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Alemanha, FCAS e autonomia estratégica: o impasse entre Paris e Berlim

Dois homens em fato discutem projeto de avião em escritório com bandeiras da UE e França numa mesa.

Merz, EUA e Irão: o novo tom de Berlim

Na segunda-feira, o chanceler alemão, Friedrich Merz, apontou o dedo à falta de capacidade dos Estados Unidos da América (EUA) para conduzir conversações com o Irão: “Os iranianos são muito hábeis na negociação - ou, para ser mais preciso, na não-negociação... um país inteiro está a ser humilhado pela liderança iraniana, sobretudo pelos chamados Guardas Revolucionários”. Merz proferiu estas palavras numa altura em que o Governo de coligação na Alemanha fechava, em negociações internas, um entendimento para aumentar de forma expressiva o orçamento de Defesa. Se os planos se confirmarem, em 2030 Berlim poderá dispor do maior exército europeu.

Da reserva alemã pós-II Guerra Mundial à ambição de liderança

Durante muitos anos, a Alemanha preferiu manter-se num lugar secundário no que toca à defesa europeia. O trauma da II Guerra Mundial deixou uma marca profunda na memória colectiva alemã. Essa postura terá começado a mudar em 2022, com a invasão russa da Ucrânia, e voltou a ganhar força com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, em 2025. Na leitura de Berlim, chegou o momento de assumir a dianteira militar no Velho Continente - e, ao mesmo tempo, de iniciar um caminho de maior autonomia face aos EUA.

Future Combat Air System (FCAS) e “autonomia estratégica” europeia

Em 2017, Angela Merkel e Emmanuel Macron apresentaram o programa Future Combat Air System (FCAS), um caça de sexta geração a desenvolver pela Dassault (França), Airbus (Alemanha) e Indra Sistemas (Espanha). A finalidade política era - e continua a ser - reforçar a base industrial destes três países e criar uma aeronave avançada que proporcione à Europa mais “autonomia estratégica” perante os EUA no domínio do poder aéreo.

Hoje, quando líderes governamentais e opinião pública recorrem a esta expressão, o FCAS surge facilmente como exemplo de cooperação industrial europeia, num contexto de uma Rússia mais agressiva e de uns EUA mais erráticos na forma como escolhem e decidem. Ainda assim, desde 2017 que Paris e Berlim se têm revelado pouco capazes de chegar a um acordo sobre o peso relativo das suas indústrias na construção deste caça europeu. Como se explica esta dificuldade?

Por que razão Paris e Berlim não chegam a acordo no FCAS?

Em primeiro lugar, importa considerar que a França e a Alemanha enfrentam necessidades militares diferentes. Como seria de esperar, a geografia e os interesses nacionais de cada uma condicionam fortemente o modo de operar das suas forças armadas. O poder naval, por exemplo, ocupa um lugar mais central na estratégia francesa do que na alemã.

Em segundo lugar, contam as capacidades científicas, tecnológicas e industriais dos dois países no sector militar. No desenvolvimento e fabrico de caças, a França está claramente à frente da Alemanha. Ainda assim, Berlim dispõe de maior margem financeira para suportar um programa como o FCAS e defende que esse esforço tem de se traduzir numa influência proporcional na contribuição industrial para o projecto. O que se tem visto é um bloqueio entre as duas capitais num momento decisivo para o futuro da Europa.

No centro deste impasse está o choque entre, por um lado, a exigência de os países europeus se ajustarem a uma nova época histórica - que deveria incentivar a cooperação e a integração - e, por outro, a persistência de interesses nacionais e industriais distintos e, por fim, as limitações do modelo intergovernamental em vigor na Europa. São estes os principais obstáculos à autonomia estratégica de que se fala cada vez mais. Será possível ultrapassá-los?

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