O Dacia Duster Hybrid tinha tudo para ser uma pechincha, mas a carga fiscal portuguesa trocou-lhe as voltas.
A fiscalidade automóvel em Portugal consegue ser, no mínimo, surpreendente. Ao longo do tempo, tem “apanhado” modelos que pouco fizeram para o merecer - e o novo Dacia Duster Hybrid é um caso particularmente ilustrativo.
O mais irónico é que esta é a variante mais eficiente e a que menos polui dentro da gama, mas, ainda assim, é também a que acaba por suportar mais impostos. Na prática, isto desfigura por completo a lógica de existir uma opção híbrida que, à partida, deveria ser a escolha mais apetecível para o comprador.
Por estas e por outras razões, o Duster Hybrid é, muito provavelmente, o melhor automóvel que a Dacia já produziu. Ainda assim, por tudo o que expliquei acima, a versão híbrida está longe de ser a que eu escolheria para ter na garagem. Vejam o vídeo, onde clarifico o porquê:
É tudo novo no Duster
Não é preciso relembrar o impacto que o Dacia Duster tem tido desde a estreia, em 2010. Basta olhar para o trânsito para perceber que se tornou uma das opções preferidas dos portugueses - e esta terceira geração, completamente renovada, está a seguir o mesmo caminho.
Com um desenho mais atractivo, um habitáculo totalmente redesenhado e bastante mais equipamento, esta geração apresenta argumentos mais do que suficientes para justificar o arranque forte.
Já analisámos o novo Duster de ponta a ponta e também olhámos com atenção para todos os detalhes do interior. Por isso, neste ensaio, não é aí que vou concentrar a atenção.
Para quem ainda queira esclarecer dúvidas sobre esses pontos, fica o convite para verem o vídeo que gravámos durante a apresentação internacional deste SUV, onde abordamos precisamente esses temas. Ora vejam:
Ainda assim, há um dado que vale a pena sublinhar: a bagageira passou a oferecer 474 litros, mesmo sem grandes mudanças nas dimensões exteriores. Já nas versões híbridas, esse valor baixa para os 430 litros, por causa do local onde fica instalada a bateria.
Mesmo assim, continua a ser uma capacidade interessante e suficiente para a maioria das necessidades familiares. No entanto, se o espaço for uma prioridade absoluta, talvez faça sentido considerar o mais recente modelo da Dacia, o Bigster, que também já fomos ver ao vivo.
Adeus Diesel. Olá electrificação
Uma das limitações mais evidentes do Dacia Duster de segunda geração estava na sua plataforma, derivada de uma base mais antiga do Clio. Era uma solução pensada para manter os custos sob controlo.
Agora, na terceira geração, o Duster passou a assentar na mesma plataforma CMF-B que encontramos no Sandero e no Jogger - e também nos Renault Captur e Arkana -, o que abriu a porta a um conjunto novo de possibilidades, incluindo versões híbridas como a que podem ver no vídeo.
É também neste contexto que a Dacia decidiu abandonar definitivamente as motorizações Diesel, que eram especialmente valorizadas por quem escolhia as versões com tração integral. Mas, depois de conduzir a versão 4×4, acreditem quando digo: dificilmente isso será um problema.
A gama do Duster arranca com a proposta a gasolina/GPL, designada ECO-G 100, baseada num motor turbo de três cilindros e um litro, com 100 cv. Ao mesmo tempo, anuncia 1300 km de autonomia, graças aos dois depósitos: 50 litros de gasolina + 50 litros de GPL.
A seguir aparecem as versões TCe 130, que recorrem a um 1.2 turbo de três cilindros, associado a um sistema de híbrido ligeiro de 48V, com um pequeno motor/gerador eléctrico e uma bateria de 0,8 kWh, resultando numa potência máxima de 130 cv.
Esta motorização só existe com caixa manual de seis velocidades e é a única que pode ser combinada com o sistema de tração integral.
Híbrido vale a pena?
Apesar de existirem várias opções, o foco aqui é o Dacia Duster Hybrid, precisamente a versão que conduzi e que serve de protagonista neste vídeo. Junta um motor a gasolina de quatro cilindros (1,6 l de capacidade e 94 cv) a dois motores eléctricos (um responsável pela tração e outro que funciona como motor de arranque e gerador), para uma potência combinada de 140 cv.
Além disso, há uma bateria com 1,2 kWh e a conhecida caixa multi-modo do Grupo Renault, sem embraiagem, com quatro relações para o motor térmico e duas para o motor eléctrico de tração. No total, o conjunto permite 15 modos de funcionamento diferentes.
Com boa resposta em qualquer regime, o grande trunfo deste híbrido está mesmo nos consumos: em utilização mista, é relativamente simples ficar abaixo dos 5 l/100 km. Só isto, por si, faria desta a versão mais lógica para comprar. O problema é que o preço me leva a pensar de forma diferente - já lá vamos.
Há uma certeza: independentemente da variante escolhida, o que se recebe é um SUV versátil, robusto e com uma postura muito segura em estrada. Neste campo, o salto face ao Duster de segunda geração é enorme.
Ainda assim, nem tudo é perfeito, e há dois pontos menos conseguidos: os bancos parecem-me demasiado rijos e a Dacia podia ter caprichado mais no isolamento do habitáculo, para reduzir a intensidade dos ruídos aerodinâmicos.
Fiscalidade muda as regras do jogo
Chegamos, então, ao tema do preço. O novo Dacia Duster começa nos 19 900 euros na versão ECO-G 100, com o nível de equipamento Essencial, e nos 24 050 euros quando se escolhe o motor TCe 130. Já o Duster Hybrid arranca nos 29 000 euros, embora a unidade ensaiada - por incluir alguns opcionais - esteja fixada nos 31 726 euros.
Este patamar é suficiente para eu afastar esta versão da minha escolha. Sim, é a variante mais completa do SUV romeno. Mas também vos digo sem hesitar: o Duster Hybrid não é 10 mil euros melhor do que o bifuel. Disso não tenho dúvidas.
E a responsabilidade por este posicionamento não é exactamente da Dacia, mas sim da fiscalidade portuguesa, que consegue ser bastante “criativa”.
Como o Imposto Sobre Veículos (ISV) incide sobre a cilindrada, a versão híbrida do Duster é fortemente penalizada por usar um motor a gasolina de 1,6 litros. Assim, apesar de ser mais eficiente e menos poluente do que a versão 1.2 TCe de 130 cv, acaba por pagar mais 364% de imposto - e isso, naturalmente, reflecte-se no preço.
Com isto em mente, se estivesse a considerar comprar um Dacia Duster, a opção que, muito provavelmente, levaria para casa seria a 1.2 TCe de 130 cv. Ainda assim, é a que me parece oferecer a melhor relação qualidade/preço.
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