Há dias, numa crónica no Expresso online, dei por mim a tentar encontrar a forma certa de nomear ações hediondas, intoleráveis e bárbaras praticadas por agentes da PSP contra pessoas sem-abrigo e imigrantes. O problema é que, depois de estas palavras terem sido esbanjadas em episódios de menor gravidade - em metáforas ditirâmbicas e exageros delirantes - torna-se difícil descrever um ato que parece ultrapassar tudo o que já foi dito com essas mesmas expressões.
Um exemplo recente (apenas isso: um exemplo) foi a acusação, por parte do líder da UGT, de que os autores do pacote laboral pretendiam instalar em Portugal um “regime esclavagista”. Noutra crónica, no Observador, a jornalista Helena Garrido classificou a situação como “radicalização laboral”. A designação é certeira, mas o fenómeno que está por trás disto vai muito além do tema do trabalho.
Palavras exatas, radicalização e distância entre pessoas
Francisco José Viegas chamou a atenção para o mesmo vício, lembrando usos correntes que baralham o sentido: “resiliência” tomada como sinónimo (que não é) de resistência; “ativista” aplicado como se fosse uma profissão; ou “tóxico” usado para rotular simplesmente o que nos desagrada. E fecha a crónica em que lista estes casos (no Correio da Manhã) com uma ironia fina: “Esta coluna é vista como ‘tóxica’ por certos ‘ativistas’. Não diz as coisas da moda.” Tem toda a razão - mas, do meu ponto de vista, a questão já não é apenas uma moda.
Mais do que a radicalização, ou do que a adesão a tendências sem nexo (o que por si só já é funesto), a escolha de palavras cada vez menos precisas e cada vez mais frenéticas - para sublinhar distâncias políticas ou comportamentais - contribui de forma deliberada para afastar o outro. E, com isso, reduz-se a possibilidade de diálogo útil, levantam-se barreiras, traçam-se linhas por onde passam apenas os membros da nossa tribo.
Saúde, SNS e o gosto pela frase extrema
Um exemplo acabado deste estilo apareceu esta semana nas declarações do presidente da associação de médicos tarefeiros, que apontou ao Governo, e em especial à ministra da Saúde, uma “tentativa de homicídio” das populações do interior. Um médico como Nuno Figueiredo e Sousa sabe, pelo menos em termos básicos, o que configura uma tentativa de homicídio; se não se deixasse levar pelo entusiasmo das palavras - como acontece nesta moda da radicalização - perceberia que a acusação é absurda. Tão absurda quanto a do “esclavagismo”.
A questão é que, muito provavelmente, este médico é, ao mesmo tempo (ou até antes), ‘ativista’. E, como tal, sente-se obrigado a subir sempre a fasquia do discurso. Já consigo ouvir um leitor a objetar que é precisamente disto que a comunicação social se alimenta: destas frases sonoras, destes “tiros” verbais que dão título. É verdade. Mas a comunicação social devia cumprir um papel de mediação; e os agentes políticos, sindicais e associativos não deviam correr atrás da ‘manchete’, deviam antes procurar a razão que possa existir nos seus argumentos.
O SNS como caso de estudo: problemas reais e causas raramente ditas
A Saúde, na verdade, merecia ser estudada com mais método. O SNS é retratado, quase sempre, como estando pior - e, em termos objetivos, há motivos para isso: as listas de espera cresceram, sobretudo no tempo de espera em cardiologia e oncologia. Também é plausível que haja desorganização e burocracia a mais.
Ainda assim, quando se debate o SNS, há dimensões que raramente entram na conversa: o envelhecimento da população; o aumento do número de utentes, incluindo os imigrantes (que, evidentemente, têm todo o direito); a crescente complexidade e o custo das práticas médicas, tal como o peso dos meios auxiliares de diagnóstico. Também os medicamentos se tornaram mais sofisticados, mais eficazes e, muitas vezes, de preço elevado.
Se o Pacto da Saúde, proposto pelo Presidente da República, conseguir olhar para o conjunto e avançar respostas para todos estes pontos - recorrendo a palavras rigorosas e não às da propaganda ‘ativista’ - isso será um feito extraordinário.
“A novilíngua é a única linguagem do mundo em que o vocabulário diminui todos os anos”
George Orwell (1903-1950)
Escritor britânico, autor da célebre distopia “1984”, de onde é retirada esta frase. A novilíngua era a forma de expressão totalitária
Antes que me Esqueça
COMPLEXIDADES
As notícias, tal como muitas vezes são apresentadas, parecem incompreensíveis - ou meros sinais de desgoverno. Veja-se o aumento das listas de espera na Saúde, ou os atrasos em cirurgias, incluindo as cruciais, como as cardíacas ou oncológicas.
Mas as notícias não têm todas o mesmo grau de explicação. O Expresso, num texto bem organizado de Vera Lúcia Arreigoso - que há anos acompanha os temas da Saúde - esclarece que a redução das cirurgias se explica sobretudo pelo travão na atividade adicional dos médicos, depois de se terem detetado irregularidades no trabalho extra de um dermatologista no Hospital de Santa Maria. As suspensões associadas ao maior escrutínio das horas adicionais representam 30% ou mais das suspensões de cirurgias.
Isto é: a oferta baixou porque os hospitais passaram a ser mais escrupulosos a controlar as horas que as equipas médicas faziam para lá do que estava contratado. Em simultâneo - em particular em novembro e dezembro do ano passado - faltavam camas devido não apenas a surtos de gripe, mas também ao chamado internamento social (pessoas já com alta, mas sem condições para irem para outro lugar).
É sempre mais fácil recorrer à explicação da incompetência, ou ao suposto impulso homicida dos responsáveis. Mas, como diz o povo, às vezes por “bem querer, mal fazer”. Foi isso que aconteceu com a redução da atividade adicional imposta pelas direções hospitalares.
MINISTRA
Ana Paula Martins merecia uma medalha. Não tanto pelo que fez, mas sobretudo pelo que não fez: demitir-se e empurrar os problemas para outro responsável, que tentaria fazer diferente e, ao resolver uns, acabaria por descobrir outros.
As fragilidades do SNS não se corrigem de ânimo leve, e estar à frente da Saúde é, por si só, um ato de coragem. Quem exige a demissão da ministra tem soluções melhores? Quais? Basta olhar para a confusão em torno dos tarefeiros e das horas adicionais para perceber que os problemas são bem mais complexos do que a propaganda simplista - mas errada - típica de populistas e de quem procura ganhos políticos à custa de matérias muito sérias. E ainda falta entrar na Segurança Social, onde existe outro imbróglio.
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