O maior festival de cinema do planeta abre portas esta terça-feira, no sul de França. Apesar do peso internacional do cinema português, Portugal não aparece na corrida à Palma de Ouro há 20 anos - e, em 2026, a principal possibilidade de distinções para a delegação nacional está concentrada nas curtas-metragens.
O Festival de Cannes tinha estreia prevista para 1939, mas o início da Segunda Guerra Mundial adiou a primeira edição para 1946. Mais tarde, em Maio de 1968, o evento foi interrompido a meio, e a pandemia de Covid-19 obrigou ao cancelamento total em 2020. Mesmo com este histórico de sobressaltos, começa agora a 79.ª edição, voltando a transformar Cannes, na Côte d’Azur, no centro do cinema mundial durante os próximos 12 dias. A sessão oficial de abertura faz-se com a exibição, fora de competição, de "A Vénus Eléctrica", de Pierre Salvadori.
Depois dos Óscares, a distinção mais cobiçada por muitos realizadores é, muito provavelmente, a Palma de Ouro atribuída em Cannes. Em 2026, são 22 os cineastas que entram na competição com o objectivo de suceder ao iraniano Jafar Panahi, vencedor no ano passado com "Foi só um acidente".
Existe, aliás, a hipótese de a Palma voltar a ir para um iraniano: Asghar Farhadi, veterano do festival, apresenta "Histórias Paralelas" - rodado na Europa e com um elenco recheado de grandes nomes do cinema francês, como Vincent Cassel, Isabelle Huppert e Catherine Deneuve.
Espanha massiva: três filmes a concurso
Ainda assim, o traço mais marcante da selecção em competição é a forte presença do cinema espanhol, com três filmes. A lista abre com o novo drama de Pedro Almodóvar, "Natal Amargo", e completa-se com "A Bola Negra", um drama musical de Javier Ambrossi e Javier Calvo, e com "O Ser Querido", de Rodrigo Sorogoyen. Curiosamente, estes dois últimos contam com Penélope Cruz e Javier Bardem - o casal emblemático do universo almodovariano - nos papéis principais.
Nesta edição, dois autores podem juntar-se ao restrito grupo dos que conquistaram duas Palmas de Ouro: o japonês Koreeda Hirokazu, que concorre com "Ovelhas na Caixa", e o romeno Cristian Mungiu, com "Fiorde". Mas a lista de nomes consagrados que poderão celebrar ao fim da tarde do próximo dia 23, quando for anunciado o palmarés, é mais vasta e inclui o russo Andrei Zviagintsev - actualmente no exílio -, que leva "Minotauro"; o norte-americano James Gray, com "Tigre de Papel"; o japonês Ryusuke Hamaguchi, com "De Repente"; o húngaro Laszlo Nemes, com "Moinho"; e o polaco Pawel Pawlikowski, com "Pátria".
E, como acontece recorrentemente, não é prudente desvalorizar a comitiva francesa, que apresenta quatro títulos na competição: "A Vida de uma Mulher", de Charline Bourgeois-Tacquet, "A Desconhecida", de Arthur Harari, "Garância", de Jeanne Hetty, e "Histórias da Noite", de Léa Mysius.
Portugal não concorre à Palma há 20 anos
Cannes 2026 sublinha uma efeméride pouco feliz para o cinema português: passam agora 20 anos desde a última vez que Portugal teve um filme a disputar a Palma de Ouro. A presença mais recente em competição aconteceu quando Pedro Costa subiu à Croisette com a equipa de "Juventude em Marcha".
A ausência prolongada não é habitual e também não parece condizer com o prestígio internacional do cinema português, com o reconhecimento que vários autores recebem precisamente em França, nem com a diversidade de propostas que têm surgido no país.
Para lá da Competição, o festival organiza-se em múltiplas secções, entre as quais Um Certo Olhar, a Quinzena de Cineastas, a Semana da Crítica e o ACID, além de outros espaços fora de competição.
É nesse contexto que aparece a única longa-metragem portuguesa presente este ano em Cannes: "Aqui", de Tiago Guedes, incluída na selecção de Estreias de Cannes. Nessa mesma montra figuram também obras associadas a Daniel Auteuil, Christophe Honoré, Volker Schlondorff e ainda a primeira realização de John Travolta.
Tiago Guedes regressa ao festival quatro anos depois de "Restos de Vento", apresentado então nas Sessões Especiais. "Aqui" parte da Trilogia de Jesus, do escritor sul-africano e Nobel da Literatura J. M. Coetzee. Trata-se de uma coprodução entre Portugal e França, filmada entre Portugal e Espanha e falada em castelhano.
Três curtas para salvar a honra
A participação portuguesa inclui também curtas-metragens. "Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio", de Daniel Soares, concorre à Palma de Ouro da categoria, depois de, há apenas dois anos, ter recebido uma Menção Especial com "Mau por um Momento". Já "Onde Nascem os Pirilampos", de Clara Vieira - produzido na Escola Superior de Teatro e Cinema - integra a secção Cinef, dedicada a filmes escolares.
Por sua vez, a Competição Imersiva, ainda recente e com menor mediatismo, decorre no emblemático e renovado Hotel Carlton e inclui uma produção portuguesa entre os nove títulos seleccionados, reunindo experiências de realidade virtual e projecções vídeo em grande escala.
A Cola Animation, de Bruno Caetano - produtor de "Vendedores de Gelo", de João González, que em 2023 figurou entre os cinco nomeados para os Óscares de curta-metragem - apresenta nesta secção, em estreia mundial, "Lúcido", assinado pelo artista multidisciplinar Vier.
Em paralelo com o festival, o Mercado do Filme, que reúne milhares de participantes, terá um papel determinante na definição de uma parte significativa do que será a produção cinematográfica mundial nos próximos anos.
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