Apesar de o narcisismo assentar em fundamentos comuns, não se manifesta de forma idêntica em mulheres e homens, refletindo, muitas vezes, os papéis sociais que ainda são atribuídos a cada género. Em termos gerais, o perfil feminino surge com maior tendência para a vulnerabilidade, enquanto o masculino costuma ser mais assumidamente arrogante e com “sensação de superioridade”. A psicóloga clínica Isa Silvestre explica o que a investigação recente tem vindo a mostrar e que caminhos podem ajudar a travar este padrão.
Narcisismo em homens e mulheres: o que a investigação tem mostrado
“Nos últimos anos, a investigação científica tem mostrado que o narcisismo não se expressa da mesma forma em homens e mulheres”, indica Isa Silvestre. Para a especialista, o interesse crescente por esta característica - tanto no plano individual como no social - tem reforçado a ideia de que não existe uma única forma de expressão. “Embora os traços centrais sejam semelhantes, como a necessidade de validação, dificuldade empática, fragilidade da autoestima e procura de admiração, a forma como estes traços aparecem tende a variar consoante fatores sociais, emocionais e culturais”, analisa.
Narcisismo vulnerável nas mulheres
De acordo com Isa Silvestre, nas mulheres este funcionamento “surge mais frequentemente associado ao chamado 'narcisismo vulnerável”, quadro em que a grandiosidade é menos evidente, mas a procura de validação emocional e reconhecimento se torna muito marcada. Pode traduzir-se em hipersensibilidade a críticas, vitimização, flutuação entre insegurança e superioridade, necessidade persistente de confirmação emocional e relações pautadas por dependência, culpa ou manipulação subtil.
Narcisismo grandioso nos homens
No extremo oposto, “os homens tendem a apresentar mais frequentemente aquilo que os investigadores chamam de 'narcisismo grandioso', sendo mais visível e mais facilmente reconhecido socialmente”, refere a terapeuta, que é também autora e diretora da Clínica de Psicologia que gere. Aqui, o padrão tende a aparecer sobretudo na “necessidade de poder e estatuto, sensação de superioridade, dominância, maior arrogância interpessoal, menor tolerância à crítica e tendência para controlar ou desvalorizar os outros”.
Papéis de género, contexto social e critérios clássicos
Para Isa Silvestre, as diferenças descritas ligam-se “com as expectativas sociais associadas ao género”. E detalha que “desde cedo, os homens são mais incentivados à assertividade, competição e dominância, já as mulheres tendem a ser educadas para agradar, cuidar e evitar comportamentos considerados excessivamente 'egocêntricos' ou dominadores”. Na prática, acrescenta, “faz com que muitas mulheres expressem traços narcísicos de forma mais indireta ou encoberta, enquanto nos homens esses comportamentos podem ser mais socialmente tolerados, ou até reforçados”.
A psicóloga sublinha ainda que “os critérios clássicos usados para compreender o narcisismo terem sido construídos sobretudo a partir de modelos masculinos, podendo fazer com que algumas manifestações femininas sejam menos reconhecidas ou até confundidas com outros tipos de sofrimento emocional.”
Ainda assim, lembra que estas tendências não são absolutas: existem situações em que mulheres apresentam maior inclinação para a grandiosidade e, por outro lado, casos em que homens se enquadram mais num padrão de vitimação.
Relações marcadas pela "culpa, manipulação emocional ou ausência de empatia"
O impacto destes traços nas relações pode ser particularmente intenso, sobretudo nas relações afetivas. “Muitas pessoas descrevem relações emocionalmente desgastantes, marcadas por invalidação, culpa, manipulação emocional ou ausência de empatia”, explica, salientando que estas dinâmicas podem assumir formatos distintos. “No perfil mais grandioso, é comum existir controlo, necessidade de superioridade e dificuldade em assumir responsabilidade emocional. Já no perfil mais vulnerável, podem surgir padrões mais subtis, como chantagem emocional, hipersensibilidade ou alternância entre aproximação e afastamento. Em ambos os casos, existe dificuldade em construir relações emocionalmente seguras e equilibradas”, avisa.
Quanto à possibilidade de intervenção, há tratamento, mas importa ter presente que é “um processo psicoterapêutico exigente”. “Uma das maiores dificuldades é que muitas pessoas com funcionamento narcísico têm pouca consciência do impacto dos seus comportamentos, a crítica é vivida como ameaça, o que pode gerar resistência à mudança”, adianta. Ainda assim, salienta que “a psicoterapia pode ajudar significativamente através de processos de desenvolvimento da consciência emocional, fo fortalecimento de uma autoestima menos dependente da validação externa, da melhoria da empatia e tolerância à frustração e pela construção de relações mais saudáveis e autênticas”.
Por fim, Isa Silvestre recorda que, apesar de o tema ser muito falado nas redes sociais, nem tudo se reduz a este rótulo e isso não significa, por si só, perturbações de personalidade generalizadas. “Compreender o narcisismo implica ir além do rótulo e perceber que, muitas vezes, por trás da grandiosidade, da manipulação ou da necessidade constante de atenção, existe uma profunda fragilidade emocional, porque é precisamente aí que começa a verdadeira compreensão psicológica: não na desculpabilização dos comportamentos destrutivos, mas na capacidade de olhar para além daquilo que é visível”, conclui.
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