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Mudança na gestão do centro de reprodução do lince-ibérico em Silves preocupa especialistas

Tratadora de animais a segurar um filhote de lince-ibérico enquanto outra pessoa consulta um documento.

Especialistas temem mudança na gestão do centro de reprodução do lince-ibérico em Silves

A possibilidade de haver alterações na direção do centro de reprodução do lince-ibérico em Silves está a gerar inquietação entre especialistas. O receio prende-se com o impacto de uma eventual substituição de equipas muito experientes num programa visto como um dos maiores êxitos de conservação em Portugal e em Espanha.

Astrid Vargas, que no arranque do projeto liderou em Espanha o programa de reprodução da espécie, salienta ao Expresso que iniciativas deste tipo “dependem fortemente do conhecimento acumulado ao longo de anos ” e que são processos que exigem “muita experiência e muita formação”. A bióloga recorda ainda que “tanto Rodrigo Serra, como a equipa de Silves, levaram anos e anos a preparar-se”, sublinhando tratar-se de profissionais que “já passaram por situações muito difíceis” e que têm “um grau de experiência altíssimo”.

Na perspetiva da especialista, trocar esta equipa por outra sem percurso comparável “representa um risco direto para a espécie”, porque “desmantelar assim e começar algo novo é pôr em risco todo um processo de recuperação de uma espécie ameaçada, que levou muitos anos a construir”. Acrescenta que o risco se torna particularmente sensível por coincidir com a época de reprodução.

Trabalho técnico no CNRLI: do manejo de crias à reintrodução

A investigadora, hoje dedicada à conservação de borboletas, insiste que “a gestão de um centro de criação de lince-ibérico implica tarefas altamente especializadas, desde o controlo de conflitos entre crias à preparação dos animais para reintrodução na natureza” - capacidades que, segundo Astrid Vargas, resultam de “anos e anos” de aprendizagem.

Os passos certos espanhóis e os erros americanos

Ao recordar a sua própria substituição na liderança do projeto em Espanha, Vargas explica que a passagem de testemunho “foi planeada ao longo de cerca de dois anos, permitindo preparar equipas e garantir a continuidade do trabalho, com várias pessoas a assumir funções de forma gradual”. Destaca, além disso, que a pessoa que a substituiu “já tinha muitos anos a trabalhar no centro de criação”.

Perante o caso agora em Portugal, a especialista traça também um paralelismo com uma situação semelhante nos Estados Unidos, em 2025, onde a administração Trump avançou com cortes no programa de conservação de espécies em risco, incluindo limitações ao financiamento e o despedimento de vários funcionários do Centro Nacional de Conservação do Furão-de-patas-pretas. “A substituição da direção e dos cuidadores do programa do furão-de-patas-negras foi um desastre e acabou por comprometer o funcionamento do projeto e, ao fim de mês e meio, tiveram de contratar novamente os que tinham afastado”, relata. E deixa o aviso de que, em Portugal, “pode acontecer algo semelhante”.

ICNF garante proteção

Este alerta surge num momento sensível para o programa do lince ibérico, em que decisões de gestão podem refletir-se diretamente na continuidade de um dos esforços mais emblemáticos de recuperação de espécies ameaçadas na Península Ibérica.

O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) pretende avançar já a 1 de junho com a substituição da equipa liderada por Rodrigo Serra, que está à frente do centro de reprodução de Silves (CNRLI) há 17 anos. Rodrigo Serra é um veterinário especializado em felinos selvagens: trabalhou em África com leões, no programa de investigação do Okavango, no Botswana; integrou o Grupo de Especialistas de Felinos da União Internacional para a Conservação da Natureza ainda antes da abertura do CNRL, e dirige este centro desde a sua abertura em 2009, acumulando a coordenação do programa ibérico de conservação “ex situ” da espécie, ou seja de reprodução em cativeiro.

O conselho de administração do ICNF afirma que “mantém o compromisso com a recuperação da população de Lynx pardinus, em conjunto com as autoridades espanholas e demais entidades parceiras” e que os técnicos selecionados “cumprem os requisitos exigidos”.

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