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Joana Marques no Porto: os bastidores de “Em Sede Própria” no Pavilhão Rosa Mota

Mulher a falar com microfone e papel na mão perante grande audiência numa sala de espetáculos iluminada.

As operações de montagem para a maior paragem da digressão de “Em Sede Própria” já iam a meio quando, por volta das 11h30, entramos no Pavilhão Rosa Mota. Nessa noite, 6 de maio de 2026, arranca no Porto a primeira de sete sessões de Joana Marques. Por acaso, cruzamo-nos com a chegada da humorista: um homem tira-a de uma carrinha branca, ergue-a com grande aparato acima da cabeça e encosta-a a um dos pilares que sustentam o Palácio de Cristal. Vestida de cor-de-rosa, fica ali pousada com imponência, equilibrada apenas pela força do crânio. Haveria quem viesse dizer que a Joana Marques de cartão mede, mais ou menos, o mesmo que a Joana Marques de carne e osso. Felizmente, não é esse o nosso género.

Dentro da sala, ainda domina o verde-água do pavimento. Só metade da arena está ocupada por cadeiras. O palco ainda não tem ar de palco: há cabos por todo o lado, do tecto ao chão. É um pré-palco. Contamos depressa 51 caixas pretas, com rodas e cantos metalizados, espalhadas pelo recinto. Há mais uma lá ao fundo: 52. E aquela, pequenina: aparecem por toda a parte - caixas, caixinhas e caixotes. Ficamos nas 53, a não ser que surja mais alguma.

Na verdade, o trabalho começara no dia anterior. A estrutura metálica que sustenta luzes e colunas foi colocada antecipadamente. A produção dividiu-se entre a execução do espetáculo em Coimbra - onde Joana Marques atuou na véspera - e o avanço da montagem no Porto. Quem nos dá as boas-vindas é Miguel Isaac, agente e produtor da humorista, que também depôs no processo Anjos vs. Joana Marques. Em tribunal, teve de aguentar as perguntas das advogadas da banda e o calor típico dos tribunais portugueses, sem ar condicionado, em pleno verão - tarefas exigentes, cada uma à sua maneira. Confirmamos que o som está operacional: ouve-se “Sex and Candy”, dos Maroon 5. Não era a escolha que antecipávamos.

A área da primeira plateia, por enquanto, está entregue a uma grua azul que, face ao tamanho das portas, conseguiu entrar aqui de forma difícil de explicar. Serviu para erguer dois ecrãs gigantes junto ao palco, um deles ainda a meio caminho. Só assim quem ficar mais afastado conseguirá acompanhar as expressões de Joana Marques e os pormenores do cenário. Até agora, “Em Sede Própria” passou apenas por teatros e nunca foi preciso este tipo de aparato. Ainda assim, numa digressão com 45 sessões e cerca de 85 mil bilhetes vendidos, segundo a produção, o salto para uma arena acabaria por acontecer.

No chão, embrulhada em plástico preto, repousa uma moldura com um brilho particular. É uma fotografia dos Anjos: os irmãos Nelson e Sérgio Rosado posavam, na altura, para a revista “Bravo”. Nos anos 2000, é provável que muitas adolescentes tenham pendurado esse cartaz no quarto.

“Eu estou aqui”

Depois do almoço, perdemo-nos a tentar chegar aos bastidores. Chegamos ao ponto de cometer o pequeno delito de passar por cima de uma fita que interditava umas escadas, convencidos de que sabíamos exatamente para onde íamos. Um segurança, atento, endireita-nos o rumo: se descêssemos por ali, iríamos parar a um evento diferente. Num piso inferior do Pavilhão Rosa Mota, há outro espaço, que hoje alberga um congresso de Medicina. Desiludidos por não se tratar de um congresso de advogados ou de bandas formadas por irmãos - detalhe que teria ficado muito mais saboroso nesta reportagem -, seguimos para o local certo. Joana Marques, a de carne e osso, acaba de chegar. Esta desloca-se por si, não surge de uma carrinha branca aos braços de ninguém.

De volta à sala principal, o verde-água vai desaparecendo à medida que o preto das cadeiras toma conta do espaço. Uma a uma, colocam-nas em coordenadas definidas ao milímetro, com cuidado. Uma funcionária da limpeza garante que tudo está irrepreensível para receber o público, incluindo cada assento. Cinco pessoas esticam um fio ao longo de cada fila, confirmando o alinhamento com as marcas no chão. “Esta está toda empenada”, ouve-se alguém dizer, enquanto tenta empurrar uma fila inteira de uma só vez.

No palco, uma secretária e uma estante recriam um mais “estético” e menos “desarrumado” escritório de Joana Marques. Na zona dos livros, surgem duas obras sobre os irmãos Rosado: “Na alma dos Anjos”, de Marcos Pinto; e “O Palco da Vida”, de Daniel C. Oliveira. São duas biografias que “ajudaram mesmo” a construir o espetáculo. A humorista recomenda as duas, mas destaca a segunda, editada em 2001 e assinada por Daniel Oliveira, diretor-geral de entretenimento da Impresa e apresentador de “Alta Definição”. “Não sei se ele queria que isto se soubesse agora, mas é verdade. Fez o acompanhamento de uma tour dos Anjos e transformou-o em livro. Provavelmente, depois disto, nunca mais vou poder trabalhar na SIC”, diz Joana Marques, a rir.

A estante não se fica por aí: vemos “Durante a Queda Aprendi a Voar”, de Raul Minh’alma, e “Monstro”, de Rui Sinel de Cordes; ao lado, gramáticas de Português e Inglês, livros da Mafalda e do Charlie Brown, e títulos de humoristas como Amy Poehler e Miranda Hart, entre muitos outros. Nos discos, aparecem álbuns de The Beatles, Michael Jackson e José Cid. Há ainda uma caixa de primeiros socorros, um colar que usou no espetáculo anterior - “Desconfia” -, fotografias de família, objetos que remetem para episódios de “Extremamente Desagradável” e um prémio dos “Monstros do Ano”, cerimónia que foi discutida durante o julgamento e também surge referida em cena. Falta um cachecol do seu Futebol Clube do Porto, já campeão nacional de 2025/2026, lacuna que promete resolver enquanto estiver pela cidade.

A moldura com o cartaz dos Anjos - que a humorista garante não ser dela - está escondida atrás das estantes e terá um papel relevante esta noite. “Não tinha posters. Gostava da ‘Perdoa’, da ‘Ficarei’ e acho que é uma banda com um bom número de sucessos. Não foram uns one hit wonders.

O ensaio está apontado para as 17h30. Para já, a única certeza é que o sistema de som funciona: toca “Anjos”, de Diogo Piçarra, e “Ouvi Dizer”, dos Ornatos Violeta. Ainda nenhum dos hits da banda que queríamos ouvir. Em palco, afinam-se detalhes de encenação, com particular importância numa primeira vez em formato de arena. Além disso, há um adereço novo a estrear: um carrinho de mão, que não parece minimamente intimidado com as mais de cinco mil pessoas que o vão ver. Joana Marques também não mostra nervos: “Levando em palco com aquelas luzes de frente - pareço aqueles animais que levam com os faróis no meio da estrada -, acaba por ser quase igual se são 100 pessoas ou 1000. Nota-se diferença é na reação do público, que demora um bocadinho mais a chegar”, diz.

Falta o teleponto, e o ensaio só começa verdadeiramente 45 minutos depois do previsto. Testa-se a projeção de vídeos que apoiam a humorista a contar a história de todo o processo com os Anjos, incluindo comentários da banda e de figuras públicas que foram falando do caso na comunicação social. Entretanto, entram no teleponto passagens reajustadas do guião - pequenas alterações que vão surgindo sessão após sessão. “Prometo sempre que é a última versão, mas todos os dias há uma nova. Têm sido, sobretudo, mudanças no texto”, esclarece.

Alguns técnicos que já deram o seu contributo sentam-se na primeira fila para ver o ensaio. “Como é que reagirias se entrasses em palco e estivessem ali o Nelson e o Sérgio? Fazias o espetáculo na mesma?”, provocamos a humorista. “Se pagaram para ver, são clientes como outros quaisquer”, garante Joana Marques - ainda que admita que preferia não passar por isso. Para ela, seria desconfortável e também para os Anjos: “Iam ter toda a gente a olhar para eles à espera de uma reação.” A humorista descarta a hipótese de já terem assistido às escondidas.

No podcast “Humor À Primeira Vista”, a comediante contou que a ideia do espetáculo surgiu pouco depois de receber o processo. Daí ter tentado, no início, que o julgamento decorresse à porta fechada: queria evitar que os factos se tornassem públicos, para poder surpreender o público ao vivo. “Não queria nada que eles desistissem. É como quando lês um livro e depois queres ver o filme. Queria ver a versão em cinema e foi ainda melhor do que estava à espera”, recorda a autora de “Extremamente Desagradável”. Ainda assim, esclarece que teria preferido que a banda não recorresse depois da absolvição: “Às tantas também já chega. Parecendo que não, perde-se tempo, aquilo é intenso. Mas se recorressem, também ia com todo o gosto ver até onde podia chegar mais o absurdo.”

Quando anunciou a Miguel Isaac que queria avançar com o espetáculo, a resposta foi imediata: “Bora.” Por o processo ser tão risível para toda a gente, decidiram reservar salas: “Algumas datas foram marcadas com um ano e tal de antecedência, muito antes de o julgamento começar”, conta o produtor. Daniel Leitão, por sua vez, achou que Joana Marques estava “doida” quando ouviu a proposta. O marido, também humorista e locutor na Rádio Renascença, começou por tentar perceber se não iam “viver para debaixo da ponte”; mas, depois de ler o processo, concluiu que “era seguro fazer o espetáculo.”

Para Joana Marques, esta digressão não é um acerto de contas em forma de justiça poética nem uma missão moral do humor. É, no essencial, continuar a fazer aquilo que sempre fez: piadas. “Recebi um presente dos deuses e até era má educação não aproveitar, porque tinha muito material cómico oferecido assim de bandeja. O exercício foi ver o que podia adicionar a uma coisa que já é engraçada à partida”, explica. Desde abril na estrada - com arranque nos arquipélagos e passagem por grande parte do continente -, teve de pedir uma pausa às manhãs da Renascença. E admite que, para já, ainda não sente falta do “Extremamente Desagradável”.

Daniel Leitão não teve igual folga. No dia em que o espetáculo acontece no Porto, fez o programa da tarde da Renascença a partir dos estúdios de Vila Nova de Gaia. E no Pavilhão Rosa Mota não está só para ver: entra em todos os espetáculos, numa participação tão curta quanto intensa. “A opção era isto ou ela andava pelo país fora e eu ficava em casa com os miúdos”, diz, deixando transparecer qual escolheu. Para esta digressão, o casal teve de garantir quem ficasse com os dois filhos: a babysitter são os avós.

“Tempo”

Joana Marques abre a porta do camarim e espreita para o corredor. Está maquilhada, mas ainda sem o conjunto completo; literalmente, tem as calças na mão - vestidas, mas por apertar: “Aquilo está passado?”, pergunta. Perante os olhares confusos, ri-se e esclarece que fala da roupa. Alguém da produção trata do assunto. Passa por nós outra Joana - não a de cartão, mas a da equipa. Diz que vai ter de apressar Joana, a humorista, para sair do camarim. Respondemos que “estamos bem de tempo” para as fotografias que ainda queremos fazer; ela devolve: “mas nós não”. Faltam 20 minutos para a hora inscrita nos bilhetes e a sala já está composta.

Com as fotografias concluídas, Joana Marques volta para retocar a maquilhagem. Engana-se e segue para o nosso camarim. Como não encontra por lá nada que ajude, dá meia-volta e entra, agora sim, na sala certa. As pestanas postiças batem nas lentes dos óculos. É preciso cortar. “Ouvir o barulho da tesoura é das coisas mais horríveis, o espetáculo ao pé disto é muito fácil”, ironiza Joana Marques - presumimos nós. “Vai estar a pensar nas pestanas durante uma hora e meia”, acrescenta Daniel Leitão.

“Ficarei”

Ainda nos bastidores, a equipa fecha-se em círculo. Confirmam se os lugares estão ocupados e se há muita gente a chegar atrasada. Às 21h37, coloca-se o microfone na artista. “Depois deste, já só faltam 21”, suspira Joana Marques. Entra em palco e, mal é reconhecida, levanta-se uma explosão de aplausos. Não demora a ir ao assunto dos irmãos que a marcou.

Joana Marques diz que não nasceu para o palco. Não é exuberante, entrega-se com simplicidade. O que sobressai é a escrita das piadas, uma ferramenta que foi afinando ao longo de anos de guionismo - para outros e para si. E, perante a dificuldade de surpreender um público que acompanhou um processo amplamente noticiado, consegue elevar o espetáculo recorrendo ao método de pesquisa que usa no “Extremamente Desagradável”. Viveu o caso em primeira mão, mas foi ver, ler e ouvir tudo o que conseguiu encontrar sobre o processo. Foi até mais longe, desenterrando verdadeiros tesourinhos deprimentes do início de carreira dos Anjos. É esta a fórmula que Joana Marques faz parecer fácil: pesquisar intensamente e escrever boas piadas.

Recusa a ideia de se ter tornado um “animal de palco”, mas admite que, espetáculo após espetáculo, se diverte mais e se sente mais à vontade. Em “Desconfia”, a interpretação imitava a postura de gurus motivacionais. Desta vez, solta-se e ganha expressão. Como contou no “Humor À Primeira Vista”, chegou mesmo a gostar de testar piadas em noites de comédia, afinando-as tentativa após tentativa. Marcada pela duração de “Desconfia”, que passava largamente das duas horas, prometeu não repetir esse erro em “Em Sede Própria”. “Às vezes é preciso conseguir eutanasiar as piadas. Já desisti de umas quantas e ainda bem”, dizia numa conversa antes de o espetáculo começar.

O final de “Em Sede Própria” inclui uma saída triunfal pelo meio do público. O plano é simples: dizer a última piada, esperar pelos aplausos, lançar mais uma graça e descer as escadas. Só que as palmas prolongam-se além do que estava calculado. Joana Marques desce por um corredor que separa a primeira plateia, vira à direita e segue uma pessoa da produção. Já quase numa das portas de saída, volta a virar à direita, por um corredor lateral junto à primeira plateia. Com muitos espectadores de pé, alguns começam a sair e o caminho fica atrapalhado. Joana Marques pára diante de uma porta, sem perceber que a passagem para os bastidores está mesmo ao lado. Miguel Isaac encaminha-a rapidamente.

Ainda o corpo está quente e toda a equipa já discute o que podia ter corrido melhor. Joana Marques abre as hostilidades: “Há uma coisa que acho que resultou pior, porque é uma sala grande e as pessoas não veem…”, “que é a Joana”, corta Daniel Leitão. Caminhamos para os camarins enquanto revemos detalhes da noite. “Nas sessões anteriores, havia uma espécie de falsa saída e voltava a entrar. Não gosto de sair e ‘agora voltei para mais aplausos’. Aqui correu mal porque queria que as pessoas aplaudissem menos tempo”, explica a humorista, surpreendentemente serena para quem acabou de sair do espetáculo “mais stressante de todos.” “Lá para o décimo Coliseu de Lisboa talvez esteja super descontraída”, diz. O carrinho de mão, esse, optou por não comentar a estreia.

Houve vários momentos que arrancaram gargalhadas fortes e aplausos ao público. Pedimos a Joana Marques que nos diga qual é a sua piada preferida. “Gosto muito de todas as que têm mais a ver com a língua portuguesa, sobre a utilização e a não utilização de aspas.” Pode soar improvável, mas confirmamos: um dos picos de euforia da noite vem de sinais de pontuação.

Após a estreia, a equipa permaneceu no Porto até 10 de maio. Nesse período, Joana Marques apresentou mais seis sessões de “Em Sede Própria”. A seguir, ruma a Lisboa - em casa - para as últimas quinze sessões em doze dias. Depois disso, encerra-se (em princípio) de vez o capítulo Anjos vs. Joana Marques. “Quase todos os dias nos chegam pedidos de outras salas e promotores pelo país a dizer: ‘Venham fazer aqui’. Digo sempre que infelizmente não temos mais datas, é uma impossibilidade. Não dá mesmo”, explica Miguel Isaac. “Percebi agora que não tenho 20 anos, achava que tinha. Quando acordo no dia a seguir, sobretudo quando temos sessão dupla, sinto que fui atropelada. Isto foi tudo um exagero, a coisa meio que se descontrolou e fui a mais sítios do que imaginava, mas está a ser muito divertido”, remata a humorista.

Joana Marques voltará aos estúdios da Renascença e ao seu “Extremamente Desagradável” e, protegida pela vitória em tribunal, dificilmente voltará a apresentar-se como ré. Ainda assim, ao sair do espetáculo, fica a sensação de que muita gente passa a torcer pelos queixosos: se processar humoristas dá origem a espetáculos como “Em Sede Própria”, então talvez valha a pena termos humoristas em tribunais todos os anos.

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