O ano arranca, como é habitual, em Las Vegas - a capital do Nevada e uma espécie de meca do entretenimento - com o CES (Feira de Eletrónica de Consumo) a voltar a surpreender pelo seu carácter transversal. É um evento com impacto real em áreas tão distintas como a domótica, a cibersegurança, a computação, o desenvolvimento de programas e, naturalmente, o automóvel.
No capítulo automóvel, algumas marcas conseguem mesmo ocupar o centro das atenções nesta feira com uma energia semelhante à que, noutros tempos, se via nos grandes salões de Frankfurt, Genebra ou Detroit - hoje bastante longe do brilho de outras décadas.
Entre os protagonistas contam-se as asiáticas Hyundai, Kia, Honda e Xpeng, a turca Togg e também as alemãs Mercedes-Benz e BMW. Todas fazem questão de mostrar a evolução dos sistemas de infoentretenimento e de assistência a bordo que, apesar do ar futurista, já são tecnologia muito concreta.
No enorme Pavilhão Oeste (West Hall), onde se concentram as exposições mais ligadas à mobilidade, os construtores europeus estão em minoria. Ainda assim, a ausência de muitos é equilibrada pela presença forte de fornecedores de referência, como a Bosch, a Schaeffler, a Webasto e a Faurecia, parceiros de longa data do sector.
Nesta zona onde o “sonho” se aproxima da realidade, há também projectos prestes a entrar na fase comercial que se destacam - nomeadamente os veículos voadores da Hyundai e da Xpeng AeroHT. Se o eVTOL com aspeto de robô transformável ainda parece estar a vários anos de distância, o “porta-aeronaves terrestre” tem chegada ao mercado prevista para os últimos meses do ano.
Mercedes-Benz
Há cerca de uma década, a Mercedes-Benz foi das primeiras marcas a apostar seriamente no CES - e mantém essa opção estratégica. Em 2024, levou uma visão quase definitiva do novo CLA, 100% elétrico, com lançamento apontado para 2025.
Como seria de esperar, o painel de bordo surge recheado de funcionalidades de Inteligência Artificial (IA), num ambiente que tanto parece saído do futuro como assente no presente, e que promete alterar a forma como os ocupantes interagem com o carro.
“Estamos a reinventar a experiência digital com a ajuda da inteligência artificial para permitir uma interação semelhante à humana com o assistente virtual MBUX”, explica-nos o CEO da Mercedes, Ola Källenius, “possuindo propriedades empáticas que variam com o estilo de condução individual. Combinada com o nosso próprio sistema MB-OS, esta abordagem definirá o futuro do luxo digital.”
BMW
Depois da presença muito marcante em 2023, quando revelou o conceito Neue Klasse, a BMW optou por uma postura mais contida no CES deste ano. Ainda assim, mostrou a sua visão de um automóvel transformado numa consola de jogos e apresentou uma nova geração do seu sistema operativo.
Com o serviço “BMW Digital Premium” passa a ser possível aceder, a partir da própria plataforma em linha, a uma oferta mais vasta de funcionalidades e serviços, incluindo alguns fornecidos por aplicações de terceiros.
Já o assistente pessoal por voz ganha uma utilização bem mais alargada graças à inteligência artificial, conseguindo responder a praticamente qualquer pergunta - mesmo as mais improváveis - em poucos segundos.
Volkswagen
Do lado da Volkswagen, uma das grandes novidades é a integração do ChatGPT nos seus automóveis. A marca prevê disponibilizar esta funcionalidade a partir do segundo trimestre de 2024, nos modelos equipados com o assistente de voz IDA.
“A Volkswagen sempre democratizou o acesso à tecnologia”, justifica Kai Grünitz, diretor de desenvolvimento da Volkswagen, “e por isso somos agora o primeiro fabricante de automóveis de volume a introduzir esta tecnologia inovadora, mesmo em veículos do segmento compacto.”
Lamborghini
A Lamborghini também marcou presença no CES 2024, apresentando uma solução para tornar a utilização dos seus superdesportivos mais interativa. A Telemetria X, totalmente conectada, foi pensada para uma experiência mais envolvente em pista e reúne três componentes desenvolvidas em colaboração com a Accenture.
- Garagem Remota: aplicação que permite ver vídeos em tempo real das voltas efetuadas em pista, com o objetivo de melhorar o desempenho através de conselhos que podem ser dados remotamente por um piloto profissional;
- Sistema de Informação Biométrica: capaz de acompanhar parâmetros como o ritmo cardíaco ou o nível de stress;
- Co-piloto Digital: destinado a analisar toda a informação e a sugerir melhorias, através de um assistente digital, para baixar os tempos por volta;
Polestar
A Polestar voltou a reforçar a proximidade à sua parceira Google, na estratégia de alargar os limites da conectividade. No CES 2024, exibiu um Polestar 4 para evidenciar o potencial da condução autónoma num horizonte cada vez mais próximo, num projecto desenvolvido em conjunto com as tecnológicas Luminar e Mobileye.
Hyundai e Kia
Em praticamente todas as edições do CES há um fabricante que se destaca mais do que os restantes - e, em 2024, esse lugar foi ocupado pelo Grupo Hyundai.
Ao longo da feira, o grupo sul-coreano anunciou novos planos de investimento na propulsão por pilha de combustível, sob a sua própria marca. O Nexo, recorde-se, é o veículo a hidrogénio mais vendido em todo o mundo. Já a Kia, que integra o mesmo grupo, aproveitou para dar a conhecer os novos EV3 e EV4.
Para lá destes modelos, foi ainda revelada uma nova gama de veículos comerciais elétricos assente na plataforma modular PBV (Platform Beyond Vehicle), com chegada ao mercado prevista para 2025. O primeiro desta família será o PV5, afinado para diferentes tipos de serviço.
Com a estratégia “Tudo definido por programas”, detalhada no CES 2024, a Hyundai quer que veículos, frotas e ecossistemas passem a funcionar como módulos úteis da vida quotidiana, graças à integração de Inteligência Artificial (IA), ao ponto “que torne os futuros automóveis em autênticas «máquinas de IA», com uma capacidade de aprendizagem contínua”.
A ambição é que esta mudança abra portas à automatização, disponibilize informação, antecipe potenciais problemas, personalize a experiência e otimize serviços e soluções para criar valor. “Como fornecedor de soluções de mobilidade, a nossa visão vai além dos automóveis”, sintetiza Chang Song, Presidente da Divisão SDV do Grupo Hyundai, “porque vemos a mobilidade como uma nova fonte de conhecimento e inovação”.
Supernal
Também no universo Hyundai, a Supernal - dedicada ao desenvolvimento de produtos de Mobilidade Aérea Avançada - apresentou no CES 2024 o S-A2. É a geração mais recente do seu protótipo de aeronave elétrica de descolagem e aterragem vertical (eVTOL), sucessor do S-A1, mostrado pela primeira vez, a nível mundial, há quatro anos, precisamente neste evento.
Com capacidade para um piloto e quatro passageiros, o modelo representa mais um degrau no plano da Supernal para tornar viáveis deslocações aéreas diárias, seguras e economicamente acessíveis, a partir de 2028.
O S-A2 recorre a uma configuração de cauda em V, foi desenhado para atingir 190 km/h e operar a cerca de 460 m de altitude (aprox. 1500 pés), respondendo numa fase inicial às necessidades típicas de trajetos urbanos entre 35 km e 50 km.
A arquitetura de propulsão é totalmente elétrica, com oito rotores integralmente basculantes. A marca aponta ainda um nível de ruído comparável ao de uma máquina de lavar loiça (65 dB durante as fases verticais de descolagem e aterragem e 45 dB em altitude de cruzeiro).
A acompanhar este protótipo, a Supernal exibiu igualmente o Vertiporto, um conceito de “aeroporto do futuro” pensado para recolha e entrega de passageiros antes e depois das viagens.
Honda
A Honda levou ao CES 2024 dois protótipos de linhas futuristas, com a intenção de colocar o primeiro no mercado em 2026. “Sonhamos com uma mobilidade que não seja feita com automóveis enormes e pesados, mas sim com veículos inteligentes e mais ligeiros”, esclarece o diretor executivo da Honda, Toshihiro Mibe.
Nos Estados Unidos, a marca avançou ainda com uma parceria com a LG para construir uma nova fábrica de baterias no estado do Ohio. O primeiro modelo a beneficiar dessa produção deverá ser um SUV com cerca de cinco metros de comprimento, baseado numa nova plataforma e:Architecture, com início de produção previsto para 2025.
Togg
A Togg, fabricante turco ainda pouco conhecido do grande público, volta a marcar presença no Centro de Convenções de Las Vegas, onde já é expositora habitual.
A marca descreve o novo elétrico T10F Fastback como um dispositivo inteligente e aponta o arranque das vendas para ainda este ano na Turquia - o único mercado onde já comercializa o SUV T10X. Depois, a expansão deverá chegar ao resto da Europa em 2025.
O T10F vai existir em três versões, com tração traseira ou integral. A variante de topo contará com dois motores elétricos e 435 cv de potência combinada. A autonomia anunciada é de 600 km, suportada por uma bateria de 88,5 kWh, e a aceleração dos 0 aos 100 km/h é feita em 4,6 s.
No exemplar em exposição, destacavam-se a boa habitabilidade (para cinco ocupantes) e um ecrã central de infoentretenimento de 29 polegadas (cerca de 74 cm).
“O T10F confirma o total compromisso da nossa marca em alterar a situação da mobilidade e é a nossa visão de como a tecnologia inovadora em harmonia com o transporte individual sustentável pode enriquecer a vida de todos”.
Gürcan Karakaş, diretor executivo da Togg
A Togg comunicou ainda a intenção de entrar, no curto/médio prazo, nos mercados francês, sueco, italiano e neerlandês, e fixou a meta de ter um milhão de veículos a circular nas estradas europeias em 2032 (um objetivo que parece bastante ambicioso).
Bosch
A Bosch também participou no CES 2024 e, embora não seja construtor automóvel, é o maior fornecedor mundial do sector.
A grande novidade foi a apresentação do primeiro protótipo da tecnologia de estacionamento autónomo anunciada no CES de 2023.
O sistema inclui ainda uma função de carregamento automatizado para veículos elétricos. O desenvolvimento está a decorrer em Ingolstadt, na Alemanha, em conjunto com a Cariad (a divisão de programas da Volkswagen).
Além disso, a Bosch sublinhou que continua a investir fortemente na tecnologia do hidrogénio, quer para elétricos com pilha de combustível, quer para veículos com motor de combustão.
Os números do CES 2024
O CES mantém uma trajetória de crescimento e continua a afirmar-se. Ao longo dos quatro dias do evento, são esperados cerca de 130 mil visitantes a percorrerem os pavilhões intermináveis para ver o que é apresentado por aproximadamente 4000 expositores oriundos de 150 países.
Estes valores estavam no horizonte da equipa do diretor do CES e acabam por não se afastar muito do que se tem verificado nas últimas edições, com exceção dos anos marcados pela pandemia.
Quase um terço das empresas presentes são start-ups que procuram destacar-se em plena capital mundial do jogo.
Entre as 100 empresas globais mais relevantes do ranking Interbrand, 84 estão representadas em Las Vegas. E mais de 60% dos visitantes têm cargos de nível sénior, sendo por isso considerados decisores. Conjunto de factores que ajudou a consolidar o CES como o evento do ano com maior peso para a indústria tecnológica.
Mesmo sem os Três Grandes - as norte-americanas General Motors e Ford e as marcas americanas que hoje fazem parte da Stellantis (Chrysler, Dodge, Jeep e Ram) - e sem a Toyota (que noutras edições teve forte destaque), o CES 2024 não ficou sem motivos de interesse.
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