamento de Estudos Históricos. Cidadão canadiano, construiu um percurso plural como escritor, académico, historiador e político, com um conhecimento particularmente sólido da Europa Central e de Leste.

Doutorado em História pela Universidade de Harvard, ensinou no King’s College de Cambridge, na Universidade de Toronto e na Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. Na política, foi deputado no Parlamento canadiano e chegou a liderar o Partido Liberal (centro-esquerda). Entre as suas obras, destaca-se o livro “On Consolation: Finding Solace in Dark Times” (2021).

Integra o conselho de administração da Carnegie Corporation de Nova Iorque e o conselho consultivo do programa de Ética na Inteligência Artificial da Universidade de Oxford. Foi distinguido internacionalmente, incluindo com o Prémio Dan David pela defesa da liberdade académica (2021), a Medalha Symons (2023) e o Prémio Princesa das Astúrias de Ciências Sociais (2024). Falou com o Expresso depois de ter participado no Foro La Toja deste ano.

Democracia liberal, autocratas eleitos e mecanismos de autocorreção

Defendeu, recentemente, que a democracia poderá estar a minar-se a partir de dentro. O que está a democracia a fazer mal, em concreto? E quem deve corrigir isso?

A democracia, em si, não “faz” nada - não é um sujeito com vontade própria. Quem age são os autoritários iliberais - por exemplo, Viktor Orbán [ex-primeiro-ministro da Hungria] - que se servem do processo democrático para o corroer por dentro. A legitimidade vem de uma eleição democrática, sem dúvida: ele ganhou eleições livres. Porém, assim que os cidadãos lhe entregam o poder, começa a concentrá-lo e a fragilizar o Estado de direito, a liberdade de imprensa, instituições independentes de todo o tipo, e acaba por visar uma universidade como a nossa. E, em última instância, atacar universidades é atacar a própria democracia.

Estamos agora a assistir ao segundo caso, o dos Estados Unidos [EUA]. Formei-me em Harvard e estive lá em fevereiro, porque integro a comissão visitante da Escola Kennedy. A instituição inteira está em conversações com Trump que parecem uma situação de reféns. Trata-se, por várias métricas, da melhor universidade do mundo. Bem, eu diria isso, claro. O que se vê é excesso autoritário. Na minha opinião, desencadeou a crise mais grave no ensino superior norte-americano de que há memória - e ainda não acabou.

Quando digo que a democracia está a ser usada para enfraquecer a democracia, é disto que falo. Ainda assim, não sou pessimista: enquanto os regimes eleitorais não forem totalmente desmantelados, o resultado recente na Hungria [derrota de Orbán] sugere que, mais cedo ou mais tarde, a democracia acaba por engolir quem tenta destruí-la. Foi o que me parece ter acontecido com Orbán.

E é possível antecipar algo semelhante nas eleições de novembro [para o Congresso dos EUA]: na minha leitura, é inevitável que Trump perca o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado. Ou seja, a democracia tem um antídoto - desde que não seja manipulada ao ponto de deixar de conseguir produzir autocorreção. Mas veremos. Estamos no meio de uma disputa.

Harvard, por exemplo, só conseguiu salvar os seus programas internacionais na Escola Kennedy graças a uma providência cautelar de um tribunal federal. Por isso, os tribunais estão a cumprir a sua função. Como digo, não estou pessimista, mas a democracia está constantemente a ser testada. É ilusório tratá-la como um sistema estável. O poder corrompe, e quem o detém tentará pressionar as estruturas que o limitam numa democracia. E isso acontecerá em Portugal, em Espanha, no Canadá. É preciso encarar isto com serenidade - e com vigilância.

Descreve a democracia como “uma legitimadora promíscua”, usada tanto por regimes liberais como iliberais. Como evitar que tal aconteça?

A democracia de que falo é a democracia liberal: governo constitucional, legislativo eleito por sufrágio popular, um executivo com autonomia, imprensa livre, reguladores independentes. Nesta estrutura, a minha definição de democracia é simples: poder a controlar poder para manter o povo livre. É assim que a explico aos meus alunos. E é um sistema com capacidade de autocorreção.

A propensão para o excesso é inevitável - e, por vezes, até vem do poder judicial. No Brasil, por exemplo, houve quem considerasse que o poder judicial foi longe de mais na Operação Lava Jato. Não sei. Há ocasiões em que os juízes vão demasiado longe. Noutras, os meios de comunicação social ultrapassam limites. Mas, na maioria dos casos, o excesso vem do executivo.

Em Espanha, por exemplo, há muitas críticas ao poder de [Pedro] Sánchez [primeiro-ministro]. Não tem maioria parlamentar, não conseguiu aprovar um orçamento, mas governa como se fosse a única pessoa que conta. As democracias liberais com boas regras constitucionais conseguem corrigir-se - se lhes for permitido fazê-lo. Só que todas as democracias são instáveis e vivem numa tensão permanente entre estes poderes. Os períodos de consenso sobre as regras do jogo são exceção, não norma.

É aqui que entram os cidadãos e, por isso mesmo, a liberdade de imprensa é crucial. Isto toca temas muito concretos. A cidadania democrática - expressa em sondagens, programas de rádio e outros meios de comunicação social - quando afirma que não gosta do que Trump está a fazer no Irão, ou do que está a acontecer com o preço dos combustíveis, é o travão mais eficaz contra os excessos do executivo.

Basta colocar isto ao lado da Rússia de Putin: esse espetáculo inacreditável de um homem que envia centenas de milhares de jovens russos para a guerra como carne para canhão, para morrerem - e eles sabem que vão morrer - e depois tenta adoçar a realidade com carros, pensões e mais isto e aquilo. Sem contrapoder democrático, pode enviá-los para morrer quase indefinidamente. E isso é uma obscenidade. É por isso que sou um democrata visceral. Isto importa.

Quando as próprias regras do jogo democrático são contestadas – eleições, tribunais, comunicação social –, a política deixa de ser uma competição normal e torna-se uma luta de regime?

Pode acontecer. Não conheço todos os detalhes, mas houve momentos em que o confronto entre poder judicial e executivo em torno da corrupção, no Brasil, se transformou numa luta de regime. E choques desses deixam marcas.

Disse que a democracia vive em tensão, mas há ocasiões em que o sistema pode, de facto, rebentar. Depois, resolve-se, e volta a algum equilíbrio. Só que temos pouca memória coletiva: um regime democrático assenta no antagonismo e no conflito - entre juízes e executivo, entre políticos e meios de comunicação social - e isso é necessário. Mas é conflito entre adversários, não entre inimigos.

Quando os políticos passam a achar que estão perante inimigos, muda tudo. Torna-se mais sórdido. A mentira torna-se mais descarada. A manipulação torna-se mais intencional. Se formos adversários, há regras. Como político, eu podia falar consigo fora de registo. E tenho quase a certeza de que respeitaria o fora de registo. Somos concorrentes - adversários - mas não inimigos. Um inimigo quer matá-lo. Um adversário quer apenas ganhar um jogo. A liberdade democrática depende muito de manter esta distinção e de preservar o conflito como disputa entre adversários, e não como algo de vida ou morte.

Ainda assim, por vezes as democracias escorregam para conflitos existenciais. E isto não é um problema exclusivo da direita. Um dos meus grandes heróis políticos é Franklin Roosevelt. Pois bem: em 1938, tentou ‘encher’ o Supremo Tribunal [prática que consiste em aumentar o número de magistrados para garantir que as nomeações favoreçam o partido ou governante no poder], e muita gente disse: “Esperem lá, isso é ir longe de mais”. Ele sentia que não conseguia fazer passar a sua legislação com aquele tribunal, tentou expandi-lo, e o tribunal resistiu, com apoio popular, e o maior Presidente do século XX teve de recuar.

Não é um argumento contra a direita ou contra a esquerda. É um argumento a favor do equilíbrio democrático. O que me fascina na democracia é precisamente o conflito. O génio democrático está em transformar o conflito - social, de ideias, de disputa pelo poder - numa batalha entre adversários e não numa batalha entre inimigos. A democracia é um sistema para dominar o conflito e impedir que ele se torne destrutivo. É uma conquista humana enorme, quase no sentido antropológico.

Todas as sociedades são conflituosas: há conflitos de classe, de género, de regiões, de raças. E a nossa tarefa é, no essencial, impedir que nos matemos uns aos outros. Tenho a sensação de que a guerra civil é sempre uma possibilidade. Basta olhar para Espanha.

E a razão por que sou liberal, no sentido clássico, é que o liberalismo nasceu no século XVII como resposta às guerras religiosas. O desafio era: como construir uma ordem política onde protestantes e católicos vivessem na mesma sociedade sem se matarem? Tomaram-se decisões notáveis: separar a Igreja do Estado, manter o poder religioso num lado e o poder do Estado noutro. E a doutrina da tolerância é uma obra-prima de subtileza psicológica: diz que se pode continuar a desprezar católicos pelas suas crenças e a desprezar protestantes pelas suas crenças - mas tem de se viver com eles. Reconhece que somos criaturas divididas e apaixonadas e que as convicções nos podem levar a atos assassinos - e isso é bom. As convicções são parte do que nos torna humanos. O problema político, depois, é aprender a gerir essas convicções para não nos destruirmos. É por isso que sou liberal; é isto que considero que o liberalismo defende.

Voltando à Hungria, que descreveu como “a vanguarda da contrarrevolução”, que países o preocupam mais, agora que Orbán foi derrotado?

Quem passa a ser a vanguarda? É isso que está a perguntar?

Sim.

É uma boa pergunta. Pode ser Trump. No auge do liberalismo, nas décadas de 70 e 80, a contrarrevolução já se estava a formar nos EUA. Sempre existiu uma contrarrevolução ao liberalismo. Se recuarmos a Edmund Burke, em 1790, ele já diz tudo o que voltaria a ser repetido desde então sobre o liberalismo: que somos individualistas, egoístas, obcecados com dinheiro, sem respeito pela religião, pela família, pela tradição. Está tudo lá.

Essa crítica foi reanimada nos anos 70 pelos conservadores norte-americanos e, depois, espalhou-se pelo mundo. Vejo muitos conservadores americanos um pouco inquietos por Trump ser o seu porta-voz. Sentem desconforto com várias coisas que ele diz: a vulgaridade, o desinteresse evidente pela religião, ou aquela religiosidade hipócrita em que ninguém acredita. E há ainda o facto de ele não ser ideológico. Trump não tem uma grande teoria ideológica. Orbán tinha. Parte do que tornou Orbán mais influente do que o simples primeiro-ministro de um país pequeno foi ter uma visão ideológica do mundo e ter-se autoradicalizado.

Respondendo: não sei quem ocupa hoje o lugar de avatar ideológico no poder, porque não conheço suficientemente as pessoas da AfD [Alternativa para a Alemanha, de extrema-direita]. Podem vir a ser os próximos candidatos. A Alemanha tem uma longa tradição de política ideológica e um talento particular para a ideologia - por isso devemos acompanhar esse espaço com atenção.

Universidades, Hungria e EUA: porque são um alvo iliberal

As universidades tornaram-se alvos políticos não só na Hungria, também nos EUA e até na Europa Ocidental. Porque são as universidades tão ameaçadoras para os políticos iliberais?

Porque têm um peso enorme. Desde os anos 60, em praticamente todas as sociedades europeias e norte-americanas, as universidades expandiram drasticamente o número de estudantes. Em 1960, no Reino Unido, 10% da população tinha um diploma universitário; hoje são 35%. No Canadá, os números são semelhantes.

A universidade tornou-se o principal caminho de mobilidade social. Um diploma é a chave para o seu emprego e para o meu. Tornou-se uma instituição decisiva e, além disso, é a origem de grande parte do conhecimento em que assenta a economia. É um lugar central e, como disse Steve Bannon, a cultura vem a montante da política. Quem controlar as instituições culturais controla a política. Quem formar as elites controla as elites - e, portanto, a política. É este o modelo.

Esta é a parte mais difícil para mim, porque passei quase toda a vida em universidades. Em teoria, são espaços de pensamento livre; na prática, tornaram-se, muitas vezes, fornecedoras complacentes, aborrecidas e conformistas de ortodoxias liberais progressistas - de um tipo que traía o propósito da universidade. Essa componente da crítica conservadora tem verdade suficiente para obrigar as universidades a fazer alguma coisa. A crítica estava atrasada e, de certa forma, foi bem-vinda.

Só que a crítica serviu de pretexto. Não acredito que Donald Trump se preocupe minimamente com liberdade académica. O objetivo dele é encher de medo estas instituições grandes e poderosas e forçá-las a fazer o que ele quer. E não lhe interessa o quão destrutivo isso é.

É chocante ver os cortes no financiamento das universidades e da ciência nos EUA. Não se consegue explicar a produtividade americana, o crescimento, nem a conquista de setores tecnológicos decisivos, sem entender a ligação entre investimento federal na ciência e investimento na universidade. É uma das maiores histórias de sucesso desde 1945.

Tudo começou com o Projeto Manhattan, que criou a bomba. A América falhou em muitas coisas, mas aqui teve êxito. E o que estamos a ver agora é um sinal inquietante de que surgiu uma contra-elite americana que ignora - ou despreza - as fontes do sucesso do país. Isso, para mim, é extraordinário.

Pensavam que Harvard era apenas um sítio onde acabavam miúdos ricos, mimados, liberais e progressistas, e não viam o que estava por trás daquela pequena fachada - e há alguma verdade nessa caricatura. Quando eu vivia em Harvard, ia para a cama e via as luzes dos laboratórios acesas à 1h da manhã, porque havia gente a trabalhar. O facto de não terem percebido que a prosperidade do país inteiro dependia disso mostra quão polarizado e dividido o país está.

Os países que avançam têm elites que compreendem as razões do seu sucesso. Aqui, a elite contrarrevolucionária não entende a base do sucesso americano. É espantoso. E que Deus nos ajude se isto acontecer a Portugal. Que Deus nos ajude se acontecer a Espanha. É um tema verdadeiramente sério.

Europa, autonomia estratégica e aliança transatlântica

No Foro La Toja deste ano, o foco volta a ser a relação atlântica e o futuro da Europa. O que deve o Velho Continente deixar de externalizar aos EUA se quiser verdadeira autonomia estratégica?

A Europa precisa de indústria de defesa e de capacidade para responder às suas necessidades de segurança. Tem também de deixar de externalizar a energia para o Médio Oriente e começar a internalizar as suas necessidades energéticas com renováveis e, receio, também com nuclear.

Sei que o nuclear tem custos e cria problemas, mas não vejo como podemos cumprir metas climáticas e alcançar autonomia energética sem mais nuclear. Acho que os alemães cometeram um erro histórico… mas isso levar-nos-ia para outra conversa.

Outra questão inquietante é que todo o código aqui [no telemóvel] pertence aos americanos e que todos os dados são propriedade de muitas dessas empresas. Teremos de desenvolver, a médio prazo, código que, antes de mais, responda às necessidades de segurança europeias, para termos dados protegidos. E teremos de criar capacidades para manter sob propriedade europeia aquilo que é essencial preservar em segurança.

Não me incomoda que a Apple saiba tudo o que eu quero saber e que isso esteja em Cupertino, na Califórnia. Para mim, está bem. Não precisamos de reinventar a roda. O que defendo é capacidade soberana em inteligência artificial, em defesa e em energia. Essa é a agenda - e acho que a Europa sabe que tem de a assumir.

A Europa também precisa de deixar de se ver de forma tão negativa. Compare-se a Boeing com a Airbus, ou olhe-se para a SAP na Alemanha. Existem boas empresas aqui. Em Espanha, há empresas muito, muito fortes na banca. A Europa faz várias coisas muito bem; é preciso identificar esses nichos e tornarmo-nos os melhores do mundo.

Sou canadiano, mas vivo aqui. Porquê? Porque gosto de estar aqui. E não é só por a comida ser boa. Gosto porque isto é uma civilização onde me sinto em casa.

Essa autonomia estratégica é compatível com uma forte aliança transatlântica? Ou a autonomia significa inevitavelmente distância de Washington?

Acho que, sim, significa distância de Washington…

Independentemente do Presidente?

A resposta politicamente correta - e não é falsa - é que a melhor relação transatlântica é aquela em que ambos os lados respeitam as capacidades um do outro e em que o equilíbrio de poder é mais nivelado.

O Canadá, por exemplo, estará num lugar muito mais seguro face aos EUA se tiver investido muito mais em defesa, se tiver desenvolvido capacidades estratégicas em minerais críticos e noutras áreas, e se tiver eliminado as suas barreiras comerciais internas para criar um mercado interno eficiente. Qualquer relação com países mais poderosos melhora quando construímos o nosso próprio poder.

Em teoria, acabará por surgir uma administração [nos EUA] melhor, que perceba que as alianças não diminuem o poder americano; são uma fonte fundamental desse poder. A Aliança Atlântica acrescenta poder à América, não subtrai. Se aparecer uma administração que entenda isso - e é fácil imaginar que possa chegar em 2028 ou 2032 -, a Europa estará numa posição forte, porque o equilíbrio será mais igual.

Mas temos de nos preparar para o pior: uma administração Vance de 2028 a 2032 e depois a 2036, na qual J. D. Vance continue a repetir versões do discurso de Munique durante os próximos dez anos. É um cenário real.

Nesse caso, poderemos deixar de ter a NATO tal como a conhecemos, e poderemos ter de combinar capacidades de dissuasão nuclear entre França e Reino Unido. Talvez tenhamos de fazer o Reino Unido regressar à União Europeia, de alguma forma. Talvez tenhamos de permitir que a emergência obrigue à criação do mercado único europeu de capitais de Mario Draghi. Acho que chegou o momento.

Outra coligação de vontades?

Pode ser que isso force uma coligação de vontades. A Europa tem de se perceber com muito mais potencial de poder e de o exercer ao máximo.

Isso implica que cada país enfrente, sem autoenganos, a forma como os seus sistemas democráticos empurram os políticos para longe de soluções europeias comuns. Essa é a parte suja. Comecei esta conversa a dizer como a democracia é maravilhosa. Mas a democracia também está a afastar Espanha dos compromissos europeus em defesa. Pode estar a afastar Portugal, não sei.

A famosa frase americana “all politics is local” pode matar a Europa. É preciso uma liderança que diga: “Se queremos um Portugal forte, temos de ter uma Europa muito forte. Se queremos uma Espanha forte, temos de ter uma Europa muito forte”. E isso significa que Espanha tem de fazer um sacrifício difícil da sua autoridade política nacional para maximizar a autoridade no centro, porque, se estamos rodeados por três hegemonias predadoras, os jogos têm de parar.

Os EUA, a Rússia e a China?

Sim.

Poder tecnológico, inteligência artificial e agência democrática

Tem alertado para os riscos democráticos do poder tecnológico. O que o preocupa mais: o uso autoritário da IA ou as sociedades democráticas numa deriva de controlo soft em nome da segurança e eficiência?

Meu Deus, preocupam-me os dois. Acho que me inquieta mais o segundo, porque no primeiro pouco posso fazer. Os chineses farão o que entenderem fazer, os russos farão o que entenderem fazer; nós só podemos proteger-nos e assegurar que os nossos sistemas de dados e os nossos sistemas políticos estão seguros.

A meu ver, o maior desafio da democracia é garantir que as máquinas não passem a mandar em nós. O essencial é recuperar controlo democrático sobre a nossa ágora, sobre o espaço público. Isto [o telemóvel] é hoje o espaço público do mundo - e o seu jornal vive dentro desse espaço.

Mas é um esgoto, e é um esgoto perigoso, assustador. Há conteúdos que eu não quero que uma criança veja. Há coisas que eu próprio não quero ver. Imagens que degradam o que é ser humano e que fazem mal, de forma real, a seres humanos.

E temos de encontrar uma forma - e não é fácil - de preservar a liberdade que estas ferramentas nos dão e, ao mesmo tempo, proteger-nos dos danos que essa liberdade cria. É um problema democrático clássico. Precisamos simplesmente de pôr as pessoas mais inteligentes da tecnologia, os legisladores mais inteligentes e as pessoas mais capazes a resolver isto. Somos capazes, mas, neste momento, não estamos bem. É assustadoramente mau.

O que deve a democracia oferecer aos seus cidadãos em tempos sombrios: esperança, honestidade, proteção, agência…?

Sim. Antes de o ter dito, eu ia dizer agência. É a promessa mais básica que a democracia faz a cada pessoa. O cidadão é um agente: pode escolher. O que diz conta. É assim que exprimimos a dignidade. O que dizemos às pessoas é: tu importas.

Quando eu estava na política, tinha de ouvir as pessoas. Nunca me esqueci de ver o senador Ted Kennedy chegar a um hotel em Boston… havia vários dignitários à entrada para o cumprimentar. Ele não os cumprimentou. Cumprimentou os empregados de mesa, os assistentes, as pessoas atrás do balcão. Porque sabia onde estavam os votos.

E isso foi a maneira dele expressar algo profundo sobre democracia e sobre a igualdade que a democracia confere. Um sentido de igualdade que nunca se realiza por inteiro, mas que exprime um valor simplesmente vital. Porque da agência vem a esperança, da agência vem a crença. Não estamos numa selva. Podemos construir aqui uma casa para nós. Por isso, sim: agência.

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