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Keir Starmer promete mudar de tom, nacionalizar a British Steel e ponderar regressar ao mercado único europeu

Homem em fato conversa com grupo de trabalhadores de obra usando capacetes e coletes de segurança dentro de fábrica.

Keir Starmer apresentou, na manhã de segunda-feira, uma viragem na forma e no conteúdo da sua liderança: prometeu baixar o tom, escutar mais, avançar para a nacionalização total da siderurgia britânica e até considerar, num horizonte posterior, um regresso ao mercado único europeu. As declarações surgiram depois de um fim de semana marcado pela leitura do revés eleitoral sofrido nas eleições locais (em partes de Inglaterra) e regionais (na Escócia e no País de Gales), realizadas na quinta-feira anterior.

Com a pressão a crescer dentro do Partido Trabalhista e entre rumores de alternativas que se estarão a posicionar para liderar o partido e o Governo de Sua Majestade, Starmer deixou um aviso: se esta tentativa falhar, o país “seguirá por um rumo muito escuro”. A referência, sem o mencionar, aponta para um eventual triunfo do Reform UK em futuras legislativas.

O Reform UK, partido de direita radical, destacou-se como o maior vencedor das eleições locais: somou mais de mil vereadores aos que já tinha nos municípios ingleses e ascendeu a segunda força no parlamento galês e a terceira no escocês. Ao mesmo tempo, os trabalhistas perderam para os nacionalistas o controlo do País de Gales - que mantinham desde a criação das instituições autónomas, em 1999 - e não conseguiram cumprir o objetivo de reconquistar a Escócia aos independentistas que a governam desde 2007, já a projetar um novo referendo à independência.

“No crescimento, na defesa, na Europa e na energia, precisamos de uma resposta maior do que prevíamos em 2024”, afirmou o primeiro-ministro, que nesse ano conquistou uma maioria absoluta e encerrou catorze anos de executivos do Partido Conservador. Para Starmer, “Cumprir é essencial, mas não é suficiente para, só por si, resolver a frustração que os eleitores sentem”. Neste discurso, foi apresentado pela deputada Jade Botterill, eleita sob a sua liderança em 2024 num círculo que, nas legislativas anteriores, tinha escolhido um conservador.

Alerta contra Verdes e direita radical

Apesar de insistir que “as listas de espera no serviço nacional de saúde estão a diminuir, a pobreza infantil está a diminuir, a imigração está a diminuir”, Starmer reconheceu que essa melhoria ainda não é percebida pelo cidadão comum. E é precisamente aí, admitiu, que se abre espaço para forças populistas como o Reform e também os Verdes - outra formação que teve bons resultados nas locais -, que “exploram e amplificam” o desespero sentido pelas comunidades.

O chefe do Governo reservou críticas particularmente duras para Nigel Farage, líder do Reform e figura central, há dez anos, na campanha que conduziu à vitória eurocética no referendo do ‘Brexit’. Sobre a saída da União Europeia, Starmer declarou: “Ele disse que ia tornar-nos mais ricos; tornou-nos mais pobres. Disse que faria descer a imigração; a migração rompeu o teto. Disse que tornaria o país mais seguro; voltou a errar, tornou-nos mais fracos”.

Na sua leitura, a direita populista representa uma ameaça maior do que a dos próprios conservadores. O Partido Conservador “pelo menos tem de enfrentar” o que defendeu, enquanto Farage “fugiu e agora fala de quase tudo menos das consequências da única política que alguma vez cumpriu”.

“Passámos demasiado tempo a ignorar pessoas”

Recorrendo às suas raízes de classe trabalhadora, Starmer admitiu que muita gente “não acredita que vejamos as suas vidas”. E fez um mea culpa: “O que concluo é que passei demasiado tempo a falar do que ando a fazer pela gente trabalhadora, e pouco a explicar porque o faço e quem represento”.

O primeiro-ministro recordou um irmão, entretanto falecido, que ao longo da vida teve vários empregos, e uma irmã cuidadora, que trabalha muito e recebe pouco. “Passámos demasiado tempo a ignorar pessoas como eles, e há milhões de pessoas nesse barco, milhões de pessoas que não recebem a dignidade, o respeito, as oportunidades que merecem, para irem até onde o talento e o esforço os levarem.”

Sublinhando que, “após duas décadas de estagnação”, a economia está agora melhor e mais estabilizada, Starmer avançou com decisões concretas: pretende nacionalizar a 100% a siderúrgica British Steel e admite a possibilidade de, no âmbito do processo de reaproximação à União Europeia que tem vindo a conduzir, regressar ao mercado único ou à união alfandegária - mas apenas depois das próximas legislativas, previstas para 2029.

Mais de 40 deputados contestatários

Por trás da intervenção desta segunda-feira está também a ameaça de uma ofensiva interna para afastar o líder trabalhista. Mais de 40 dos 403 deputados do partido na Câmara dos Comuns pediram a sua demissão ou que, pelo menos, defina um calendário para sair. Há ainda quem considere que esta é a última oportunidade para recuperar legitimidade, menos de dois anos após a entrada no nº 10 de Downing Street.

No domingo, a antiga vice-primeira-ministra Angela Rayner fez um discurso de tom muito crítico, sem exigir diretamente a renúncia de Starmer. Entre os pontos atacados, destacou a decisão tomada em fevereiro de impedir a candidatura a deputado de Andy Burnham, presidente da Câmara da Grande Manchester e potencial sucessor de Starmer (para essa ambição, tornar-se deputado era um passo indispensável).

No período de perguntas e respostas, Starmer não deu sinais de querer reabrir a porta do Parlamento a Burnham. “Qualquer decisão futura cabe à Comissão Executiva do partido”, afirmou, referindo o órgão que, há três meses, travou o avanço do autarca. “Ele está a fazer um trabalho excelente como presidente da Câmara em Manchester”, disse, acrescentando que aprecia trabalhar com Burnham, cada um “nos respetivos papéis”.

Questionado sobre a dissidência interna, Starmer foi explícito: “Não vou disfarçar que há quem duvide de mim, incluindo no meu partido”. E acrescentou: “E não vou disfarçar que tenho de provar que estão enganados. E fá-lo-ei.” Recordou ainda que, quando assumiu a liderança trabalhista, também houve quem considerasse que não tinha capacidade para vencer eleições. “Provei que estavam enganados.”

Num aviso contra “o caos de estar sempre a mudar de líder”, Starmer lembrou que o Partido Conservador pouco ganhou ao repetir esse processo - tendo tido, em catorze anos no poder, David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak como primeiros-ministros. Os tories acabaram por sofrer um dos seus piores resultados de sempre em legislativas (121 deputados), no verão de 2024.

A “herança terrível” dos governos tories

A contestação a Starmer não se limita a Rayner: outros aliados e até elementos do Governo têm questionado a sua capacidade de liderança. Entre os nomes apontados como possíveis pretendentes à chefia do Partido Trabalhista surgem a antiga vice-primeira-ministra e também os ministros Wes Streeting (Saúde) e Ed Miliband (Ambiente). Miliband, recorde-se, liderou os trabalhistas entre 2010 e 2015, demitindo-se após a derrota eleitoral nesse ano.

Confrontado diretamente, Starmer garantiu que enfrentará qualquer trabalhista que queira disputar-lhe o lugar. Concordou com Rayner sobre a urgência de travar o declínio do partido, justificou dificuldades com uma “herança terrível do anterior Governo” na economia e nos serviços públicos, prometeu corresponder à “enormidade da tarefa” e injectar “esperança e otimismo” no Reino Unido.

Perante a fragmentação evidenciada pelos resultados de quinta-feira, Starmer insiste que o país “não é ingovernável”. Pelo contrário, descreveu-o como “razoável, tolerante e decente, um país que vive e deixa viver”. Nas próximas semanas, ficará mais claro se o país e o seu partido lhe dão espaço para governar.

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