Com a chegada do verão e das férias escolares, volta a repetir-se em muitas casas uma decisão cada vez mais frequente: qual deve ser o primeiro smartphone dos filhos? Já não se resume a “comprar novo” ou “aproveitar uma promoção”. Hoje, esta escolha cruza o orçamento familiar, a maturidade digital, os riscos de utilização e até a pegada ambiental.
Num mercado em que os smartphones de gama alta ultrapassam muitas vezes os 1.000 euros, faz sentido começar por uma questão directa: que uso, na prática, terá a criança ou o adolescente? Para chamadas e mensagens com os pais, apps escolares, consumo de vídeo e jogos leves, raramente é necessário o modelo mais recente.
Mais do que uma compra aspiracional, o primeiro smartphone deve ser encarado como uma opção de aprendizagem. Para muitos jovens, é o primeiro contacto com autonomia digital - e isso pede prudência: escolher um modelo alinhado com a utilização real, estabelecer regras desde o início e evitar investimentos desproporcionados numa fase em que quedas, perdas e uso menos cuidadoso são mais prováveis.
Recondicionado ganha espaço numa compra mais racional
Nos últimos anos, o mercado de smartphones recondicionados tem-se afirmado como alternativa ao novo, sobretudo em períodos de maior sensibilidade ao preço. Segundo a Counterpoint Research, as vendas globais de smartphones recondicionados aumentaram 3% em termos homólogos no primeiro semestre de 2025, num contexto marcado por incerteza económica e maior pressão sobre o consumo.
O mesmo movimento reflecte-se na actividade da iServices. Em 2025, a empresa tratou cerca de 145 mil equipamentos para recondicionamento, o que aponta para uma procura crescente por soluções que prolongam a vida útil dos dispositivos e dão acesso a tecnologia com menor investimento inicial.
Para famílias que procuram um primeiro smartphone para os filhos, optar por um recondicionado pode baixar a barreira de entrada sem abdicar do essencial. A lógica é simples: se o perfil de utilização é básico ou intermédio, muitas vezes a melhor opção não é a mais recente, mas a que assegura desempenho suficiente, garantia e menor exposição financeira.
Primeiro smartphone é também uma decisão comportamental
A compra do primeiro smartphone não é apenas uma conta de somar. Existe também uma componente comportamental. Um estudo publicado na revista científica Pediatrics, da American Academy of Pediatrics, analisou mais de 10 mil jovens e identificou que ter um smartphone aos 12 anos (ou mais cedo) estava associado a uma maior probabilidade de depressão, obesidade e sono insuficiente.
A interpretação deve ser cautelosa: estes resultados apontam para associações estatísticas, não para uma relação de causa-efeito directa. Ainda assim, sustentam a ideia de que o primeiro smartphone deve ser visto como uma transição acompanhada - e não como a entrega automática de um equipamento sem limites.
Por isso, a decisão sobre o modelo deve caminhar lado a lado com regras de utilização, limites de tempo, ferramentas de controlo parental, protecção física e critérios definidos para quando (e como) se considera uma eventual substituição.
O custo do erro: quedas, ecrãs partidos e reparações
Os primeiros meses costumam ser, na prática, um período de adaptação. O equipamento passa a fazer parte do dia-a-dia escolar, das férias, das deslocações, de campos de férias e de programas em família. Com isso, cresce a exposição a quedas, perdas, contacto com água e a um manuseamento menos cuidadoso.
Em 2025, a iServices realizou mais de 184 mil reparações, muitas delas ligadas a problemas recorrentes em smartphones, como a substituição de ecrãs, baterias e outros componentes sujeitos a desgaste ou dano acidental. Estes números ajudam a enquadrar uma realidade simples: quando o utilizador ainda está a aprender a cuidar do equipamento, o risco e o custo potencial de substituição devem pesar na decisão inicial.
É por isso que, para muitas famílias, um iPhone recondicionado ou um smartphone Samsung recondicionado surge como uma solução equilibrada: permite testar responsabilidade, autonomia e padrões de utilização antes de avançar para equipamentos mais caros.
Impacto ambiental: prolongar a vida útil continua a ser decisivo
Há ainda uma dimensão ambiental nesta escolha. Estudos europeus sobre o impacto ambiental do digital, incluindo trabalhos da ADEME e da ARCEP, sublinham o peso significativo da fase de produção dos equipamentos no impacto ambiental associado ao sector digital. A regra é conhecida: quanto mais tempo se utiliza o mesmo dispositivo, menor é a necessidade de fabricar um novo para cumprir a mesma função.
O recondicionamento actua precisamente nesse ponto. Ao recuperar, testar e recolocar equipamentos no mercado, reduz-se a pressão sobre matérias-primas, sobre a produção industrial e sobre a geração de resíduos electrónicos.
A escala do desafio é grande. O Monitor Global de Resíduos Electrónicos 2024 estima que o mundo tenha produzido 62 milhões de toneladas de lixo electrónico em 2022 e que esse total possa chegar a 82 milhões de toneladas em 2030. Neste contexto, escolhas individuais de compra, multiplicadas por milhões de consumidores, deixam de ser irrelevantes.
Lista de verificação para famílias antes de comprar o primeiro smartphone:
- Confirmar o uso real: chamadas, mensagens, escola, localização, vídeo e aplicações básicas não implicam necessariamente um equipamento de gama alta.
- Definir um orçamento máximo antes de seleccionar o modelo, evitando decisões motivadas por pressão social ou comparação com colegas.
- Dar prioridade a equipamentos com garantia e assistência técnica facilmente acessível.
- Escolher protecção física adequada, como capa resistente e película de ecrã.
- Estabelecer regras de utilização desde o primeiro dia, incluindo horários, locais sem telemóvel e supervisão parental.
- Considerar o recondicionado como primeira opção quando o objectivo é equilibrar custo, desempenho e menor risco financeiro.
Uma escolha entre adequação e impulso
Para muitas famílias, o primeiro smartphone transformou-se num teste. Por um lado, mede a autonomia dos filhos; por outro, põe à prova a racionalidade da decisão de compra dos pais.
Entre novo e recondicionado, a questão deixou de ser apenas o preço. O ponto central é a adequação. Optar pelo equipamento certo para a idade, para a utilização real e para o nível de responsabilidade do utilizador pode ser mais importante do que escolher o modelo mais recente.
No fim, a melhor resposta pode não estar no smartphone mais avançado, mas naquele que faz mais sentido para esta fase.
Fontes e referências:
American Academy of Pediatrics / Pediatrics, “Posse de smartphone, idade de aquisição do smartphone e resultados de saúde em adolescentes no início da adolescência”: https://publications.aap.org/pediatrics/article/157/1/e2025072941/205716/Smartphone-Ownership-Age-of-Smartphone-Acquisition
Counterpoint Research, “O crescimento das vendas globais de smartphones recondicionados abranda no 1.º semestre de 2025”: https://counterpointresearch.com/en/insights/global-refurbished-smartphone-market-h1-2025
ADEME / ARCEP, “Avaliação do impacto ambiental da tecnologia digital em França e análise prospectiva”: https://en.arcep.fr/fileadmin/user_upload/04-22-english-version.pdf
Fraunhofer IZM, “Alugar, recondicionar, revender: o impacto ambiental de modelos de negócio circulares”: https://www.izm.fraunhofer.de/content/dam/izm/de/documents/Abteilungen/Environmental_Reliability_Engineering/Projekte/FINAL_Smec_Rent_Refurb_Resell_The_Environmental_Impact_of_Circular_Business_Models.pdf
Monitor Global de Resíduos Electrónicos 2024: https://ewastemonitor.info/the-global-e-waste-monitor-2024/
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