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BCE e a política monetária após grandes choques de inflação

Homem jovem analisa gráficos financeiros em folhas na mesa, com tablet e café num escritório moderno.

Um texto do blogue do BCE e o guião para o choque do Médio Oriente

Passou quase sem dar nas vistas um artigo no blogue do Banco Central Europeu (BCE) intitulado “Porque é que a política monetária tem um impacto mais forte após grandes choques”. Talvez porque os blogues já não tenham o protagonismo de outros tempos. Ainda assim, compensa lê-lo com atenção.

O texto foi publicado a 13 de abril, cerca de duas semanas antes da primeira reunião de política monetária após o início da guerra no Irão. Nessa reunião, como era previsível, não houve qualquer alteração das taxas de juro - tal como aconteceu, na mesma semana, com a Reserva Federal dos EUA. A leitura do artigo deixa um guião bastante claro sobre a forma como o BCE tenciona lidar com a inflação que chega do Médio Oriente, possivelmente já a pensar na reunião de 10 de junho.

O que 2022-2023 ensinou sobre subir taxas de juro

Apesar de a análise estar centrada na estratégia usada durante a crise inflacionista de 2022-2023, a mensagem é inequívoca quanto à receita do banco central para enfrentar o choque de oferta atual. A origem do problema não é exatamente igual - então havia estrangulamentos nas cadeias de produção -, mas as lições continuam a ser relevantes.

A primeira é que a política monetária pode, sim, ser eficaz no combate a choques de oferta. E foi-o na resposta à subida abrupta da inflação a partir de 2022. O BCE iniciou o ciclo de aumentos de juros em julho desse ano, quando estes ainda estavam a zero, e, no espaço de 14 meses, agravou a taxa em 4,5 pontos percentuais. Nesse ano a inflação atingiu 8,4%, mas começou a recuar em 2023 (5,4%) e, em 2024, já se situava em 2,4%.

Ainda mais importante, a segunda conclusão é que o objetivo foi alcançado com um impacto menor no PIB - o chamado rácio de sacrifício.

Expectativas de inflação e efeitos de segunda ordem

Segundo os economistas, isso aconteceu porque, em fases de inflação elevada, empresas e famílias ajustam o seu comportamento de forma diferente. O ponto decisivo esteve em travar os efeitos de segunda ordem: evitar que uma subida do petróleo se propague e empurre a economia para uma espiral preços-salários.

A política monetária não impede um choque de oferta em si - não existe taxa de juro capaz de travar as bombas no Médio Oriente -, mas tem força suficiente para controlar os seus efeitos indiretos. Para isso, precisa de atuar sobre as expectativas de inflação, porque são elas que alimentam a espiral e transformam um choque temporário num problema persistente e difícil de resolver.

A implicação política é simples: mesmo que a inflação ainda não esteja excessivamente alta - ultrapassou 3% em março -, pode fazer sentido o BCE subir juros o mais cedo possível. Não tanto pelo efeito imediato na atividade, mas pelo sinal que transmite. Se todos acreditarmos que a inflação voltará depressa aos 2%, maior é a probabilidade de isso acontecer. Por isso, vale a pena acompanhar atentamente os sinais do BCE. E, claro, não alimentar expectativas.

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