Saltar para o conteúdo

Estudo da Universidade de Coimbra revela microplásticos nos rios Mondego e Vouga

Jovem com bata branca sentado junto a rio a analisar amostra de água numa garrafa de plástico.

Um trabalho de uma equipa internacional coordenada pelo Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade de Coimbra identificou uma presença generalizada de microplásticos nos rios Mondego e Vouga, cursos de água que atravessam a Região Centro. Entre as fontes mais relevantes desta contaminação estão as embalagens de uso único, cuja fragmentação acaba por introduzir partículas na cadeia alimentar.

Microplásticos nos rios Mondego e Vouga

O tema da poluição nestes sistemas fluviais não é novo: um estudo anterior da mesma universidade já tinha sinalizado o impacto no Mondego associado à presença de fármacos. Agora, com a colaboração do Instituto Indiano de Educação e Pesquisa Científica de Calcutá, a investigação - publicada na revista científica "Journal of Hazardous Materials: Plastics" - detetou microplásticos em suspensão em todos os pontos de amostragem de ambos os rios. Este resultado reforça que a poluição por plásticos está amplamente disseminada, incluindo em ecossistemas de água doce situados no interior do território.

A maioria das partículas observadas tinha menos de um milímetro, e as fibras surgiram como o formato predominante. Quanto à composição, destacaram-se o polietileno e o polipropileno, materiais muito comuns em embalagens e em plásticos de uso único.

Risco ecológico e locais com maior concentração

Além de contabilizar as partículas, os investigadores analisaram o risco ecológico com recurso a índices internacionais de poluição e de perigo. A avaliação aponta, de forma global, para um risco baixo a moderado; ainda assim, há áreas onde os níveis podem ser potencialmente elevados, sobretudo pela maior proporção de partículas pequenas, mais facilmente transportadas e ingeridas por organismos aquáticos.

No Mondego, os valores máximos foram registados em Coimbra - uma cidade com elevada atividade humana e atividade agrícola moderada -, onde a abundância atingiu picos de 556 itens/m3 e onde os indicadores de risco ecológico obtiveram, também, os valores mais altos do conjunto de amostras. No Vouga, a maior abundância de microplásticos foi medida numa praia fluvial da freguesia de Macinhata do Vouga, no município de Águeda (1667 itens/m3).

Considerando o Índice de Risco Ecológico Potencial, por exemplo, Alfarelos (Soure) e Coimbra, ambos no Mondego, apresentaram os valores mais elevados, alcançando a categoria de risco extremo devido às quantidades de microplásticos e à presença de polímeros perigosos. Já no Vouga, as amostras de Paredes (Oliveira de Frades) chegaram a níveis enquadrados na categoria de risco extremo; por sua vez, Outeiro (Aveiro) e Fontinha (Águeda) ficaram na categoria de perigo.

Para Seena Sahadevan, líder do estudo, "este trabalho fornece informação importante sobre a contaminação por microplásticos em sistemas de água doce em Portugal e evidencia a necessidade de monitorização contínua e de estratégias de mitigação".

Os resultados indicam ainda "que partículas suspensas menores podem influenciar desproporcionalmente as classificações de risco ecológico baseadas em índices devido à sua maior mobilidade, biodisponibilidade e capacidade de interagir com contaminantes concomitantes", como se lê no artigo. Por esse motivo, os autores defendem que a avaliação destes sistemas deve recorrer a abordagens integradas, que "tenham em conta as características das partículas e os processos ambientais".

Fármacos contaminam ribeiras

Existe uma contaminação alargada por fármacos em ribeiras urbanas de Coimbra e de outras cidades europeias, associada a falhas nos sistemas de saneamento urbano e com potencial para colocar em risco a saúde pública. Apesar de estas águas não serem consumidas diretamente, são utilizadas na rega de hortas domésticas.

A informação, divulgada em novembro último, resulta do projeto OneAquaHealth, que avaliou 102 ribeiras em Benevento (Itália), Coimbra (Portugal), Ghent (Bélgica), Toulouse (França) e Oslo (Noruega). Este estudo internacional foi liderado pela Universidade de Coimbra.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário