Fawzia al-Otaibi dedica-se à defesa dos direitos de todas as mulheres sauditas e, em particular, à liberdade de duas delas. A irmã mais nova, Manahel, de 31 anos, foi condenada a onze anos de prisão por alegados crimes de terrorismo. A mais velha, Maryam, de 38 anos, está impedida de viajar e tem um mandado de detenção que, até hoje, não foi executado. As três acabaram castigadas por publicarem conteúdos online em apoio dos direitos das mulheres e por criticarem o regime teocrático. Em 2016, as irmãs lançaram nas redes sociais uma campanha com a hashtag “#EuSouAMinhaPrópriaGuardiã”, enfrentando o sistema de tutela masculina, que impõe às mulheres a necessidade de um tutor homem para actos que, numa democracia, seriam banais. Fawzia foi a única que conseguiu escapar.
Casamento forçado e a urgência de sair do país
Casou-se porque precisava de um guardião masculino. Para quê?
Fui forçada a casar para conseguir o passaporte e poder viajar para os Emirados - nessa altura, as mulheres não tinham autorização para viajar sozinhas. [As autoridades] chamaram-me e disseram que me iam deter, por isso tive de conhecer um rapaz para que ele passasse a ser o meu guardião e eu pudesse abandonar o país. Assim que tive o passaporte nas mãos, parti imediatamente. Nos Emirados, fui acompanhando o que estava a acontecer à minha família, sobretudo à minha irmã Maryam, com a esperança de conseguirmos sair todos.
Maryam estava impedida de viajar por usar as redes sociais para falar sobre os direitos das mulheres.
A proibição vinha com uma multa; nós pagámos, mas percebemos rapidamente que era apenas um pretexto. Mesmo depois disso, ela continuou sem poder viajar. Eu acabei por regressar dos Emirados à Arábia Saudita porque precisava de entender o que estavam a fazer à minha irmã. Tinha estado três anos no Dubai e, à distância, parecia que o meu país tinha mudado; no entanto, o que se passava com a Maryam mostrava exactamente o contrário. E foi isso que se confirmou. Ela tinha-me avisado para não voltar: dizia-me que a realidade lá dentro não era a que os media apresentavam.
E depois o que aconteceu?
No ano em que regressei, fiquei apenas um mês. Fiquei em choque ao ver que, na essência, tudo permanecia igual. Depois disso, chamaram-me a um centro relevante de segurança do Estado e aproveitaram para me interrogarem. O interrogatório estendeu-se por mais de seis horas. Tentavam levar-me ao limite, desestabilizar-me, fazer-me ceder - como se estivessem a tentar “lavar-me o cérebro”. Passei horas a chorar. No fim, ele [o agente] disse-me: “Não te vamos punir mas queremos que trabalhes connosco”. Esse “trabalho” era, na prática, espiar activistas como eu. Recusei. Foi aí que percebi que estavam a preparar-se para se livrarem de mim.
Do Dubai ao Reino Unido: a fuga e a perseguição
Voltou então a sair do seu país.
Depois disso, voltei para o Dubai. Algum tempo mais tarde, tentaram atrair-me com a ideia de eu trabalhar no Snapchat, a fazer publicidade e coisas desse género, mas na realidade seria um trabalho para o Ministério da Informação - ou seja, ligado à área de segurança. Disseram-me que eu tinha de regressar e obter uma licença para exercer a minha profissão, para poder trabalhar e falar “livremente”. Eu deixei-me convencer. Quando voltei, já havia um mandado de detenção contra mim. Saí então para o Barém. Do Barém fui para a Turquia. E, da Turquia, segui para o Reino Unido.
“#EuSouAMinhaPrópriaGuardiã” e o sistema de tutela masculina
Anos antes, em 2016, Fawzia e as irmãs lançaram a #EuSouAMinhaPrópriaGuardiã. Que campanha era esta?
Antes de 2016, eu já fazia trabalho de sensibilização, mas sem criar hashtags. Em 2016, criei a hashtag mais conhecida do Médio Oriente sobre a revogação da tutela do homem sobre a mulher. Manteve-se em destaque durante quatro anos. Tornou-se tema para o Governo, para a mesquita islâmica de Meca [principal cidade sagrada do Islão] e para os ulemás [teólogos muçulmanos], que falavam disto na televisão…
Como funciona o sistema de tutela masculina?
A mulher, desde o nascimento até à morte, tem um homem a controlar a sua vida. Esse homem decide com quem ela casa, onde trabalha, se continua a estudar e, quando termina os estudos, se lhe é dado um passaporte, se pode viajar… O guardião masculino decide tudo. Se ele disser que ela é desobediente, a polícia vai buscá-la e pode colocá-la na prisão. É um sistema que limita todos os direitos da mulher.
“Preocupo-me com a propaganda que o Governo faz, com a lavagem de imagem. É para que o Ocidente feche os olhos”
Manahel e Maryam: prisões, silêncio e medo
A sua irmã Manahel foi detida em 2022 e condenada a 11 anos de prisão em 2024 por publicar conteúdos sobre os direitos das mulheres e fotos sem a abaya (túnica muçulmana). Quando será libertada?
Quando a detiveram, não sabíamos o que se passava: não nos diziam em que prisão estava, nem sequer qual era a sentença. Não lidaram connosco de forma nenhuma, como se não fôssemos seres humanos. Fomos obrigados a recorrer a canais ocidentais e à ONU. A ONU enviou uma delegação à Arábia Saudita para exigir explicações. Foi assim que descobrimos que a tinham condenado a 11 anos. Com pressão externa - diplomatas, organizações e jornais - a sentença foi reduzida para cinco anos. Ela será libertada em 2028, em outubro.
Tem conseguido falar com ela?
Conseguimos falar com ela ocasionalmente. Há cerca de sete meses, ela contou-nos que, antes das chamadas, lhe davam medicamentos que a deixavam entorpecida e a faziam esquecer tudo. Dizia uma ou duas palavras e, depois, apenas: “Estou cansada, vou dormir”. A partir daí, deixámos de sentir que conseguimos comunicar de verdade com ela.
E Maryam, além de estar impedida de sair do país, continua com um mandado de detenção pendente?
Do ponto de vista legal, segundo o tribunal, ela devia estar na prisão, mas a sentença nunca foi executada. O tribunal manteve a sentença sem a concretizar. Já passaram dois anos e achamos que, neste momento, não há grande receio de que ela seja detida. Mesmo assim, ela não sai de casa e evita ir a serviços públicos, incluindo repartições governamentais. É possível que, se lá for, com base no facto de já existir uma sentença para a sua detenção, ela acabe detida.
Activismo a partir do Reino Unido e a “lavagem de imagem”
Como é fazer o trabalho de defesa dos direitos humanos a partir do Reino Unido? Tem a mesma força?
Em termos de impacto nas raparigas da minha comunidade na Arábia Saudita, o impacto até é maior, porque passei a falar com mais liberdade e sem restrições. Comecei a comparar as diferenças entre os direitos que as mulheres têm na Grã-Bretanha e na Arábia Saudita. É assim que consigo transmitir a mensagem.
Tenciona voltar a casa um dia?
Não vou voltar, porque eles querem acabar connosco. Pediram aos meus pais para nos matarem e, depois, pediram ao nosso irmão mais novo. Eu vinha de uma família muito simples e, por isso, no início, recusava-me a acreditar. Quando a Manahel foi torturada na prisão, esfaqueada e teve a perna partida, percebemos que todas as histórias que ignorávamos eram reais e que a violência que estavam a planear era concreta. Tenho consciência do perigo. Não há espaço para vivermos; não é possível ser mulher na Arábia Saudita.
O que mais a preocupa agora?
A Arábia Saudita tenta vender-se como um Estado de bem-estar. Usa todo o tipo de eventos para se apresentar como um país reformado e, ao mesmo tempo, reprime figuras importantes. Preocupo-me com a propaganda que o Governo faz, com a lavagem de imagem. É para que os países e os governos ocidentais acreditem e fechem os olhos. Tenho receio de que essa narrativa resulte e, por isso, estou a trabalhar para a desmontar. Se a Arábia Saudita melhorar a sua imagem perante o mundo ocidental, mas continuar a reprimir as mulheres em segredo dentro do país, sem lhes dar voz, elas vão sentir que o mundo as abandonou.
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