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Mulas de teste lendárias: Ferrari LaFerrari, Rolls-Royce Cullinan, Chevrolet Corvette Stingray, Jaguar XJ220 e Land Rover Freelander

Carro desportivo Ferrari vermelho com jantes cinzentas e pinças de travão amarelas em exposição interior.

As chamadas mulas de teste - numa tradução literal, «mulas de ensaio» - são protótipos usados no desenvolvimento de novos modelos numa fase em que o desenho final ainda não está fechado.

Além de servirem para afinar o produto, funcionam como verdadeiros «laboratórios rolantes» para experimentar soluções tecnológicas ou mecânicas. Por isso, quase sempre são construídas a partir de automóveis já existentes… ou, muitas vezes, a partir de partes de modelos que já estão em produção.

Daí que, quando caem nas objetivas dos fotógrafos-espiões, pareçam à primeira vista pertencer a um determinado modelo, mas sejam suficientemente «estranhas» para denunciarem que há algo diferente escondido sob a carroçaria.

Ao longo dos anos, já apareceu um pouco de tudo. E foi precisamente por isso que, depois de uma breve sessão de ideias na redação, juntámos algumas das mulas de teste mais interessantes. Sabemos que muitas acabam destruídas quando os ensaios terminam - e que outras passam a peças de coleção -, mas histórias para contar não faltam.

Ferrari LaFerrari

O primeiro supercarro de Maranello a receber um sistema híbrido foi visto pela primeira vez disfarçado com a «pele» de um Ferrari 458 Italia.

Na altura, o programa do LaFerrari era conhecido internamente por F150 e um dos protótipos, o “M6”, correspondia precisamente a este 458 em preto. A função desta mula de teste era clara: validar a cadeia cinemática híbrida que acabaria por equipar o futuro LaFerrari.

A grande diferença, por isso, estava concentrada no compartimento do motor. Em vez do V8 do 458 Italia, tudo foi profundamente retrabalhado para acomodar o V12 de maiores dimensões, bem como o sistema híbrido, a bateria e toda a cablagem necessária.

A enorme entrada de ar no tejadilho não disfarçava a necessidade de arrefecimento adicional. Ainda assim, a camuflagem desenhada para se montar à volta do 458 fazia o possível para não deixar perceber que se tratava de um projeto de enorme relevância para a marca.

Em 2016, a Ferrari vendeu esta mula de teste a um cliente, que tentou colocá-la em leilão em 2022 - sem sucesso. Fique a conhecê-la em mais detalhe:

Rolls-Royce Cullinan

A distinta marca de Goodwood levou bastante tempo a aceitar que, na sua gama requintada, teria mesmo de existir um utilitário desportivo.

Quando finalmente avançou, não tinha nada sequer parecido que pudesse servir de mula de teste. Talvez por isso a escolha tenha recaído no maior modelo do catálogo: o imponente Phantom. O resultado foi um Phantom encurtado - note-se o tamanho reduzido das portas traseiras -, mas com uma altura ao solo muito elevada e um ailerón traseiro algo caricato, impossível de ignorar.

Deste processo acabaria por nascer o Cullinan, hoje o modelo mais vendido da Rolls-Royce.

Chevrolet Corvette Stingray

A oitava geração do lendário Corvette foi, de longe, a mais radical de sempre. A razão esteve numa decisão há muito discutida: abandonar o motor longitudinal dianteiro e passá-lo para uma posição longitudinal central-traseira, imediatamente atrás dos dois ocupantes.

Como é evidente, dentro da General Motors não existia nada comparável que pudesse cumprir o papel de mula de teste. A não ser que se fosse procurar do outro lado do mundo, na Austrália.

A solução encontrada foi tão improvável quanto engenhosa. Naquela ilha-continente (que a GM acabaria por deixar), são populares as carrinhas de caixa aberta derivadas de automóveis ligeiros, sobretudo quando têm motores V8.

Essa silhueta podia dar origem a uma mula de teste ideal para o novo e ousado Corvette - e foi exatamente isso que a Chevrolet fez.

Batizada “Blackjack”, destacava-se pelas vias invulgarmente largas. Trazia o interior completo de um Corvette C7 e uma «caixa» traseira mais alta, rematada por um enorme ailerón, concebida para alojar - sim, adivinhou - o motor V8 em desenvolvimento para o próximo Stingray.

Jaguar XJ220

A ideia de usar uma carrinha de caixa aberta para desenvolver um supercarro, como aconteceu no caso do Corvette, fez-nos lembrar outra mula de teste. E esta, além de verdadeiramente épica, tornou-se até uma «estrela» televisiva.

Num episódio incontornável do Top Gear, uma carrinha de caixa aberta da Holden viu-se envolvida numa corrida com uma Ford Transit branca, como manda a tradição, de 1989.

Para espanto geral, a Ford Transit deixou a potente Holden para trás com uma facilidade desconcertante. O motivo era simples: aquela Transit servia como mula de teste do supercarro Jaguar XJ220.

Não tanto para o automóvel completo, mas sobretudo para o seu V6 biturbo em alumínio, utilizado pelo Jaguar XJR-10 no campeonato IMSA, e que, por sua vez, tinha raízes no MG Metro 6R4 do antigo Grupo B do mundial de ralis.

Haveria maneira melhor de esconder um novo motor? Dificilmente. Por fora, parecia uma Transit como tantas outras; porém, a olho mais atento, as jantes do XJ220 e a generosa largura dos pneus denunciavam que não se tratava de uma simples carrinha.

Land Rover Freelander

Em meados da década de 90, a Land Rover decidiu alargar a base de clientes e avançou para o desenvolvimento de um novo modelo de acesso à gama: o Freelander.

Para dar início aos ensaios dinâmicos, foi necessário criar uma mula de teste - e ela surgiu na forma da versão comercial de um Austin Maestro com «calças arregaçadas». No total, foram feitas 25 unidades.

Hoje, sabe-se que apenas três sobreviveram, já que as restantes foram destruídas. Duas dessas unidades integram a Dunsfold Collection, no Reino Unido, iniciada em 1968 como uma coleção privada «simples», mas com o objetivo nobre de preservar a história da Land Rover.

No meio de uma coleção extensa de exemplares originais e marcantes, estes invulgares Austin Maestro Van com suspensão mais elevada destacam-se imediatamente.

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