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Machismo encontra na desinformação um negócio, alerta Iberifier

Homem jovem sentado à mesa participa em reuniões virtuais com expressão preocupada e dois computadores à sua frente.

O machismo passou a tirar partido da desinformação como meio de difusão e de lucro, impulsionado por campanhas articuladas, pela lógica algorítmica das plataformas e por modelos de negócio que exploram o ressentimento de género, alertam académicas ligadas à iniciativa "Machismo apanhou o comboio da desinformação", do Iberifier.

Machismo e desinformação: de fenómeno difuso a estratégia organizada

À Lusa, a investigadora Sofia Ferro Santos, do CIES-Iscte, sustentou que "O machismo é hoje não só uma ferramenta política deliberada, mas também um negócio", defendendo que a misoginia em ambientes digitais deixou de surgir apenas de forma espontânea e passou a integrar planos estruturados de manipulação e de polarização.

Na sua leitura, "não estamos a falar da mesma misoginia que existe 'offline' e que naturalmente se reproduz 'online'", mas sim de "campanhas coordenadas que usam narrativas sexistas para silenciar mulheres, polarizar sociedades e avançar agendas autoritárias".

Algoritmos e modelos de rentabilidade assentes no ressentimento de género

Num ambiente digital em que a atenção se transforma em receita, Sofia Ferro Santos considerou que o ressentimento de género foi convertido num produto de consumo em grande escala.

Como descreveu, "Transformam desalento, incompreensão e frustração dos homens em raiva... e a raiva vende", apontando o influenciador Andrew Tate como exemplo de figuras que montaram modelos de negócio baseados em conteúdos misóginos, cursos de "masculinidade" e esquemas com criptomoedas.

A investigadora estabeleceu ainda um paralelo com os sítios de desinformação criados por jovens da Macedónia do Norte durante as eleições norte-americanas de 2016: projectos sem motivação ideológica explícita, mas concebidos para gerar receitas publicitárias.

Nesse contexto, frisou que "Os algoritmos das redes sociais identificam esse conteúdo como rentável".

Instrumentalização política, ultrafalsificações e violência digital

Sofia Ferro Santos defendeu também que a utilização política do machismo ultrapassa fronteiras ideológicas e chega a diferentes campos, incluindo movimentos conservadores. Como exemplo, referiu a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, cuja imagem foi usada em vídeos pornográficos 'deepfake' antes de chegar ao poder.

Sobre esse episódio, sublinhou: "Foi uma tentativa clara de destruir a sua credibilidade política".

Nos Estados Unidos, acrescentou, o American Sunlight Project detectou 35.000 menções a imagens íntimas não consentidas envolvendo 26 congressistas em plataformas de 'deepfake'.

Impacto na participação política e no jornalismo

Um estudo citado pela investigadora concluiu que 49% das mulheres com actividade política na Alemanha evitam assumir cargos quando receiam violência digital, e quase um quarto chegou a ponderar abandonar a participação política.

Em paralelo, 73% das jornalistas ouvidas num estudo da UNESCO disseram ter sido alvo de violência 'online'.

Jovens, banalização e efeito de bola de neve

A investigadora alertou ainda para a normalização destas práticas entre os mais novos, referindo situações em que alunos produzem e partilham ultrafalsificações sexuais de colegas e de professoras - incluindo em Portugal.

Para Sofia Ferro Santos, "Há um efeito de bola de neve em que os jovens são cada vez mais criadores e alvo deste tipo de desinformação de género".

"Desinformação de género", machosfera e literacia mediática

Também Joana Martins, coordenadora do curso de Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Viseu, considerou que as narrativas machistas foram incorporadas nas dinâmicas actuais da desinformação digital, funcionando como instrumento para pôr em causa a credibilidade das mulheres.

Segundo a docente, "A estratégia passa por desacreditar as mulheres e por as diminuir", enquadrando o fenómeno como "desinformação de género", sustentada na circulação de conteúdos falsos ou enganosos que exploram preconceitos e estereótipos.

Joana Martins acrescentou que um propósito central destas narrativas é travar "o progresso rumo à igualdade de género", num momento em que a chamada "machosfera" ganha visibilidade nos consumos digitais das novas gerações através de recomendações algorítmicas.

Nesse sentido, avisou: "Falamos de incitação ao ódio, intolerância e conteúdos que estão a ser introduzidos pelo algoritmo no consumo diário digital das novas gerações".

Sem apontar "um antídoto rápido" para este cenário, defendeu a literacia mediática como via de resposta, apelando à capacitação dos cidadãos para identificarem a proveniência da informação que consomem e partilham.

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