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O Homem do Leme: musical com Xutos & Pontapés em rodagem em Lisboa

Homem com luvas de boxe a treinar num terraço em Lisboa com o rio e a ponte 25 de Abril ao fundo.

As canções dos Xutos & Pontapés são o ponto de partida de "O Homem do Leme", um projeto em rodagem em Lisboa que vai dar origem a um filme e a uma série, ambos centrados numa narrativa de sobrevivência na selva urbana.

"O Homem do Leme": enredo e luta pela superação

"O Homem do Leme", concebido como um musical, acompanha uma história "de sobrevivência, de tentativa de superação, de chegar a uma condição melhor, mas havendo um lado sempre a puxar para baixo. Portanto, é uma luta intensa", explicou à Lusa o argumentista, Mário Cunha, durante um dia de filmagens no Bairro do Armador, em Lisboa.

Com realização de João Maia, esta ficção debruça-se sobre "a vida de jovens dentro de bairros sociais, em condições socioeconómicas desfavorecidas e muito próximos da vida criminal".

No centro da trama está Zé Pedro, que ao entrar na maioridade "sobrevive sozinho", depois de a mãe ter desaparecido e de o pai ter sido detido.

Interpretado por Sandro Feliciano, Zé Pedro dedica-se ao graffiti e alimenta o sonho de vir a ser um artista plástico reconhecido. O seu objetivo passa por estudar numa universidade de artes fora de Portugal, o que lhe permitiria afastar-se de "um meio que o oprime e que não lhe dá possibilidade de sair do submundo" da pequena criminalidade.

Quando se encontra a preparar os exames que o podem aproximar desse plano, "regressa ao bairro o seu melhor amigo de sempre, acabado de sair da prisão".

Esse regresso complica-lhe o percurso: o amigo "puxa novamente Zé Pedro para o mundo do qual ele quer sair". "Ele tenta resistir a isso, mas depois há a questão da lealdade, da amizade e uma série de peripécias que levam a que ele acabe por se meter em problemas, dos quais depois tem de sair", detalhou Mário Cunha.

Personagens e conflitos no bairro

O núcleo principal de "O Homem do Leme" inclui ainda duas personagens femininas, Inês e Débora, "que além do meio social desfavorecido em que vivem, ainda têm de lidar com o machismo estrutural, e com a violência que está associada a isso".

Entra também Pina, "um antigo boxer e que tem um passado também ligado à criminalidade, mas do qual se limpou". É ele quem gere uma academia de boxe, onde "tenta puxar os jovens através do desporto para fora do mundo do crime".

Locais de rodagem em Lisboa: Armador, Chelas e Alcântara

Um dos pontos em que o projeto cruza realidade e ficção está precisamente nessa academia. O espaço usado como cenário para a academia de boxe de "O Homem do Leme" é a Academia Jorge Pina, pertencente à associação criada pelo pugilista Jorge Pina, que em 2004 perdeu quase totalmente a visão quando se preparava para o Campeonato do Mundo de Boxe.

Instalada no Bairro do Armador, a associação tem como objetivo promover a inclusão social de crianças e jovens em situação desfavorecida e também de quem tem necessidades educativas especiais, recorrendo ao desporto como ferramenta.

Para lá do Bairro do Armador, na zona de Chelas, a produção filma igualmente no bairro da Quinta do Cabrinha, em Alcântara. Na ficção, estes dois bairros aparecem como próximos entre si, e não em extremos opostos da cidade.

Banda sonora com Xutos & Pontapés

Sendo um musical, a presença da música dos Xutos & Pontapés atravessa vários momentos do enredo. Os temas foram "rearranjados" pelo músico e produtor Armando Teixeira, que assume a direção musical do projeto, e são cantados pelos próprios atores.

Segundo Mário Cunha, algumas canções ficaram "bastante diferentes", enquanto outras permanecem "um bocadinho mais próximas" das versões originais.

Além das interpretações das músicas dos "Xutos", existe também um tema original, com letra de Mário Cunha e música de Armando Teixeira.

Escolher as canções foi, para o argumentista, uma exigência particular: olhar para "o vastíssimo cancioneiro dos "Xutos" e encontrar dez músicas que encaixassem na história, cujas letras e a temática tivessem que ver com aquilo que as personagens estavam a viver", foi "um grande desafio".

A banda sonora inclui, inevitavelmente, "Homem do Leme", tema que dá nome ao projeto, e também canções como "Remar Remar", "Barcos Gregos", "Circo de Feras" e "Sémen".

Sobre a entrada da música na narrativa, o argumentista descreveu-a assim: "é como se o tempo parasse e se entrasse num momento fantasioso, num momento de sonho, dentro de uma realidade muito crua".

Sandro Feliciano entre representação e música

Para Sandro Feliciano, esta é a "primeira grande experiência" fora do teatro, e acaba por juntar dois territórios em que se movimenta: a representação e a música.

No início deste ano, o ator lançou o seu primeiro álbum, enquanto Malammore, intitulado "Aurora", apresentado como uma narrativa autobiográfica e um testemunho sobre a vivência de ser um jovem negro em Portugal.

O ator considera que o trabalho em "O Homem do Leme" pode "fazer surgir novas músicas, novos projetos, novas visões, novos conhecimentos".

Quanto ao papel de Zé Pedro, descreve-o como "muito desafiante em vários aspetos", até porque "todo o projeto é um projeto diferente, um musical".

"Logo aí obrigou-me a entrar também por outros caminhos. Tivemos preparação vocal, de dança e também de boxe, com o Jorge Pina", contou à Lusa, durante uma pausa nas filmagens.

Apesar de a sua história de vida não coincidir com a da personagem, Sandro Feliciano diz reconhecer "muitos pontos de contacto" com a realidade do bairro e com as pessoas com quem se tem cruzado.

"Há muitos pontos de contacto mesmo, porque "vimos todos do mesmo sítio". Acho que a comunidade negra instantaneamente encontra uma relação quando vê um semelhante. Há experiências que são comuns, apesar de eu ter vivido fora de um bairro social e ter crescido longe deste ambiente em que estou agora", partilhou.

E nota também afinidades ao nível cultural: sente que "há muitas referências que são comuns". "O que não há é o espírito de comunidade que existe aqui, por exemplo, eu nunca experienciei esse espírito de comunidade", afirmou.

Nascido em Portugal e filho de pais cabo-verdianos, Sandro Feliciano foi adotado aos dois anos por um casal de portugueses brancos.

Aos sete anos começou a fazer teatro no Grémio Dramático Povoense, na Póvoa de Santa Iria (Vila Franca de Xira). Mais tarde, ingressou na Escola Profissional de Teatro de Cascais e, aos 16 anos, ainda enquanto estudante, integrou o elenco de "Casa Portuguesa", espetáculo de Pedro Penim estreado em 2022 no Teatro Nacional D. Maria II e posteriormente apresentado em várias cidades portuguesas e no estrangeiro.

O ator afirma ter "a certeza" de que, se não tivesse sido adotado, a sua vida teria seguido outro rumo.

Embora tenha nascido num bairro social, garante não guardar qualquer memória desse período.

Já durante o trabalho em "O Homem do Leme", tem percebido que o bairro "é uma coisa muito fechada".

"Não as pessoas. As pessoas são abertas, gostam de conhecer, mas todo o bairro é fechado. E a própria sociedade também fecha os bairros, em muitos aspetos, em muitas coisas. E como também irá acontecer com estas personagens, tudo bloqueia. Ter uma morada aqui parece que significa algo logo, instantaneamente, e algo negativo, nunca positivo", referiu.

"O Homem do Leme", produção da SkyDreams para a RTP ainda sem data anunciada de estreia, reúne no elenco atores profissionais como Pedro Hossi, Mariana Cardoso, Mina Andala e Luís Henrique Matos, além de Sandro Feliciano, e conta também com intérpretes amadores, residentes em Chelas.

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