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Dia Internacional contra a Homofobia: mitos, direitos e empatia

Grupo de jovens junto a uma mesa a dar as mãos numa expressão de união e amizade ao ar livre.

Um dos desafios permanentes do nosso tempo é conseguirmos separar o que é informação do que é ruído - e isso torna-se particularmente delicado quando o tema são direitos humanos. O Dia Internacional contra a Homofobia lembra-nos a necessidade de parar para pensar, perceber melhor e encontrar formas eficazes de enfrentar o preconceito.

Uma avalanche de estímulos e a maré do algoritmo

Vivemos num ambiente social polarizado e, por vezes, quase distópico na forma como se opõe a si próprio. Na rua, cruzamo-nos com cartazes onde as modelos parecem saltar do painel para nos chamarem a imitá-las, com o tal “corpo perfeito”. Logo a seguir, pegamos no telemóvel e somos inundados por conteúdos que defendem precisamente o contrário: influenciadores a repetirem que cada pessoa é única e especial, cada uma com a sua forma. Ligamos a televisão e passam notícias sobre imigração, preços dos combustíveis, crise e conflitos; mas, num instante, mudamos de canal e entramos numa série cómica norte-americana, onde o presidente dos Estados Unidos e o populismo são alvo de piadas. Vamos vivendo, muitas vezes, à mercê da opinião alheia e do empurrão do algoritmo: uma pequena inclinação, uma preferência ou um interesse nosso ganham dimensão e relevância no universo digital.

É por isso que, hoje, se torna cada vez mais difícil encontrar informação fiável e perceber em quem confiar - sobretudo quando estamos a formar a nossa própria opinião, que aqui sublinho por saber como pode ser, ao mesmo tempo, pequena e determinante. Na minha perspetiva, a bússola mais segura continua a ser o espírito crítico, aliado àqueles valores antigos que já as nossas avós nos transmitiam. E é precisamente sobre um dos mais essenciais que quero pensar hoje: a empatia.

Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia: empatia como ponto de partida

O dia 17 de maio assinala o Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia. À primeira vista, pode parecer apenas mais um domingo; no entanto, estas datas também servem para refletirmos em conjunto e olharmos com mais clareza para a sociedade em que vivemos.

No contexto atual, uma das formas mais eficazes de combater a homofobia passa por contrariar a desinformação e por ajudar a tornar evidente, para quem ainda não o vê, aquilo que é (e sempre foi) natural. Eis alguns dos mitos mais frequentes sobre o tema - e o que, na realidade, está por trás de cada um:

Mitos sobre orientação sexual e identidade de género

  1. A orientação sexual é uma opção

A orientação sexual é uma característica inerente a cada pessoa e, muitas vezes, é reconhecida cedo, no início da adolescência, manifestando-se através da atração por um ou mais géneros. Não é algo que se determine por mera vontade: é algo que se sente e que, tal como acontece com a heterossexualidade, quando é vivido com consentimento mútuo, não causa dano a ninguém - trata-se, simplesmente, de atração, carinho ou amor.

  1. A homossexualidade e a transexualidade são vistas como uma doença

Durante muito tempo, esta ideia foi amplamente difundida, e a homossexualidade continua, ainda hoje, a ser ilegal em alguns países. A 17 de maio de 1990, a homossexualidade passou a ser entendida como uma expressão natural da sexualidade humana, deixando de ser classificada pela OMS como doença mental ou perturbação. Este passo resultou, em grande medida, da ação de movimentos ativistas que trouxeram para a discussão a perspetiva de quem, até então, não tinha voz nem espaço para se fazer ouvir.

  1. Hoje, já estão todos os direitos garantidos

Neste momento, a homossexualidade e a transexualidade são ilegais em mais de 60 países. Mesmo onde são permitidas, assistiu-se, nos últimos anos, a recuos relevantes, impulsionados por discurso de ódio e por desinformação. Em 2025, Portugal desceu para a 11.ª posição na classificação da associação ILGA Europa, relativa aos países que mais defendem os direitos LGBTQIA+, tendo a sua pior classificação sido registada na categoria de crime e discurso de ódio. Em 2026, o parlamento português revogou a lei que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa. Esta alteração foi um passo dado contra os conselhos e orientações das Ordens dos Médicos e dos Psicólogos.

Entre o progresso e o retrocesso: o impacto no quotidiano LGBTQIA+

Este último ponto é, talvez, o mais decisivo nos tempos que atravessamos. Avançamos depressa, mas também recuamos com igual rapidez. É simples afirmar que qualquer pessoa homossexual, no nosso país, consegue hoje viver uma vida completamente normal. Infelizmente, a realidade é bem mais dura do que parece - e nem sequer precisamos de chegar ao tipo de discurso que hoje circula no Parlamento para o perceber.

Para muitas pessoas, a dificuldade começa dentro de casa: ainda existem famílias que não aceitam o tema ou que levantam obstáculos consideráveis. A rejeição pode ir de comentários depreciativos repetidos à recusa de contacto com a pessoa. E, quando se sai à rua, a pressão reaparece no trabalho e na vida pública: “deves dizer ou não que tens namorado ou namorada?”; “Podes agarrar na mão do teu companheiro/a enquanto dás um passeio, em público?”; “Será que podes mesmo confessar aos teus pais e a quem mais te ama sem que eles mudem a perspetiva que têm sobre ti?”.

Infelizmente, em Portugal, quem integra esta comunidade acaba por se colocar algumas destas questões várias vezes ao longo da vida, com impacto direto na sua segurança e no seu bem-estar. Diversos estudos já indicaram que pessoas LGBTQIA+ apresentam maior probabilidade de desenvolver depressão e/ou ansiedade, vendo a sua saúde mental colocada em risco. Não levanto estes pontos para discutir bandeiras, alinhar em espectros políticos ou desvalorizar os avanços que, com o tempo, foram efetivamente alcançados. Trago-os, sim, para apelar ao que há de mais humano e espontâneo em nós: a empatia.

O preconceito não desaparece por completo, porque o desconhecido assusta - e importa reconhecer que este tema continua a ser, para muitas pessoas, um território pouco compreendido. Ainda assim, mesmo que não consigamos entender tudo no meio da avalanche de mudanças e divergências do dia-a-dia, tentemos observar, ler, procurar informação séria, conversar e discutir com abertura e cuidado. Acima de tudo, exercitemos empatia pelo outro e façamos todos a mesma pergunta: que mal há em sermos nós próprios, em sentir amor?

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