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Cartas dos leitores: transportes gratuitos no Porto, Jimmy Kimmel e Melania, Mamdani e Eric Adams, regulação do tabaco

Homem jovem escreve numa folha dentro de eléctrico com vista para rio e cidade ao entardecer.

Transportes gratuitos no Porto e a mobilidade urbana

A Câmara Municipal do Porto merece elogios pela decisão de avançar com transportes gratuitos. O Porto é uma cidade onde, em especial no centro, a maior parte das ruas não permite uma convivência equilibrada entre pessoas e automóveis.

De acordo com a IA, a CMP despende todos os anos entre 4 e 15 milhões em obras de requalificação, tentando, com isso, tornar o trânsito mais fluido. Ao apresentar esta medida, Pedro Duarte mostrou ter compreendido que um problema coletivo não se resolve pela soma de melhorias individuais associadas ao uso do carro. É uma forma diferente de fazer política, que importa reconhecer.

Com o valor estimado de 20 milhões, será possível retirar milhares de viaturas das ruas, evitar muitas toneladas de CO2 e, mantendo os mesmos arruamentos, melhorar a qualidade de vida. Ainda assim, tenho notado que o Metro está agora cheio durante grande parte do dia, pelo que o reforço da oferta de transportes públicos se torna indispensável.

Para que isso aconteça, é essencial haver coordenação com os concelhos vizinhos - e, nesse ponto, continua a faltar a regionalização, sempre adiada. O trânsito não se resolve à escala de um concelho, nem com a indiferença distante do poder central, onde, infelizmente, não tem surgido gente capaz de pensar de forma diferente.

José Cavalheiro, Matosinhos

Comédia, política e Nova Iorque: Jimmy Kimmel, Melania, Mamdani e Eric Adams

Em 23 de abril de 2026, Jimmy Kimmel, num número metacómico, dirigiu-se a uma Melania imaginária e disse-lhe que tinha o brilho de uma viúva expectante. Gostando-se ou não da piada, o direito de o dizer é anterior à própria república.

A primeira-dama veio depois a público afirmar que as palavras de Kimmel agravavam a doença da política na América. Quando Melania exige que a comédia se mantenha fora da política, não está a proteger o “bom humor”; está, isso sim, a alinhar com o gesto mais antigo do autoritarismo - assim escreveu Graça Castanheira no “Público”. Quando convém à esquerda, afirma-se que é piada; quando deixa de convir, passa a dizer-se que é discurso de ódio.

Já que o tema é comédia, Mamdani arrisca-se a arrecadar o prémio de melhor humorista de 2026, superando o seu antecessor, o democrata Eric Adams. O primeiro, em janeiro, prometeu aos nova-iorquinos transportes públicos gratuitos, congelamento de rendas sociais, creches gratuitas e mercearias públicas. Esta semana, decretou a bancarrota de Nova Iorque.

O segundo, em 2022, proclamou que Nova Iorque era o santuário dos imigrantes e que todos seriam recebidos de braços abertos - em 2023, já pedia ajuda federal aos gritos. O grande drama das nossas sociedades surge quando ‘humoristas’ como Mandami, Eric Adams ou intelectuais de esquerda ligados às artes chegam a posições de liderança: do alto da sua sobranceria moral, pretendem dar-nos lições de civismo e dignidade, enquanto olham o mundo como se fosse virtual.

Fernando Ribeiro, S. João da Madeira

Regulação do tabaco e a metáfora dos sofás: resposta a Ricardo Araújo Pereira

Li, como é habitual, a crónica de Ricardo Araújo Pereira com muito interesse e a sorrir. Desta vez, porém, não consigo acompanhar a premissa - a meu ver, perigosa - em que assenta. O texto constrói um raciocínio engraçado e inteligente: se o Estado pode proibir a venda de tabaco a partir de uma determinada geração de crianças, porque não impedir também a venda de sofás? Como isso é absurdo, conclui-se que toda a regulação é absurda.

O ponto é que um sofá não se compara ao tabaco. Caso contrário, por que razão a indústria do tabaco investe milhões a conceber produtos cada vez mais apelativos e mais aditivos para adolescentes? Por que motivo financia investigação que nega ou atenua os efeitos dos seus produtos? Por que aposta em marketing experimental e paga a influenciadores? Por que exerce pressão junto do poder ao mais alto nível? Se o essencial fosse deixar adultos livres para optarem por fumar, por que canaliza tantos recursos para que crianças e adolescentes não tenham essa liberdade?

A explicação é evidente. A indústria do tabaco sabe que a maioria dos adultos que ainda não está dependente já não se deixa capturar com a mesma facilidade pelas suas estratégias e pelos seus produtos. Sabe também que a dependência criada nessas idades é difícil de ultrapassar. Quem não começa a fumar aos 15 raramente começa aos 35. O tabaco, de facto, não é como um sofá. E também não é como a poluição ou a pobreza, que decorrem de sistemas económicos ou de inação política e matam tanto ou mais do que o tabaco. O tabaco é um negócio milionário que escolhe, de forma deliberada, criar dependentes antes de estes compreenderem o custo.

Esta crónica, apesar de satirizar o absurdo, acaba por legitimar involuntariamente a ideia de que proteger crianças de uma captura deliberada é paternalismo. Mas a Lei Seca proibia quem já bebia; a regulação do tabaco protege gerações que ainda não começaram. Não é a mesma coisa. E o Estado intervém, de forma rotineira, perante riscos graves. Não se trata de ser mamã em excesso: trata-se de escolher entre uma mamã que lucra com as nossas escolhas e uma mamã que quer ajudar-nos a ser saudáveis.

Margarida Tavares, Médica da ULS São João e investigadora do ISPUP. Foi secretária de Estado da Promoção da Saúde do XXIII Governo Constitucional

Regras para o envio de cartas

Os originais das cartas não devem exceder 150 palavras, reservando-se a Redação o direito de as condensar. Os autores têm de se identificar, indicando o nº do Cartão de Cidadão, a morada e o nº do telefone. Não devolvemos documentos que nos sejam enviados. As cartas podem também ser publicadas na edição em linha.
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