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Assembleia da República apresenta voto de pesar por Carlos Brito, antigo líder parlamentar do PCP

Homem de fato a colocar cravos vermelhos sobre mala em sala com bancos verdes e bandeira de Portugal.

Voto de pesar da Assembleia da República por Carlos Brito (PCP)

O presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, apresentou um voto de pesar pela morte de Carlos Brito, antigo líder parlamentar do PCP, sublinhando o seu legado de combate político e um contributo considerado “ímpar” para o percurso democrático. Aguiar-Branco mantém a prática de ser ele próprio a subscrever votos de pesar relativos a ex-deputados ou dirigentes partidários - como aconteceu, por exemplo, nas mortes de Laborinho Lúcio e de Pinto Balsemão -, sendo que, neste caso, o gesto também procura contornar alguma disputa política em torno da memória do antigo dirigente comunista.

O voto, relativo ao falecimento de Carlos Brito na passada quinta-feira, aos 93 anos, vai ser votado na sessão plenária do parlamento de sexta-feira. No texto, lê-se: "A Assembleia da República (...) manifesta pesar pela morte de Carlos Brito e endereça condolências à sua família e amigos. Presta tributo ao seu legado de combate político e reconhece um contributo ímpar no percurso democrático do país".

Disputa política e posições de BE e PCP

Entretanto, o Bloco de Esquerda já tinha apresentado um voto de pesar pela morte do ex-dirigente comunista. Já o PCP optou por divulgar apenas uma curta nota, "a pedido de vários órgãos de comunicação social", na qual "regista o percurso antifascista e a contribuição na Revolução de Abril" de Carlos Brito, "sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político".

Carlos Brito integrou o Comité Central durante 45 anos, liderou a bancada parlamentar do PCP por 15 anos e foi candidato presidencial apoiado pelo partido, entre várias outras responsabilidades. A rutura viria a ocorrer no final dos anos 90: até então visto como uma espécie de braço direito de Álvaro Cunhal, Carlos Brito entrou em divergência com o antigo secretário-geral e acabaria suspenso pelo partido.

Percurso antifascista: da oposição ao Estado Novo à clandestinidade

No voto assinado por Aguiar-Branco, é referido que Carlos Brito nasceu em Lourenço Marques e que, embora tenha passado a viver no Algarve desde a infância, "aderiu cedo aos movimentos oposicionistas" contra o Estado Novo, tendo participado no Movimento de Unidade Democrática e, mais tarde, no PCP.

O texto recorda também a repressão sofrida devido à militância: "Suportou, em razão da sua militância, perseguição política, prisão e tortura." Foi preso no Aljube, em Peniche e em Caxias, tendo comparado os corredores desses estabelecimentos prisionais às sombrias galerias de uma mina. Depois de passar à clandestinidade, tornou-se um dirigente operacional de relevo no partido.

Da Revolução de Abril ao parlamento e à Renovação Comunista

Após o 25 de Abril de 1974, o voto destaca que Carlos Brito foi deputado constituinte e que ocupou lugar na bancada do PCP entre 1976 e 1991, "em décadas decisivas de transição democrática e transformação nacional".

Assinala-se ainda que dirigiu o Avante! e que, em 1980, concorreu à Presidência da República, desistindo em favor do general [Ramalho] Eanes. Num período de tensão ideológica com o partido onde se formou politicamente, fundou, na viragem do milénio, a associação política Renovação Comunista, defendendo a convergência das esquerdas.

Escritor, família e condecorações

O voto de José Pedro Aguiar-Branco dá igualmente relevo à faceta literária de Carlos Brito. "Pai de duas filhas, deixou-nos mais de uma dezena de livros, entre obras políticas, memorialísticas e poéticas. Recebeu a Ordem do Infante D. Henrique e a Ordem da Liberdade". E acrescenta-se: "Viveu vencendo o medo e encarnando os versos que um dia escreveu: crescer à altura de uma ideia / até à morte / e fazê-la vencer".

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