Portugal continua a agarrar-se a uma ilusão confortável: a ideia de que o populismo é apenas um incidente, um desvio passageiro que se corrige com boa gestão e com o desgaste natural dos anos. Essa premissa falha - e, pior do que isso, é perigosa - porque quem nela acredita evita a única pergunta que conta: não a que procura explicar o populismo, mas a que tenta compreender o vazio que ele veio ocupar.
O populismo e o vazio da política
O populismo não prospera por as pessoas serem irracionais. Avança, acima de tudo, porque a política deixou de dar resposta às questões essenciais e porque, quando o sistema parece fechado sobre si próprio, quando a linguagem partidária soa a fuga burocrática perante problemas que exigem convicção, quando ninguém assume claramente aquilo em que acredita, o lugar que devia ser preenchido por proposta é tomado pela raiva, pela descrença e pela desilusão. Nasce da ausência de política, não do seu excesso; e alimenta-se da fixação no simples contra o complexo, no puro contra o corrompido, no povo contra a elite. É uma gramática antiga e eficaz - e só é vencida por outra gramática, não pela negação permanente.
Daí a pergunta que Portugal tem preferido não encarar: existe, neste país, um partido capaz de ocupar o espaço de uma direita popular, exigente e enraizada, com valores firmes e uma proposta séria, sem cair no ressentimento que serve de combustível ao populismo?
A resposta devia ser afirmativa. E esse partido deveria (e tem de) ser o CDS-PP.
A direita popular democrata-cristã do CDS-PP
A tradição da democracia-cristã nunca foi, propriamente, uma tradição de mera gestão do dia-a-dia. Foi, sim, uma tradição de afirmação: surgiu como resposta a crises profundas e assenta numa visão que coloca no centro a pessoa, a dignidade da vida, a família como núcleo da sociedade, a subsidiariedade como princípio político e uma economia de mercado moderada pela responsabilidade. Não era um programa técnico nem um contabilismo político de mercearia. Era uma ideia de sociedade - e foi essa ideia que ajudou a construir as democracias mais estáveis e as sociedades mais prósperas do século XX.
Esse projecto não se esgotou. E é precisamente a distância entre aquilo que o CDS-PP pode ser e aquilo que tem sido que faz deste momento, ao mesmo tempo, tão exigente e tão cheio de possibilidades.
Há, em Portugal, um eleitorado que não se reconhece nem na esquerda estatizadora nem na direita especulativa; nem na esquerda paternalista nem na direita individualista; nem na esquerda niveladora nem na direita “do indiferente”; nem na esquerda identitária nem na direita reaccionária; nem na esquerda administrativa nem na direita do ressentimento.
É um eleitorado grande, diverso e exigente: trabalha, estuda, cria filhos, paga impostos; vai à missa ou não vai; vai ao estádio ou não vai; tem dois empregos ou levantou o seu próprio negócio; é patrão ou é trabalhador; vive na cidade ou no campo; chegou há pouco ou ajudou a construir o país durante décadas. Faz compras ao fim de semana, toma café a meio da manhã, combina encontros com amigos para perceber o que está na moda ou o que já se tornou clássico.
No fundo, é um português que, no meio de tantas oposições, continua à espera de uma proposta política que não o trate como cliente, mas como cidadão. Um eleitorado que não procura indefinição, mas uma ideia sólida: uma direita popular e democrata-cristã - a direita do CDS-PP.
Uma direita humanista e patriótica, que não confunde tradição com imobilismo; que entende que os valores que defende não são bons por serem antigos, mas são antigos por serem bons - porque só o que é verdadeiramente bom permanece. Uma direita atenta às pessoas e ao seu projecto de vida, de novo à família e à comunidade, sem perder de vista Portugal e o seu lugar no mundo.
A única que coloca a pessoa antes do Estado e acima do mercado; a única que fala às famílias, ao mérito, à solidariedade e à liberdade com responsabilidade; a única que diz - sem mediações e sem vergonha - aquilo em que acredita. E é exactamente porque esse eleitorado existe e continua sem quem o represente que a omissão do CDS-PP tem um custo tão alto e a oportunidade que se abre é tão rara.
Identidade, presença e renovação: o papel da Juventude Popular
O desafio, no entanto, não está apenas do lado de fora. E é aqui que importa assumir, com honestidade, um percurso histórico feito de altos e baixos - porque o CDS-PP conhece bem a travessia do deserto e a profecia constante da extinção, repetida por quem nunca percebeu o que o partido representa.
Há que reconhecê-lo com justiça: o trabalho parlamentar tem sido hercúleo, com iniciativas, propostas e batalhas travadas muitas vezes sem o devido reconhecimento. O trabalho autárquico também. Isso demonstra que existe gente séria e dedicada a trabalhar pelo partido e pelo país. É essa a base sólida sobre a qual deve assentar o próximo passo.
O risco de diluição raramente nasce das posições que se tomam. Quase sempre vem do que se deixa por fazer: da presença que se julga assegurada e afinal não está; da proximidade que se delega e nunca chega. Um partido não perde identidade apenas quando cede nas ideias; perde-a quando a rotina substitui o impulso e a “máquina” começa a trabalhar para si própria. E um partido que sacrifica a sua identidade para se manter no poder não se torna mais útil - torna-se mais dispensável: quando a diluição se instala, cobra um preço que nenhum cargo consegue pagar.
O que falta aqui não é competência; é audácia, irreverência para abraçar novas causas e coragem para chegar a quem ainda não nos ouve, sem pedir licença para o fazer.
Um partido popular não pode limitar-se a falar para os convertidos, nem ficar à espera de que as pessoas venham até ele. Tem de aparecer onde a política raramente aparece: do rural ao urbano, do interior ao litoral, nas freguesias que o poder central (demasiadas vezes) esquece e nas cidades onde a política perdeu, há muito, o contacto com o quotidiano de quem a escolhe.
Ser inconfundível obriga a proposta, convicção e coragem política: liberdade de escolha na educação; acesso universal à saúde sem monopólio estatal; habitação acessível para quem trabalha e quer construir vida própria; uma fiscalidade amiga do esforço e da poupança; segurança sem ambiguidades; imigração com regras claras; e a coragem de olhar a Constituição de frente - revendo um preâmbulo constitucional excessivamente marcado pelo contexto revolucionário de 1975, reformando o Tribunal Constitucional e criando um sistema eleitoral com círculos uninominais. As instituições moldam o país, e um país diferente exige instituições diferentes.
Somos e seremos leais aos parceiros de coligação, mas seremos, acima de tudo, leais às nossas convicções.
É neste quadro que entra a Juventude Popular: não como solução alternativa, mas como sinal de movimento e como prova de que há uma geração que recusou esperar que outros decidissem por ela. Em 2025, a JP foi a juventude partidária que mais cresceu em Portugal, segundo o próprio Expresso, e esse crescimento não foi acidental nem conjuntural: foi consequência directa de uma geração que rejeitou o conformismo, preferiu a interpelação ao silêncio e percebeu que a política não é uma fila para o emprego, mas uma vocação.
Uma geração que aprendeu - mais cedo do que devia - que assumir um projecto exige trabalho antes de exigir grandes palcos: com autarcas espalhados pelo país, com dirigentes concelhios, distritais e nacionais que levantam o partido de baixo para cima, dia após dia, longe dos microfones e perto das pessoas. A solução para o estado actual do CDS-PP não é a JP, mas passa pela JP.
Ainda assim, quem lê a moção da Juventude Popular como um ataque ao partido ou à sua direcção está a ler mal. Bem sei que há quem prefira torcer o rumo das notícias a escutar quem trabalha - mas isso tem um preço: um partido que teme o contraditório interno tem mais a perder do que a ganhar. Perde capacidade de renovação; e quanto mais se discutir cá dentro com seriedade e sem medo, melhor se serve lá fora - os portugueses - com clareza e coerência.
O que, daqui a poucos dias, deve ficar consagrado não é uma liderança - porque essa não está, verdadeiramente, em causa - mas um projecto: com bases renovadas, definição política nítida e determinação para ocupar um espaço que lhe pertence por direito doutrinário e por necessidade nacional.
Um projecto para Portugal inteiro, capaz de olhar o populismo nos olhos e dizer, sem hesitação e com plena legitimidade, que esse espaço já tem proposta e futuro.
É tempo de voltarmos a ser o CDS - Partido Popular que o país exige.
Este artigo é escrito, por opção do autor, ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945.
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