Adoravelmente assustadora, tão cómica quanto misteriosa, “O Segredo de Widow’s Bay”, na Apple TV, é daqueles achados pouco comuns nos dias de hoje - uma série com personalidade, que apetece proteger. Desde logo, pela duração dos episódios: passam a barreira dos 30 minutos, mas ficam aquém dos 40. É o ponto certo entre as séries curtinhas, que parecem acabar sempre antes do tempo, e os episódios de uma hora (ou mais) que tantas vezes nos fazem reconsiderar escolhas recentes.
Um formato raro na televisão por subscrição
A premissa assenta numa ideia simples, mas eficaz: uma localidade que precisa de visitantes e uma ameaça que ninguém quer admitir. E, ao contrário de tantos produtos feitos à régua, aqui há espaço para ritmo, para atmosfera e para um equilíbrio invulgar entre a estranheza e o humor.
Matthew Rhys em “O Segredo de Widow’s Bay”
Depois há Matthew Rhys - o que, por si só, não é propriamente raro, embora o ator galês mereça elogios sem reservas. Nos últimos tempos, vimos Rhys na HBO a dar corpo ao advogado e investigador Perry Mason, num retrato dos anos 30 em Los Angeles com uma estética noir bem marcada. Também o encontrámos na Netflix, ao lado de Claire Danes, em “O Monstro em Mim”, onde foi desmontando com elegância e frieza as dúvidas que pairavam sobre a sua personagem, apontada como suspeita de ter matado a mulher - mas terá sido mesmo ele? E, entre outros trabalhos, foi impossível ignorá-lo ao longo das seis temporadas da premiada “Os Americanos”, na Disney+, sobre um casal de espiões soviéticos a viver nos Estados Unidos durante a década de 1980, em parceria com Keri Russell, a sua companheira na série (e não só).
Agora, Rhys interpreta Tom Loftis, presidente da Câmara de Widow’s Bay, uma pequena ilha de pescadores a 90 quilómetros (ou 49 milhas náuticas, para sermos mais exatos) da costa da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. O objetivo de Tom é claro: relançar o turismo e, assim, salvar uma terra onde, à primeira vista, nunca acontece nada.
Ele chegou ao cargo por via democrática, mas sem adversários. Os habitantes até parecem apreciá-lo, só que respeito é outra conversa: nem a secretária, que entra e sai quando lhe apetece, nem o filho adolescente - que, como tantos adolescentes na televisão, faz sobretudo o que quer - o levam muito a sério.
Nevoeiro, maldições e referências do terror
O plano de dinamização turística, contudo, tropeça num detalhe inconveniente: há quem ache que a ilha está amaldiçoada. Tom não dava crédito a essas histórias, mas, quando termina o primeiro episódio, o seu ceticismo já foi substituído por um medo bastante concreto - porque, mesmo que “nada se passe” em Widow’s Bay, coisas estranhas acontecem por lá.
Vistos os dois episódios iniciais e apanhadas algumas piscadelas de olho, parecia que já tínhamos identificado o caminho que Katie Dippold, a mente por trás de “O Segredo de Widow’s Bay”, queria seguir. Um nevoeiro inexplicável, que surge depois de um tremor de terra, aproxima-se da ilha. Há perigo ali dentro. Quem entra não regressa. Pelo menos é isso que garante Wyck, velho lobo do mar interpretado por Stephen Root - um ator com o talento particular de tornar as personagens simultaneamente cómicas e inquietantes. Basta lembrar, por exemplo, o mentor de assassinos em “Barry” (HBO) ou o funcionário ignorado por colegas e chefias que, num murmúrio ameaçador, fala em incendiar o escritório em “O Insustentável Peso do Trabalho”, de Mike Judge, na Disney+.
"Lembramo-nos de Stephen King e Frank Darabont, de John Carpenter, de Mike Flanagan e da sua “Missa da Meia-Noite”"
Há, portanto, uma ilha pequena. Um nevoeiro ameaçador. E ainda uma casa assombrada. As superstições acumulam-se, como a crença de que os nativos não devem deslocar-se ao continente. "Lembramo-nos de Stephen King e Frank Darabont, de John Carpenter, de Mike Flanagan e da sua “Missa da Meia-Noite”", na Netflix. E, quando vemos Tom Loftis em modo de contenção de danos - a tentar esconder de um jornalista de viagens do The New York Times, acabado de desembarcar, o folclore local, os avisos do velho Wyck e o ruído das lendas -, é difícil não pensar no presidente da Câmara de Amity Island, que também não queria que um tubarão-branco estragasse o turismo na véspera de um grande feriado.
Os dois primeiros episódios encaminham a história por uma rota que parecia relativamente fácil de antecipar. Só que o terceiro episódio troca-nos as voltas: afasta-se do nevoeiro mais soturno, faz entrar novas personagens e abre espaço a outras maldições e lendas urbanas. A narrativa aproxima-se com mais decisão do terror - sem, ainda assim, largar a comédia, que aqui funciona de forma discreta, por vezes situacional, mas sempre ancorada no humor de personagem. Quando ler este texto, o quarto episódio já estará disponível - sempre à quarta-feira, num total de dez.
Katie Dippold e o cruzamento entre comédia e terror
“O Segredo de Widow’s Bay” é o resultado de uma argumentista com um percurso sólido na comédia a ter liberdade para desenvolver um projeto que alimenta, há quase 20 anos, o seu fascínio pelo cinema de terror. Em entrevistas, Katie Dippold, hoje com 46 anos, tem explicado que a série nasceu da vontade de reproduzir a sensação de "medo divertido" que tinha em criança ao explorar lugares supostamente assombrados. A primeira versão, mais inclinada para a comédia, surgiu precisamente como amostra de escrita que lhe abriu a porta para a equipa de argumentistas de “Parques e Recreação” - e, já agora, há momentos em que esse humor de engrenagem burocrática ainda se nota na autarquia de Widow’s Bay.
Entretanto, Dippold assinou o argumento de “Olha Que Duas” (com Amy Schumer e Goldie Hawn), escreveu duas comédias para o realizador Paul Feig - “Caça-Fantasmas” (a versão de 2016) e “Armadas e Perigosas”, com Sandra Bullock e Melissa McCarthy - e lançou uma comédia sobrenatural inspirada em “A Mansão Assombrada” dos parques temáticos da Disney. Como se percebe, “O Segredo de Widow’s Bay” não é a sua estreia a misturar comédia e terror; é, sim, a primeira vez em que o medo se impõe de forma tão evidente sobre a galhofa.
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