O histórico dirigente do Partido Comunista Português (PCP) Carlos Brito morreu na quinta-feira, aos 93 anos, em casa, confirmou à Lusa o médico e seu amigo Paulo Fidalgo.
Paulo Fidalgo, um dos fundadores do Movimento Renovação Comunista, explicou que Carlos Brito tinha estado internado recentemente no hospital de Faro devido a uma infeção respiratória, mas que recebeu alta na passada segunda-feira, já recuperado.
"Inesperadamente" morreu esta tarde na sua casa de Alcoutim, acrescentou Paulo Fidalgo.
António José Seguro lembra Carlos Brito
O Presidente da República, António José Seguro, evocou Carlos Brito como uma "figura incontornável da resistência antifascista e da democracia portuguesa".
Numa nota divulgada no sítio oficial da Presidência, António José Seguro endereçou as suas "sentidas condolências à família, aos amigos e aos seus companheiros de tantas lutas, associando-se ao luto de todos quantos, em Portugal, reconhecem em Carlos Brito uma das vozes mais íntegras da nossa vida cívica e política".
Para além de sublinhar o seu trajecto, o Presidente da República salientou que se tratava de um "homem de convicções firmes e de coragem cívica, que soube colocar a defesa da democracia, do diálogo e da renovação acima de qualquer outro interesse".
"Ao longo de uma vida de raro empenhamento cívico, Carlos Brito honrou Portugal pelo exemplo da sua resistência, pela elevação do seu pensamento político e pela permanente lealdade aos valores de Abril. A sua memória ficará associada à dignidade com que serviu a causa pública e à sua contribuição para uma democracia mais aberta, mais plural e mais exigente", frisou ainda.
Percurso político e institucional no PCP e na Assembleia da República
Nascido em Moçambique, em 1933, Carlos Brito foi militante do PCP durante 48 anos, tendo assumido funções como funcionário do partido, membro do Comité Central, líder parlamentar, diretor do jornal "Avante!" e candidato à Presidência da República.
Durante a ditadura, viveu dez anos na clandestinidade e passou oito anos na prisão. Depois do 25 de Abril, esteve 16 anos na Assembleia da República, 15 dos quais na liderança do grupo parlamentar.
Em 1991, deixou o parlamento "desolado", após não ter sido eleito pelo círculo de Faro. No momento da saída, detinha o recorde de "longevidade" parlamentar desde a Assembleia Constituinte.
Em 1980, apresentou-se às eleições presidenciais contra Ramalho Eanes e Soares Carneiro, mas desistiu à boca das urnas.
Divergências internas, suspensão e afastamento de cargos dirigentes
A permanência de 33 anos no Comité Central terminou em novembro de 2000, quando Carlos Brito renunciou ao lugar por discordar das orientações do XVI Congresso. Já em março de 2000, enviara uma carta à direção na qual manifestava preocupação com o rumo do partido.
Carlos Brito esteve entre os dirigentes que, após a derrota eleitoral do PCP nas autárquicas de 2001, exigiram a realização de um congresso extraordinário. Na sequência da luta interna que opôs os chamados "renovadores" aos defensores da ortodoxia do partido, foi suspenso do PCP em 2002 por 10 meses.
A sanção disciplinar foi determinada pelo Secretariado, num contexto de várias expulsões de críticos da direção, incluindo Edgar Correia, já falecido, e Carlos Luís Figueira, que alguns anos mais tarde viriam a formalizar a associação política Renovação Comunista.
Desde 1996, Carlos Brito tinha vindo a manifestar a intenção de se afastar de cargos de direção, primeiro ao recusar integrar a Comissão Política em 1996 e, depois, ao abandonar a direção do "Avante!", em 1998.
Vida pessoal e últimos anos em Alcoutim
Casado e pai de duas filhas, estava retirado em Alcoutim, no Algarve, terra de origem da sua família. Dedicou-se durante muitos anos a escrever poesia e ficção, e a participar no movimento associativo ligado ao desenvolvimento regional.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário