Saltar para o conteúdo

Cavaco Silva defende força europeia de Defesa separada da NATO e critica Trump como “super errático”

Homem de fato azul fala em pódio com bandeiras da União Europeia e NATO atrás e tela com vídeo chama lula Estados Unidos.

Força europeia de Defesa e relação com a NATO

Aníbal Cavaco Silva defendeu a criação de uma força europeia autónoma face à NATO, embora articulada com a Aliança Atlântica, com o objectivo de diminuir a dependência da Europa em relação aos Estados Unidos, que considera estarem actualmente sob uma liderança marcada pela imprevisibilidade.

Na entrevista à rádio Renascença sobre temas europeus, divulgada na noite de quarta-feira, o ex-Presidente da República sustentou: "A Europa tem de investir mais na Defesa, uma força, uma identidade europeia de Defesa separada mesmo da NATO, mas em cooperação com a NATO, para poder intervir em situações em que os Estados Unidos não têm interesse".

Para Cavaco Silva, esta necessidade torna-se ainda mais relevante numa fase em que os Estados Unidos são governados por um presidente “super errático”.

O antigo primeiro-ministro social-democrata acrescentou que Trump entende o comércio de forma assimétrica, ao considerar que as trocas comerciais não devem visar benefícios mútuos, mas sim favorecer apenas os próprios Estados Unidos.

Cavaco Silva sobre a UE: Comissão Europeia e Conselho Europeu

Na leitura que faz do funcionamento da União Europeia (UE), Cavaco Silva afirmou confiar “muito mais” na Comissão Europeia, presidida por Ursula von der Leyen, do que no Conselho Europeu, actualmente liderado por António Costa.

Explicou essa preferência com a seguinte ideia: "E porquê? Porque no Conselho Europeu vêm, com grande frequência, ao de cima, os interesses particulares de cada país. Eu acho que em primeiro lugar devem estar os interesses comunitários. Mas há países, e ultimamente tem acontecido um pouco isso com aqueles que, tendo vivido sob um regime comunista, foram acolhidos com grandes apoios na UE", observou.

Ainda sobre a presidente da Comissão Europeia, considerou que Ursula von der Leyen “tem realizado um trabalho excelente num tempo muito difícil, num tempo de guerra na Ucrânia”.

Cavaco Silva destacou também a “muita força e determinação” da política alemã perante “aqueles que tentaram restringir o apoio europeu à Ucrânia”, país em guerra com a Rússia e que, no entendimento do ex-governante, não deve ficar afastado de uma eventual perspectiva de alargamento da UE.

Mercado de capitais europeu, dívida comum e acordos comerciais

O ex-chefe de Estado defendeu que a União Europeia ganharia escala e capacidade de concorrência se dispusesse de “um mercado de capitais verdadeiramente europeu”. Na sua óptica, isso permitiria que Estados e empresas realizassem grandes emissões de dívida ao nível europeu, com condições para competir com as grandes colocações de dívida norte-americana.

Sobre esse ponto e o reforço da projecção externa da UE, Cavaco Silva sublinhou: “Esse é um passo muito importante. É também essencial e aí a Sra. Von der Leyen e a Comissão Europeia têm dado passos importantes, reforçar as relações externas e aumentar o número de acordos comerciais com outros países. Isso foi feito com a Índia, com o Japão, com o México, com a Austrália”.

Emissão de dívida na UE e resposta às exigências de Trump

Cavaco Silva reconheceu que avançar com emissão de dívida europeia tem sido um processo difícil, por ser complexo convencer os Estados-membros a aceitarem essa solução. Ainda assim, recordou que tal foi alcançado durante a pandemia de covid-19, sublinhando que “foi muito importante”.

Nesse enquadramento, deixou uma advertência sobre a relação transatlântica: "Portanto, temos nos Estados Unidos um Presidente não confiável para a Europa, mas a Europa não deve acobardar-se perante as exigências do Presidente Trump", reforçou.

Indicou também que, no início, os dirigentes europeus “não esperavam, inicialmente, este tipo de comportamento por parte do Presidente Trump”, mas salientou que “têm vindo a aprender no sentido certo”.

Por fim, defendeu que deverá repetir-se um mecanismo semelhante ao da pandemia para apoiar os países no aumento das despesas em defesa e segurança. Para Cavaco Silva, existe hoje uma consciência mais sólida dentro da UE de que é o momento de avançar com reformas imprescindíveis para assegurar mais crescimento económico e maior desenvolvimento tecnológico, acrescentando que mais produtividade se traduz em mais poder.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário