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Escola, leitura e educação em tempos de hiperestimulação digital

Criança a ler livro numa sala de aula com professora ao fundo e tablets nas mesas.

A escola como espelho da sociedade

Há ocasiões em que uma sociedade se deixa ver com nitidez na forma como encara a sua escola. E o período que atravessamos está a colocar-nos perante desafios de grande profundidade, possivelmente dos mais exigentes das últimas décadas: crianças cada vez mais expostas à hiperestimulação digital, dificuldades crescentes de concentração e de leitura, professores emocionalmente exaustos e escolas sob pressão para responder a realidades sociais e humanas cada vez mais complexas.

O alerta do Projeto Ler sobre a leitura no 1.º ano

Os sinais são claros. Os dados divulgados recentemente pelo Projeto Ler (desenvolvido pelo Edulog, think-tank da Fundação Belmiro de Azevedo, e pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Évora) indicam que, no final do 1.º ano, metade dos alunos portugueses lê apenas 37 palavras por minuto e que um quarto não consegue ir além das 21 palavras.

Estes valores são inquietantes e expõem uma fragilidade estrutural: quando uma criança perde competência de leitura, perde também capacidade de interpretação, de pensamento crítico, de vocabulário emocional e de relação com o mundo. Além disso, a investigação tem mostrado que dificuldades de leitura nos primeiros anos tendem a arrastar-se pela vida escolar e adulta, tornando a recuperação cada vez mais difícil e mais dispendiosa.

Proteger a atenção, a compreensão e a empatia

E talvez seja precisamente aqui que o debate educativo deva ser recentrado. A escola não pode limitar-se a seguir a velocidade do tempo; tem de salvaguardar aquilo que o tempo ameaça corroer: a leitura, a atenção, a compreensão e a empatia. A capacidade de pensar devagar num mundo que vive numa aceleração permanente.

Mas seria um equívoco acreditar que este desafio pertence apenas às escolas ou aos professores. O futuro da educação tem de ser construído de forma coletiva, envolvendo também decisores públicos, famílias, investigadores, empresas, órgãos de comunicação social, agentes culturais e uma sociedade inteira que precisa de voltar a perceber que educar não é uma tarefa periférica do país: é, talvez, a sua responsabilidade mais decisiva.

Inteligência artificial e visão de longo prazo

Por isso mesmo, o debate sobre a escola pede hoje menos ruído e mais visão de longo prazo. Requer a capacidade de criar consensos duradouros e o compromisso de todos em torno do que realmente conta. A inteligência artificial fará, inevitavelmente, parte deste novo contexto. Mas importa compreender que nenhuma

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