A La Cinef - a competição dedicada a filmes de escolas de cinema, anteriormente conhecida como Cinéfondation - inicia esta terça-feira as exibições dos títulos selecionados para o Festival de Cannes. A primeira curta-metragem a ser apresentada hoje, ao início da tarde, na Sala Buñuel, chega de Portugal, pela mão da Escola Superior de Teatro e Cinema.
La Cinef no Festival de Cannes e a curta da Escola Superior de Teatro e Cinema
O filme escolhido chama-se "Onde Nascem os Pirilampos". A história segue um grupo de jovens que vai acampar e começa a escutar ruídos estranhos vindos da floresta, percebendo pouco a pouco que, afinal, não está verdadeiramente sozinho.
Tratando-se de um projeto coletivo - como é habitual em trabalhos desenvolvidos no contexto escolar - a autoria é atribuída a Clara Vieira, que falou com o JN sobre a seleção e o percurso até Cannes.
"A notícia da seleção foi bonita, uma surpresa", começou por dizer. "É uma validação muito grande para qualquer cineasta e cinéfilo vir a um festival como este. É um momento muito gratificante para toda a equipa", contou.
"Onde Nascem os Pirilampos": premissa e a inspiração do conflito
Questionada sobre a origem da ideia, a realizadora explicou que "surgiu do entendimento de que, ultimamente, as boas notícias não chegam sozinhas". Clara Vieira detalhou que "muitas vezes, quando algo de bom nos acontece, essa experiência acaba contaminada por um ruído maior vindo do estado do mundo. (...) Há uma sensação constante de instabilidade e inquietação em relação ao futuro, neste caso relacionado à ecologia e ao estado do planeta, que acaba por atravessar as experiências mais íntimas e individuais. Então o filme nasce desse conflito de algo que é bom, mas, quando nos colocamos no lugar do coletivo, parece que se desmerece ou que perde o seu significado".
O que Clara Vieira levou da escola de cinema
Sobre a aprendizagem na Escola Superior de Teatro e Cinema, Clara Vieira considera que os estudantes têm "bastante autonomia, o que pode ser algo positivo quando a turma trabalha bem em conjunto. No meu caso, tive muita sorte e aprendi mesmo muito ao lado dos meus colegas, que são pessoas e profissionais incríveis."
A realizadora concretizou como esse processo era organizado: "Todos os semestres tínhamos pitchings e produzíamos os filmes selecionados pelos professores. Acabamos por lidar muito com a frustração e com os momentos menos bons desta área, que é muito competitiva. Talvez a parte menos boa disto seja essa, porque com essa autonomia vêm grandes responsabilidades, que nos cabem a nós gerir e, não tendo ainda maturidade para o fazer, senti que poderíamos ter sido mais apoiados nesse sentido."
Clara Vieira deixou ainda outra observação crítica sobre o curso. "Sendo uma escola que tem departamento de teatro, gostava que houvesse mais espaço e talvez uma cadeira onde os dois departamentos pudessem colaborar. Infelizmente, não há muito trabalho prático com atores durante a formação. Mas, apesar de tudo, aprendi a lidar com pessoas num set, a gerir todas as emoções, a organizar pré-produção e a fechar o processo na pós-produção. "
Antes da projeção em Cannes, a cineasta reforça como equilibrou formação e identidade artística: "Apesar de ser tudo muito intenso, aprendi a fazer filmes. Claro que uma escola tende sempre a ter a sua própria formatação e, às vezes, é muito difícil lutar contra isso, ou mesmo questioná-la, mas é importante que, quando temos uma visão artística, continuemos a alimentá-la fora da escola. Eu sempre encarei a formação como uma parte importante técnica que não podia dispensar, para ser profissional na área, mas desde cedo que sei como me quero posicionar criativamente e isso sempre o fiz fora da escola."
Próximos objetivos no cinema
É com essa clareza que Clara Vieira enumera o que procura fazer a seguir: "Gostava muito de trabalhar em montagem, filmar documentários, continuar a escrever e a realizar ficção. No fundo, quero muito aprender mais, agora fora do contexto académico e colaborar com realizadores que admiro." E conclui: "Também tenho muita vontade de trabalhar como atriz num filme." O cinema português volta hoje a passar por Cannes.
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