Na semana em que Sam Altman se sentou no banco das testemunhas para defender a OpenAI de Elon Musk, um conjunto de investigadores apresentou resultados preocupantes sobre o impacto da inteligência artificial (IA) no cérebro. A viragem iniciada com o ChatGPT, em novembro de 2022 - e que Altman tenta agora preservar num tribunal da Califórnia - colocou a IA generativa ao alcance de quase toda a gente e transformou a forma como usamos os nossos dispositivos. Em paralelo, reforçou inquietações que se têm repetido em estudo após estudo: parece existir uma relação inversa entre o recurso à IA e a activação de determinadas áreas do cérebro. Quanto mais IA, menor recurso à inteligência humana.
Evidência científica sobre IA e desempenho cognitivo
É esta a conclusão do trabalho desenvolvido por equipas das Universidades Carnegie Mellon, de Oxford, da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e do MIT. O estudo, com o título “A Assistência de IA Reduz a Persistência e Prejudica o Desempenho Independente”, indica que até uma utilização breve de ferramentas de IA pode ter efeitos negativos mensuráveis no desempenho cognitivo.
O que mostraram os testes com um assistente baseado em GPT-5
Os investigadores dividiram participantes em dois grupos para resolver problemas de matemática: um grupo contou com o apoio de um assistente baseado em GPT-5 e o outro realizou as tarefas sem qualquer ajuda de IA. Durante dez minutos, o acesso à ferramenta tecnológica coincidiu com um bom desempenho. No entanto, nos três últimos problemas, quem tinha usado a IA obteve piores resultados e revelou maior tendência para desistir da tentativa de resolução quando comparado com os restantes participantes.
Ou seja, depois da assistência por IA - mesmo quando breve - verificou-se uma quebra imediata e quantificável na capacidade de resolver problemas. A mesma deterioração foi observada num teste de compreensão de leitura realizado após a retirada do acesso à IA. Perante este padrão, os autores concluem que o efeito negativo não está limitado ao tipo de exercício, sendo antes uma consequência generalizada do uso de IA como apoio à resolução de problemas.
“Estas conclusões levantam questões urgentes sobre os efeitos cumulativos do uso diário de IA na persistência e raciocínio humanos”, escreveram os autores do estudo. “Avisamos que, se estes efeitos se acumularem com o uso contínuo da IA, os atuais sistemas de IA - otimizados apenas para auxílio de curto prazo - arriscam-se a corroer as capacidades humanas que é suposto apoiarem.”
Como mitigar os efeitos sem abandonar a IA
A investigação também sugere como reduzir o risco sem deixar de usar modelos de IA. Os impactos mais negativos concentram-se em utilizadores que procuram respostas imediatas e finais. Entre os participantes, 61% pediram à IA que resolvesse os problemas directamente, e foram esses os que exibiram as maiores quebras de persistência.
A diferença é relevante porque depende de como se encara a ferramenta: como substituta do raciocínio, ou apenas como um apoio pontual. Não é a primeira vez que se observa uma relação causal entre o uso de ferramentas de IA e o declínio cognitivo, o que aponta para um problema estrutural. Para o mitigar, é essencial reconhecer que a forma de utilização destes modelos altera os resultados.
Do “efeito Google” à geração Z: sinais anteriores ao boom da IA generativa
Estes efeitos não são meras hipóteses nem começaram com a IA generativa. Há 15 anos, um estudo publicado na revista “Science”, por investigadores das Universidades de Columbia, Wisconsin-Madison e Harvard, descreveu o “efeito Google”, também conhecido como amnésia digital: a tendência para esquecermos informação que sabemos poder ser encontrada facilmente online.
Nos anos seguintes, o impacto negativo na capacidade de memória aprofundou-se, com sinais particularmente visíveis na geração Z. Foi isso que neurologistas e pediatras referiram no Senado norte-americano, em fevereiro, ao alertarem que a geração Z é a primeira na História a apresentar um desempenho cognitivo inferior ao da geração anterior (millennials). A performance é pior na memória, atenção, função executiva e quociente de inteligência (QI), e a tendência terá começado em 2010.
Estes dados funcionam como aviso: não para rejeitar a tecnologia, mas para a utilizar melhor. O risco é que a IA diminua a inteligência humana.
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