As eleições autonómicas na Andaluzia, agendadas para este domingo, encerram em Espanha um período político particularmente turbulento e dão início a outro, igualmente tenso, com horizonte nas autárquicas e legislativas de 2027.
De acordo com as previsões, os andaluzes deverão reproduzir o guião observado nas três mais recentes eleições regionais - na Estremadura, Aragão e Castela e Leão: uma vitória clara do Partido Popular (PP, centro-direita), uma penalização do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, centro-esquerda) e um papel de relevo para o Vox, de extrema-direita. Analistas consideram que um resultado deste tipo terá impacto significativo nas eleições do próximo ano, se não houver antecipação do calendário.
A singularidade da Andaluzia está no facto de o candidato do PP, Juan Manuel Moreno Bonilla, atual presidente do governo autonómico, poder repetir a maioria absoluta obtida em 2022, evitando assim - ao contrário do que aconteceu com colegas noutras regiões - ficar condicionado pelas exigências do Vox. Uma nova vitória no antigo bastião do socialismo espanhol durante cerca de 40 anos - berço de figuras históricas do PSOE como Felipe González ou Alfonso Guerra - voltaria a sublinhar o desgaste do partido que hoje governa Espanha.
Ministros saem em vão
A aposta de Pedro Sánchez em colocar membros de topo do Executivo como cabeças-de-lista regionais pode revelar-se, novamente, pouco eficaz. A principal rival de Moreno é María Jesús Montero, até há pouco vice-primeira-ministra e ministra das Finanças, uma figura com forte influência junto do primeiro-ministro.
Com sondagens desfavoráveis, o PSOE intensificou nos últimos dias os esforços para ativar a militância e mobilizar simpatizantes. Os estudos indicam que mais de 8% dos potenciais eleitores socialistas só decidirão o sentido de voto nas horas imediatamente anteriores à abertura das assembleias de voto.
A estratégia passa por recuperar eleitores que apoiaram o partido nas legislativas de 2023 (1.459.264 sufrágios), mas que não o fizeram nas regionais andaluzas de 2022 (888.325). Para esse objetivo, foram chamadas figuras de peso - como o próprio Sánchez e o ex-primeiro-ministro Rodríguez Zapatero - e tem-se insistido nas fragilidades atribuídas ao governo regional, sobretudo no estado dos serviços públicos, com destaque para a saúde, que, segundo esta crítica, caminha para um processo discreto de privatizações.
O executivo autonómico do PP foi afetado, no ano passado, por uma crise gerada pela falta de comunicação às doentes dos resultados de mamografias preventivas feitas a mais de 2300 mulheres na Andaluzia. O atraso terá impedido que pelo menos 40 casos de cancro fossem tratados atempadamente. O caso, ainda por encerrar, desencadeou protestos em toda a região e levou à demissão de responsáveis do respetivo sistema de saúde.
Do lado do PP, o ataque centra-se também no PSOE e no Governo nacional, explorando falhas na gestão de infraestruturas que, segundo especialistas, estiveram na origem do acidente ferroviário de Adamuz (Córdova), em janeiro, que provocou 46 mortos. A Montero são igualmente apontados lapsos, como ter classificado como “acidente laboral” a morte de dois agentes da Guarda Civil durante uma perseguição marítima a lanchas do narcotráfico na costa de Huelva.
Este fenómeno revela-se cada vez mais difícil de conter. Mesmo com medidas como reforço de verbas, aumento de efetivos ou embarcações mais potentes, os resultados parecem limitados. Na Andaluzia, a criminalidade associada ao tráfico de haxixe e cocaína provenientes de Marrocos intensificou-se e estende-se ao longo da costa de Huelva e do sul de Portugal.
Contra separatistas
Outro tema amplamente aproveitado pelo PP tem sido a cooperação do PSOE com partidos independentistas catalães e bascos, bem como as cedências negociadas para garantir a investidura e a governação de Sánchez. O novo modelo de financiamento singular para a Catalunha foi entendido pela maioria dos andaluzes como uma “afronta discriminatória”.
Apesar de rejeitar ambições políticas fora da Andaluzia, Moreno é visto como uma figura em ascensão no PP. Associado a um setor mais aberto, projeta um estilo dialogante e negociador, pouco inclinado para estridências verbais. O contraste é frequentemente feito com a presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, de perfil mais combativo e também apontada como possível sucessora do atual líder, Alberto Núñez Feijóo.
Moreno nasceu em Barcelona há 56 anos, numa família andaluza, semelhante a tantas outras que emigraram para a Catalunha. Regressou à terra de origem com 1 ano de idade. Neto de jornaleiros e filho de comerciantes, estabeleceu-se em Málaga, onde estudou até ao liceu. Iniciou cursos de Psicologia e Ensino, mas não concluiu nenhum. Possui um diploma em Protocolo e Organização de Eventos, obtido numa faculdade privada.
Casado e pai de três filhos, lidera a Andaluzia desde 2019 e, desde 2014, dirige o PP regional, partido em que milita desde os 19 anos. Quebrou 37 anos de domínio do PSOE no governo autonómico com o apoio do partido liberal Cidadãos e do Vox, mas em 2022 libertou-se dessas dependências ao convocar eleições antecipadas, que venceu com maioria absoluta.
Ao longo do percurso, foi vereador na Câmara de Málaga e deputado regional e nacional durante quatro legislaturas. Em 1997, tornou-se presidente nacional da Juventude do PP, reforçando a ligação à direção nacional em Madrid. Já em 2011, desempenhou funções de secretário de Estado dos Serviços Sociais no governo de Mariano Rajoy. Em 2014, uma votação interna escolheu-o como candidato do PP à presidência do governo andaluz.
Moreno, que prefere ser tratado por “Juanma” - algo que, segundo um apoiante, o faz parecer “mais um da família” - beneficia de boa cobertura mediática. Um perfil recente na rádio Onda Cero retratava-o assim: “JMMB representa um novo modelo de direita moderada e pragmática, que soube conquistar o eleitor tradicional andaluz do PSOE ao oferecer estabilidade, proximidade e uma gestão sem estridências”. Antonio Lucas, cronista do jornal “El Mundo”, lançava na semana passada a pergunta: “Como é possível um político avesso ao histrionismo, moderado por natureza, seduzir maiorias sociais em tempos de cólera populista?”
Na juventude, foi vocalista em bandas pop-rock como Lapsus Psíquico, Falsas Realidades e Cuarto Protocolo. Já nesta campanha, surpreendeu ao revelar que é a voz do hino usado pelo PP nos comícios, “Kilómetro Sur”, que entretanto se transformou num êxito.
Sondagens coincidentes
Por força da lei, esta segunda-feira, dia 11, foi o último dia autorizado para divulgar sondagens e projeções de voto. Os principais meios de comunicação publicaram as suas estimativas, que convergem nas linhas essenciais. O Parlamento andaluz tem 109 lugares e a maioria absoluta situa-se em 55. Estão inscritos para votar 6.812.861 cidadãos.
O Centro de Investigações Sociológicas (CIS), ligado ao Governo de Madrid, divulgou a 24 de abril a sua última grande sondagem: atribui 55 deputados ao PP, com intervalo entre 51 e 59; ao PSOE, 31 (27-34); e ao Vox, 13 (8-17). A sua equivalente regional, a Fundação Centro de Estudos Andaluzes (Centra), apontava então para 53 a 56 deputados do PP, 25 a 27 do PSOE - o pior registo histórico - e 17 a 19 do Vox.
A SigmaDos, em estudo para “El Mundo”, jornal crítico de Sánchez, publicou na segunda-feira uma projeção com 44,7% dos votos para o PP e 55 a 58 deputados; 24,7% para o PSOE e 27 a 30 lugares; e 12,9% para o Vox e 13 ou 14 assentos. Por sua vez, a 40dB, em sondagem para o progressista “El País” e para a rádio SER, aponta para 56 deputados do PP, 28 do PSOE e 15 do Vox.
À esquerda do PSOE concorrem duas listas: Pela Andaluzia (PA), que integra Esquerda Unida, Partido Comunista, Podemos e Somar, com previsão de 6 deputados. Já a nacionalista Adiante Andaluzia (AA) surgiria com 4 ou 5. No conjunto destas projeções, direita e extrema-direita somariam cerca de 71 deputados, frente a 38 da esquerda.
A região mais populosa de Espanha
A Andaluzia é a comunidade autónoma com mais habitantes (8.733.535) e a segunda maior em área, apenas atrás de Castela e Leão. Divide-se em oito províncias, tem capital em Sevilha e apresenta uma notável diversidade geográfica. Com autonomia desde 1981, é a única cuja legitimidade assenta num referendo popular, realizado em fevereiro de 1980.
O seu percurso é marcado por dois fatores: a proximidade ao continente africano, com Marrocos a 14 km, e a presença de Gibraltar, última colónia estrangeira em solo europeu. A zona do Campo de Gibraltar, com cerca de 300 mil habitantes dependentes do “Rochedo”, espera a execução dos recentes entendimentos entre Espanha e o Reino Unido para eliminar a fronteira física - algo que deverá ocorrer até 15 de julho e poderá alterar profundamente a dinâmica regional.
No capítulo da imigração, a Andaluzia contabiliza 1.202.000 estrangeiros, maioritariamente marroquinos, equivalentes a 13,76% da população - um valor inferior à média espanhola de 20,3%. A economia assenta sobretudo nos serviços, responsáveis por 62% do PIB. O turismo, que emprega mais de meio milhão de pessoas, gerou 30 mil milhões de euros em receitas em 2025, com 37,8 milhões de visitantes. O PIB per capita é de 24.564 euros (2024), abaixo da média nacional de 34.210 euros.
Apesar de melhorias recentes, o desemprego mantém-se acima do padrão do país (14,9% contra 10,4% em 2025). Em paralelo com o aumento do peso da indústria, estima-se que 3,5 milhões de andaluzes vivam perto do limiar da pobreza.
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