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Festival de Cannes: John Travolta, Eric Cantona e Radu Jude marcam a edição 79

Homem de fato preto segura troféu dourado num tapete vermelho com fotógrafos ao fundo.

Naquilo que já fica como um dos instantes mais marcantes da 79.ª edição do Festival de Cannes, John Travolta apareceu ontem ao final da tarde no palco da Sala Debussy, numa sessão que, à partida, seria apenas a apresentação do seu primeiro filme enquanto realizador, "Propeller One-Way Night Coach".

Antes de o ator surgir perante a plateia, a sala - literalmente cheia - viu uma breve retrospetiva do seu percurso, com destaque para momentos que ficaram gravados na cultura popular, como "Pulp Fiction" (Palma de Ouro de 1994) ou "Febre de Sábado à Noite".

John Travolta no Festival de Cannes: da apresentação à ovação

Quando John Travolta subiu finalmente ao palco, a reação do público foi estrondosa. Fiel à humildade que lhe é muitas vezes atribuída, respondeu à pergunta de Thierry Frémaux sobre como se via neste momento, se como ator ou como realizador: "Sou um voyeur", disse. "Sou um artista que olha para o mundo".

Aos 72 anos e com mais de meio século de carreira, o ator de "Grease" voltou a sublinhar a importância de Cannes no seu próprio percurso, descrevendo o festival como o lugar onde sempre procurou o que de melhor se faz no mundo. Aproveitou ainda para elogiar o delegado-geral, que considerou uma das figuras mais importantes da indústria cinematográfica.

O ponto alto, porém, estava guardado para o fim: Thierry Frémaux apanhou Travolta de surpresa ao entregar-lhe uma Palma de Ouro de carreira, distinção que não constava do programa. Visivelmente comovido, o ator afirmou que este prémio tinha, para si, mais peso do que um Óscar.

"Propeller One-Way Night Coach" na Cannes Première e o exclusivo Apple TV+

Com a sala já às escuras, seguiu-se a exibição da primeira longa-metragem realizada por John Travolta, depois de, poucos minutos antes, ter sido anunciada como a primeira obra selecionada para o festival deste ano, na secção Cannes Première, fora de competição - onde, na segunda-feira à noite, também será projetado "Aqui", de Tiago Guedes.

Exclusivo da Apple TV+, "Propeller One-Way Night Coach" - com pouco mais de uma hora - funciona como uma declaração de amor à aviação, uma das grandes paixões de Travolta, que possui um jato privado pilotado por ele próprio. A ação decorre em 1962 e acompanha a primeira viagem de avião de um rapaz, que segue com a mãe pelo interior dos Estados Unidos.

Com um genérico animado que evoca o estilo do grande Saul Bass e uma reconstituição especialmente cuidada dos décors de aeroportos e aviões da época, o filme avança através de pequenos episódios, apostando em soluções narrativas pouco habituais e num humor muito singular - combinação que faz desta sessão um momento de entretenimento particularmente especial.

Da mão de Maradona ao golpe de karaté de Cantona

Antes de surgir na Sala Debussy ao lado de John Travolta, Thierry Frémaux tinha estado na sala Agnès Varda para receber Eric Cantona. Foi o próprio responsável máximo pela programação do festival a notar que era mera coincidência Cannes acolher, a menos de um mês de um campeonato do mundo, dois documentários centrados no universo do futebol.

Depois da mão de Maradona - ou de Deus, já que em Diego estão as mesmas cinco letras de i.e. God -, estava na altura de descobrir "Cantona". E, embora o filme não contorne nenhuma das muitas polémicas associadas ao antigo astro francês, o que se viu foi um Eric Cantona descontraído e claramente bem disposto, recebido por mais uma sala lotada e saudado com uma ovação de pé.

Cantona, que hoje soma também uma carreira de ator e tem, com a esposa, a atriz Rachida Brakni, um apartamento em Lisboa, regressou assim a Cannes, onde já tinha estado em 2009 para acompanhar o lançamento de "À Procura de Eric", de Ken Loach. No documentário de David Tryhorn, seguimos o seu trajeto: um génio desde cedo, repetidamente envolvido em atitudes controversas - que o filme não suaviza -, até ao episódio mais crítico da sua história no futebol, quando desfere um autêntico golpe de karaté a um espectador que o provocara na primeira fila, num jogo do Manchester United (equipa onde jogava) frente ao Crystal Palace.

No documentário, Eric Cantona não se diz arrependido, mas responsabiliza-se pelos seus atos; os pais defendem o seu caráter; Sir Alex Ferguson procura enquadrar o que aconteceu. É um filme que muito provavelmente veremos por cá, e que não se destina apenas aos adeptos do desporto-rei, já que Cantona alcançou um estatuto de estrela que há muito ultrapassou as linhas do relvado.

Radu Jude e "Diário de uma Criada de Quarto" na Quinzena dos Cineastas

Como sucede em praticamente todos os grandes festivais, em que as secções competitivas nem sempre obedecem apenas à qualidade intrínseca dos filmes escolhidos, também em Cannes é nas secções paralelas que se pode encontrar alguns dos títulos mais fortes. Foi precisamente o que se verificou ontem na Quinzena dos Cineastas, com a estreia mundial de "Diário de uma Criada de Quarto", uma adaptação livre do romance de Octave Mirbeau, publicado pela primeira vez em 1900 e já levado ao cinema, entre outros, por Jean Renoir, Luis Buñuel e Benoit Jacquot.

Desta vez, o romeno Radu Jude apresentou uma leitura muito solta e atual do material. O realizador já tinha passado pela Quinzena com as suas curtas-metragens e conquistara o Urso de Ouro de Berlim de 2021 com "Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental". E basta lembrar que, desde então, fez, entre outros, "Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo", "Kontinetal "25"" e ainda um "Drácula" que continua por estrear em Portugal, para se perceber como Jude é hoje um dos cineastas mais prolíferos - e, ao mesmo tempo, um dos mais talentosos e versáteis.

Aqui, a premissa é simples e eficaz: a criada de quarto passa a ser uma jovem romena que deseja regressar à filha de nove anos, deixada na aldeia natal; os patrões são um casal da burguesia de Bordéus, mas com complexos de esquerda. A partir daí, ao longo dos vários dias deste diário filmado, Radu Jude consegue divertir-nos enquanto fala de matérias muito sérias. A romena Ana Dumitrascu domina o ecrã; Melanie Thierry e, sobretudo, o impagável Vincent Macaigne funcionam como contrapontos inesquecíveis. E, se é fã das bandas desenhadas de Astérix e Obélix, prepare-se: houve piadas que quase fizeram a sala do Théâtre Croisette vir abaixo.

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