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Olaf Köndgen e o arquivo do NSDAP no “Die Zeit”: uma viagem familiar

Homem sentado a ler documento antigo numa mesa com fotografia familiar e óculos ao lado.

Quando Olaf Köndgen decidiu recorrer ao motor de pesquisa online do jornal “Die Zeit”, confessa que “tinha medo de encontrar alguma coisa”, embora “não sabia o que esperar”. O gesto levou-o a explorar os extensos arquivos do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, o partido nazi), cuja abertura, em abril, passou a permitir o acesso a dados sobre a filiação de cidadãos na ideologia do III Reich.

“Quando se pensa que, dos cerca de 70 milhões de alemães [é difícil aferir quantos eram à data, porque, com as anexações nazis, os números aumentaram constantemente: em 1933, eram aproximadamente 66 milhões], mais de dez milhões foram membros do partido entre 1925 e 1945...”, diz ao Expresso Olaf Köndgen, alemão de 64 anos, especialista em direitos humanos no Conselho da Europa, a viver e a trabalhar em França há vários anos.

Dez milhões é, como sublinha, “muita gente”. E, quando este número se reflete em árvores genealógicas, “não existem muitas onde não se encontrem militantes do partido”. Por isso, Köndgen admitia que fosse plausível deparar-se com familiares associados ao NSDAP. “Era, pelo menos, provável, a menos que viesse de um ambiente de resistência - e a minha família não era, de todo, da resistência.”

Uma imersão no passado familiar

Ainda assim, mesmo “psicologicamente preparado”, Olaf Köndgen esperava encontrar sinais de cumplicidade familiar com o regime de Adolf Hitler. “Há alguns anos, tinha pesquisado sobre o meu avô, e escrevi para o arquivo federal em Koblenz, que armazena muitos ficheiros, especialmente sobre os procedimentos de desnazificação, realizados pelos Estados Unidos da América [EUA] após a guerra. As pessoas tinham de comparecer perante uma comissão e responder a perguntas sobre o que tinham feito no III Reich, se tinham sido membros do partido, se tinham sido muito empenhadas ou não, e assim por diante. Era condição prévia para serem reinseridas nas antigas profissões. E o meu avô tinha estado lá.”

O avô de Olaf teve, de facto, de se apresentar perante uma dessas comissões. Quando o especialista pediu ao arquivo federal que lhe enviasse o respetivo processo, recebeu um dossiê com cerca de 70 páginas, incluindo cartas manuscritas. “Portanto, eu já sabia disto.” O que não antecipava era o que viria a descobrir sobre o pai: “Mas o meu pai foi uma surpresa total. Quando o nome dele apareceu, fiquei muito surpreendido, porque sempre achei que era muito novo para entrar no partido.”

Ernst entrou no partido no dia em que começou a guerra

O pai de Olaf Köndgen, Ernst, inscreveu-se no partido nazi a 1 de setembro de 1939. A data, conhecida por assinalar a invasão da Polónia ordenada por Hitler, continua a causar impacto passadas mais de oito décadas. “É a data em que começou a II Guerra Mundial, e ele ainda nem tinha 18 anos. Pouco antes, ainda estava na escola. Era, realmente, um menino.”

Ernst morreu quando Olaf tinha 16 anos. O que o adolescente desconhecia sobre esta parte da biografia do pai - nas cartas que guarda há escassas referências, ou quase nenhumas, a esse período, sugerindo que nos anos 1940 as pessoas estavam absorvidas pelas suas próprias vidas - foi sendo preenchido por suposições.

Ernst era filho de um antigo combatente nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial na Bélgica e cresceu numa família católica, de classe média, instruída. Já Ludwig, o avô de Olaf, tinha aderido ao partido nazi em maio de 1933, apenas quatro meses depois de os nazis chegarem ao poder.

Quando o representante do Conselho da Europa entrou no motor de pesquisa do “Die Zeit”, começou por procurar o apelido. “Encontrei, claro, o meu avô, mas também o irmão dele, um tio afastado que nunca conheci, livreiro na cidade de Wuppertal.” A própria data de filiação de Ludwig apanhou-o desprevenido. “Ele era da geração da I Guerra Mundial. Esteve na frente de batalha na Bélgica. Vinha de um meio muito católico, e a Alemanha na República de Weimar tinha um partido católico, chamado Zentrum, de centro. Era o partido em que votava a maioria dos católicos, incluindo o meu avô.”

No início dos anos 30, Ludwig já tinha um filho, uma família, e tinha construído uma casa. Olaf descreve um contexto de deterioração económica: “Teve de pagar o empréstimo ao banco, por isso estava endividado. Ao mesmo tempo, era arquiteto na cidade de Leverkusen, perto de Colónia. Tinha um cargo muito bom, mas tinha dificuldades em pagar a nova casa, e muito medo de perder o emprego.”

Mesmo reconhecendo como é difícil pesar, à distância, as escolhas de então, Olaf lê a adesão de Ludwig ao NSDAP como “oportunismo”, alimentado pelo receio de perder o posto, a casa e cair na miséria. “Com o tempo, as coisas podem ter mudado, mas não posso afirmar com certeza o que aconteceu.” Tudo aponta, acrescenta, para que Ludwig não se tenha oposto à decisão de Ernst de se alistar na Wehrmacht, as forças armadas nazis.

“Nessa altura, a maioridade era atingida aos 21 anos e não aos 18, como hoje. Para se alistar para ir para a guerra, o meu pai precisava da concordância do pai dele.” E conclui: “No final da sua carreira escolar, em 1939, alistou-se voluntariamente no Exército e aderiu ao partido. Não creio que nada disto tivesse acontecido sem a concordância do meu avô.”

O perito do Conselho da Europa recorda que estes dois homens se moviam num universo político já menos moldado pelo catolicismo. “Não nos devemos esquecer que, até 1940, Hitler, aos olhos de muitos alemães, era um homem muito bem-sucedido. Tinha revogado o Tratado de Versalhes e anexou muitos territórios: os Sudetas, na antiga Checoslováquia; a Áustria; e o Sarre, que foram reintegrados." A ideia de uma História reescrita parecia apagar a humilhação sentida pelos alemães no fim do conflito de 1914-18.

“Isso tornou Hitler cada vez mais popular, inclusive em círculos que no início talvez fossem mais críticos. Com todos estes sucessos, aos olhos da grande maioria, tornou-se cada vez mais bem-sucedido. Penso que foi o caso do meu avô, que também foi afetado por ter sido membro do Exército na I Guerra Mundial, quando a Alemanha foi derrotada.” Olaf tenta situar-se naquele país sem, ainda assim, desculpabilizar: um novo líder desfazia os símbolos do fracasso alemão.

“Até 1940, internamente, Hitler era retratado por muitos como inspirador, e depois as coisas começaram a mudar, com a campanha na Polónia e, em 1941, quando começou a guerra contra a União Soviética”, observa. E, à medida que o número de mortos subia rapidamente, “De repente, os alemães começaram a acordar e a perceber qual era o preço da guerra”, frisa Olaf Köndgen.

Oportunismo, medo e sobrevivência

Quanto a Ernst, as razões são mais difíceis de reconstituir. Aos 17 anos, tanto poderia ser um adolescente pressionado como um verdadeiro crente. “Não creio que possamos ter visão justa do que aconteceu se não considerarmos a idade e as circunstâncias”, nota Olaf, antes de acrescentar: “O meu pai era muito jovem, e entrou para o partido depois de ter sido doutrinado durante muito tempo na escola e na Juventude Hitleriana.”

Olaf tenta imaginar a rotina de um jovem entre 1933 e 1939: sem internet, sem televisão e sem acesso a emissoras estrangeiras - quando existia, “Não tenho a certeza de quando o proibiram, mas não era comum”, atira. “Imaginem estar num Estado ditatorial onde tudo está sob o controlo do Governo. E a propaganda era muito forte nas escolas. Havia lá muita publicidade. Em depois da escola, tinham exercícios e passeios com a Juventude Hitleriana.”

A propaganda não se limitava ao espaço público; infiltrava-se também no ambiente doméstico. A presença era permanente e total, tornando difícil construir uma visão alternativa. “Quando as crianças chegavam a casa, tinham sido sujeitas a tanta propaganda… isso durou seis anos. Agora estou inclinado a dizer que o meu pai estava, provavelmente, convencido de que este regime era uma coisa boa.”

Hoje, Olaf sabe que o pai teve uma vivência de guerra “muito turbulenta”. Começou na frente leste e seguiu para o combate contra a Rússia. “Era operador de rádio e sabia usar o código Morse. Em 1942, foi recrutado para as secretas militares do Exército alemão, a chamada agência Abwehr. Nessa função, foi paraquedista no Irão e, em 1943, foi capturado pelos britânicos e passou quatro anos como prisioneiro de guerra.” Quando regressou, em 1947, não tinha formação académica e teve de refazer a vida.

Como renascer depois da guerra… e de tudo

“Durante sete ou oito anos, estes jovens não fizeram mais nada, além de sobreviver num contexto de guerra”, lamenta Olaf Köndgen. Depois, veio a tentativa de recomeçar: “No caso dele, foi para a universidade, estudou arquitetura e foi trabalhar e viver para África.”

O pai que Olaf conheceu era, na sua memória, um homem de horizontes largos. “Não me lembro de um único comentário antissemita ou racista. Falava alemão, inglês, francês, italiano e persa. Era poliglota e muito aberto ao mundo. Viajou muito e era muito culto. O entusiasmo pela guerra que tinha em 1939 terá desaparecido depois da experiência na Rússia”.

Olaf coordena uma rede académica no Conselho da Europa, organização pan-europeia criada após a II Guerra Mundial para promover e proteger os direitos humanos, a democracia e o Estado de Direito. É uma das muitas pessoas que recorreram à ferramenta de consulta do arquivo “milhões de vezes”, segundo Christian Staas, editor de história do jornal, citado pelo diário britânico “The Guardian”.

O alemão, hoje radicado em França, carrega - como tantos compatriotas - uma história de responsabilidade coletiva que marcou as décadas posteriores a 1945. Recorda um silêncio dominante: factos omitidos, filiações escondidas, ausência de conversa sobre o passado. “Nunca ouvi o meu pai falar disso, nem qualquer informação sobre outros membros da família. Tenho dois irmãos, do primeiro casamento da minha mãe, e o pai deles filiou-se em 1930, e também nunca falou sobre isso. E tenho uma tia que morreu há dois anos, com 102 anos, que tinha aderido ao NSDAP em 1941, como enfermeira de 22 anos a servir na Frente Leste.” Sempre que tentou tocar no assunto com ela, recebeu respostas vagas.

“Quando perguntava pelo meu pai, falavam-me da sua experiência na guerra, mas houve um tema que nunca foi discutido: o envolvimento emocional deles com o nazismo.” Teria concordado com todas as decisões políticas? O que pensava ao longo desses anos? O que sentiu quando percebeu que os judeus foram deportados e nunca mais ninguém os viu? “Pode não ter sabido o que lhes aconteceu, mas perguntou?”, questiona Olaf. “Ficou emocionalmente perturbado com o desaparecimento de um grupo inteiro no meio do país? Tenho grandes problemas com o argumento frequente desta geração, que diz ‘não sabíamos’. O que é que não sabiam ao certo?”

O silêncio das famílias alemãs antes e depois de 1945

O especialista em direitos humanos lembra uma sequência de acontecimentos, incluindo o afastamento de alunos judeus das escolas, “que ocorreu nos primeiros tempos do regime”. As crianças foram empurradas para escolas judaicas e o isolamento intensificou-se. “Muitas famílias judias, quando puderam, abandonaram o país ou, se permaneceram, ficaram ainda mais isoladas. Foram privadas dos seus direitos.”

Para Olaf, detalhes concretos eram visíveis e fáceis de apurar. “Já não podiam ter rádio. Não podiam conduzir um automóvel. Não podiam ir ao cinema. Tudo isto sucedeu diante dos olhos de toda a gente. Dizerem que não sabiam não é credível.”

Entre 1933 e 1939 - quando os campos ainda não eram de extermínio -, afirma Köndgen, os jornais falavam dos campos de concentração, e era do conhecimento geral que as condições eram brutais e que a morte era frequente. “O regime queria que as pessoas soubessem, porque isso espalhava o medo, era esse o objetivo. Outro ponto controverso quem é que sabia dos campos de extermínio na II Guerra Mundial, na Polónia ocupada, como Treblinka, Belzec, Sobibor, e depois Auschwitz?”

O pai de Olaf acabou por ser informado, durante a guerra, sobre os contornos do Holocausto. “Quando se considera toda a estrutura envolvida, havia muitos milhares de pessoas, toda uma burocracia governamental a organizar aquilo. Havia muitos milhares de guardas. Houve colaboração com os alemães, entre as SS e a Wehrmacht na frente de batalha, sobretudo na primeira parte do Holocausto…”

O trauma também toca os descendentes dos agressores

Ainda que enfrentar este passado seja doloroso, Olaf Köndgen considera que fugir à verdade é prejudicial. “Quando estas coisas são varridas para debaixo do tapete, não se tem hipótese de lidar com elas. Existe uma experiência traumática coletiva herdada pelas vítimas e pelos descendentes das vítimas e sobreviventes.”

E há uma dimensão menos reconhecida, acrescenta: também os descendentes de quem participou carregam marcas. “Isso também se herda”, alerta. “Ainda há muito trabalho a ser feito, apesar de a Alemanha ter feito bastantes esforços. Não estou certo de que cheguemos sempre às conclusões corretas, porque há mais coisas implicadas, como a questão de Israel e do conflito no Médio Oriente.”

Segundo Olaf, o que muitos alemães estão agora a perceber - em grande parte por trabalho do Departamento de Estado dos EUA - é a verdadeira escala da adesão social à ideologia nazi no início do século XX. A informação existia, mas a atual acessibilidade do arquivo do partido reforça a perceção: a sociedade alemã dos anos 30 estava nazificada em grau bem superior ao que antes se reconhecia, atingindo a maioria das famílias.

“Podemos dar um novo passo em direção a um maior conhecimento e à verdade. Algumas pessoas têm tanto medo que não querem saber. Não considero que seja a abordagem correta.” Olaf diz isto consciente de que vários amigos enfrentaram descobertas semelhantes. “Um amigo meu acabou de descobrir que o avô era comandante das SS em Białystok, no leste da Polónia, pelo que deve ter estado muito envolvido no Holocausto. E o seu ficheiro foi publicado pelo arquivo da cidade de Berlim.” Agora, está disponível na internet.

À medida que mais pessoas pesquisam, mais a verdade se impõe. Para Köndgen, é esse o caminho para começar a sarar um trauma antigo. “Não sou o meu pai, não sou o meu avô. Não escolhemos as nossas famílias, mas estamos a escolher a forma como lidamos com a verdade.”

Da responsabilidade coletiva, a Alemanha pode entrar numa etapa de compreensão individual e familiar. “A geração que era composta por pessoas que eram jovens adultas durante a guerra praticamente desapareceu. Temos cada vez menos testemunhas dessa época que nos possam contar.” Como explicar aos filhos e às gerações futuras o que aconteceu, sem lhes impor um peso esmagador? E será possível fazer ecoar as lições desse passado no presente?

“Obviamente, não é exclusivo da Alemanha, mas agora temos uma onda de populismo de direita por toda a Europa”, lamenta Olaf. “A Alternativa para a Alemanha está a usar de forma mais ou menos subtil slogans da época nazi e toda a xenofobia contra os imigrantes. Todos estes tópicos voltam à tona. E temos de lutar contra isso, se não estaremos a desumanizar a nossa sociedade e esse não é, definitivamente, o caminho certo.”

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