A resposta começa no território
Portugal tem atravessado crises sucessivas que vieram expor fragilidades no sistema de resposta - da pandemia aos incêndios rurais, passando por falhas energéticas e por fenómenos meteorológicos extremos. Em anos particularmente graves, os fogos chegaram a consumir mais de 500 mil hectares, sinalizando a persistência de riscos estruturais. Perante este quadro, a primeira linha de preparação e de ação é o próprio território.
Nos 308 municípios é possível identificar vulnerabilidades com precisão, mobilizar meios e articular respostas com proximidade. Essa capacidade local permite decisões mais céleres, sustentadas em informação concreta e ajustadas às características específicas de cada comunidade.
O que as crises recentes ensinaram aos municípios
A evidência dos últimos anos é clara. Durante a pandemia, foram os municípios que garantiram apoio social direto e mantiveram uma articulação constante com as autoridades de saúde. Já no domínio dos incêndios, a mitigação depende de gestão ativa do território, de planeamento continuado e de coordenação supramunicipal.
As falhas energéticas, por sua vez, tornaram mais visível a necessidade de robustecer as infraestruturas críticas e de assegurar redundância. E os episódios extremos reforçam a urgência de integrar a adaptação climática tanto no ordenamento do território como nas opções de investimento público.
Não se consegue controlar fenómenos naturais nem evitar totalmente falhas técnicas, mas é possível preparar melhor o território. A diferença entre uma crise contida e uma catástrofe está na capacidade de antecipar, na resiliência dos sistemas e na eficácia da resposta ao nível local.
Prioridades e oportunidade do PTRR para a proteção civil
A resiliência do país assenta no poder local. Para isso, são necessários capacitação técnica, financiamento previsível, planeamento integrado e uma articulação funcional entre o Estado e as autarquias. Entre as prioridades estratégicas estão o reforço da gestão de leitos de cheia, o investimento em infraestruturas resilientes, a modernização de sistemas de alerta precoce e a qualificação dos serviços municipais.
Neste contexto, o novo ciclo de investimento público, ancorado no PTRR - com 22,6 mil milhões de euros - representa uma oportunidade determinante para reforçar a resiliência do território. Exige, porém, uma execução eficaz que valorize a proximidade, o conhecimento local e a responsabilidade partilhada entre diferentes níveis de governação.
Como presidente da Câmara da Trofa e da Comissão Distrital de Proteção Civil, defendo que o sistema nacional deve reforçar o papel municipal, com responsabilidades bem definidas, financiamento estável, meios adequados e uma cadeia de decisão mais ágil em situações de emergência.
Num cenário de alterações climáticas, riscos tecnológicos e vulnerabilidades energéticas, a proteção civil tem de afirmar-se como prioridade política permanente. Preparar o território é um imperativo nacional. Fortalecer o poder local é fortalecer o Estado.
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