O atraso do voo e o adormecer
Decidiu, sem pressa, limitar-se a esperar pelo que viesse a seguir. O avião não saía a horas e, no destino, o tempo estava mau. Estendeu-se num sofá grande na sala dos tripulantes e acabou por adormecer.
Não se apercebeu de imediato de que tinha dormido apenas 20 minutos, mas recordava com absoluta clareza o sonho que tinha acabado de ter.
O sonho: férias em família e o desaparecimento da Maria
No sonho, a família tinha ido de viagem: os quatro - a Maria, o Pedro, a Mafalda e ele. Quem os levara ao aeroporto tinha sido o sogro. No dia anterior, ele falara com um colega comandante que, naquela solidariedade quase automática da “malta” dos aviões, lhe garantira que, havendo lugares disponíveis, os sentaria na executiva. E mais: se os filhos quisessem, um poderia descolar no cockpit e o outro aterrar. No sonho, tudo isto surgia com uma nitidez impressionante.
Depois deu-se um “salto” e, de repente, já estavam todos instalados num hotel junto a uma praia - talvez em São Salvador, no Brasil - um lugar que ele achava conhecer bem por ter voado para lá muitas vezes. O detalhe não fazia grande sentido, porque ele ainda não tinha transitado para o longo curso. Pensou, ainda dentro do próprio sonho, que sonhos são sonhos e não têm de obedecer à realidade.
Talvez, nesse cenário, os filhos tivessem seis e onze anos; lembrava-se perfeitamente de serem eles a acordar os pais.
- Vamos para a praia, já é tarde.
Fez um esforço para ver a Maria com clareza, mas não conseguiu fixar uma imagem nítida. Havia uma mulher ao lado dele, porém nunca a ouviu ser chamada de mãe, nem lhe pareceu existir ali uma ligação. Era a Maria quando saíram de Lisboa; ali, no destino, era apenas uma desconhecida.
A água estava morna, mas ele não largava os miúdos: havia ondas e avisos de quem era de lá, cuidado com as correntes. E também no mar estava sozinho com os filhos. A mulher tinha desaparecido e, de forma estranha, as crianças nem sequer chamavam pela mãe.
Algures entre a ida ao aeroporto, a viagem e a chegada, a Maria - ou quem quer que fosse - tinha-se evaporado. Mesmo assim, no sonho, ele não se inquietou; era como se naquele lugar existissem apenas ele e os filhos.
A partir daí, tudo ficou mais esbatido, reduzido a pequenos fragmentos sem continuidade. Uma ida vaga à cidade, que os miúdos acharam uma seca: pai vamos para a praia. A intenção de comprar algumas recordações para levar aos avós, que no sonho nem chegou a acontecer. O que permanecia realmente vivo era a contagem decrescente, feita por ele e pelos filhos, até ao regresso. Pai, só mais dois dias...
O que mais o baralhou foi o desaparecimento da Maria. Mais tarde viria a entender que isso, de algum modo, tinha lógica: uma viagem em família onde ocorre uma “amputação” de um dos seus membros. Ainda mais estranho foi ele não ter sentido desconforto nem preocupação com a ausência dela - uma serenidade esquisita.
Quando o sonho toca no luto marital
Mas acordou angustiado: não apenas pela possibilidade de o voo ser adiado ainda mais, como também por se surpreender a ter, ainda, sonhos familiares - sonhos de uma família feliz que já não existia. Sabia que a separação não estava totalmente encerrada, mas, no sonho, era evidente que tinha saudades daquela vida em conjunto. Quando reconstituiu mentalmente o que sonhara, sentiu-se mais tranquilo por a Maria ter desaparecido. Não percebia nada de sonhos, mas parecia-lhe claro que ela já não fazia parte.
Esta história é imaginada, mas aproxima-se de alguns processos de luto marital. A separação deste casal tinha ocorrido dois anos antes deste sonho; para ele, fora inesperada e dolorosa, sobretudo porque o afastamento parcial dos filhos estava a tornar-se inevitável, apesar de terem conseguido um bom acordo de guarda parental. Cada pessoa encontra a sua maneira de sarar as perdas, e o tempo de cicatrização varia muito. Uma das “confusões” que pode complicar este caminho é a dificuldade em distinguir a rutura do casamento da rutura da família.
Neste sonho, o “eclipsar” da Maria claramente ajudou.
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