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Julgamento da morte do cozinheiro Odair Moniz, 43 anos, baleado na Cova da Moura em outubro de 2024 entra na recta final

Mulher segura fotografia de homem em tribunal com juízes ao fundo, ambiente formal e sério.

O julgamento da morte do cozinheiro Odair Moniz, de 43 anos, baleado na Cova da Moura em outubro de 2024 durante uma operação policial, entra na fase decisiva. Esta segunda-feira de manhã arrancam as alegações finais no Tribunal de Sintra, com o Ministério Público a intervir primeiro e, depois, as defesas da família da vítima e do agente acusado de homicídio qualificado a apresentarem os seus últimos argumentos num processo mediático.

Alegações finais no Tribunal de Sintra

Com o julgamento a aproximar-se do desfecho, as partes preparam-se para a derradeira ronda de argumentos perante o tribunal, depois de semanas marcadas por depoimentos e versões contraditórias sobre o que aconteceu na madrugada de outubro de 2024.

Declarações do diretor nacional da PSP sobre o caso

Há dez dias, numa entrevista ao Expresso, o diretor nacional da PSP, Luís Carrilho, foi questionado sobre a atuação policial na operação dessa madrugada. O superintendente-chefe respondeu: "Os nossos polícias, estou certo, deram o seu melhor e tem de lhes ser garantido todo o direito de defesa, num caso que está em julgamento. A morte de uma pessoa, quaisquer que sejam as circunstâncias, é sempre de lamentar".

Depoimentos em tribunal sobre a morte de Odair Moniz na Cova da Moura

Numa das sessões de julgamento a que o Expresso assistiu, Bruno Pinto, o agente suspeito de homicídio, assegurou ter visto Odair empunhar uma faca e disse que foi essa a razão que o levou a disparar.

O advogado de Bruno Pinto, Ricardo Serrano Vieira, sublinhou que existiriam contradições em declarações prestadas por algumas testemunhas que estavam na rua da Cova da Moura naquela madrugada.

A viúva do cozinheiro descreveu o impacto da morte do marido na vida familiar. “Odair saiu de casa por volta das oito e meia”, sem dizer para onde ia. “Disse-me só que ia sair e que já vinha. Era suposto voltar para jantar”, contou, acrescentando que “ainda hoje" continua sem saber "as razões pelas quais saiu de casa e para onde foi”. Segundo afirmou, “não era habitual Odair sair sem dizer onde ia, mas como era fim de semana, talvez tivesse ido ter com amigos”.

A testemunha referiu que só voltou a ter informações por volta das seis da manhã, quando um dos filhos a avisou de que “tinha acontecido algo ao pai”. Mais tarde soube que o marido tinha sido transportado para o Hospital de São Francisco Xavier, depois de ter sido atingido por dois tiros.

Dois agentes não vão a julgamento

O desenvolvimento mais recente no processo indica que o Tribunal de Instrução Criminal decidiu, em março deste ano, não levar a julgamento Rui Machado e Daniel Nabais, dois agentes da PSP acusados de prestarem falsas declarações quanto à existência de uma faca empunhada por Odair Moniz no momento em que foi morto.

Rui Machado foi ouvido em duas ocasiões. O seu depoimento teve peso na investigação por ser o polícia que acompanhava Bruno Pinto na madrugada em que Odair foi morto. Na altura, afirmou que não viu o cozinheiro com qualquer arma durante o confronto físico, mas disse ter visto a faca mais tarde, debaixo ou ao lado do corpo da vítima.

Daniel Nabais esteve entre os primeiros agentes da PSP a chegar ao local do crime. Quando foi ouvido também como testemunha, declarou que, ao verificar os sinais vitais do cozinheiro, virou o corpo e viu a faca "junto à bacia".

A procuradora do MP Patrícia Naré Agostinho classificou estes depoimentos como "inverosímeis" e confirmou que há "suspeitas" de que a faca foi plantada no local ou “posta à vista”. E não é "verosímil" que, tendo os agentes visualizado a faca, não a tivessem recolhido nem referido o assunto aos operacionais do INEM.

Ainda assim, para a juíza de instrução Cláudia Pina, o Ministério Público atuou de forma "desleal" ao acusar os dois agentes da PSP de falsas declarações. Segundo o Público, a magistrada entende que, quando o MP ouviu os dois polícias que disseram ter visto uma faca junto ao corpo de Odair Moniz, já dispunha de indícios de que estariam a mentir e, por isso, deveria tê-los ouvido como arguidos e não como testemunhas.

Para Cláudia Pina, isso traduziu-se numa violação do “direito ao silêncio” e no recurso a um “meio de prova desleal”. "Temos de concluir que assiste razão aos arguidos quando afirmam que foram indevidamente inquiridos na qualidade de testemunhas", afirmou a juíza.


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