Marta Sousa, operária fabril de 52 anos, chegou esta terça-feira a Fátima e a sua primeira reação foi registar o momento: tirou uma fotografia, bem-disposta, ao lado da placa da localidade. Vinha integrada num grupo de 260 pessoas de Espinho, depois de uma caminhada de perto de 200 quilómetros, iniciada de madrugada no dia 8.
Ao longo do percurso, seguiu a conversar e a rezar o terço com a filha e com amigas - uma vivência bem diferente da de há três anos, quando cumpriu a promessa de caminhar sem falar e de se alimentar apenas de pão e água, algo que, conta, a deixou deprimida.
A promessa do silêncio e o regresso ao convívio
Marta admite que falar e conviver faz parte de quem é, e por isso a peregrinação em silêncio teve um peso emocional. "Fiquei triste por não participar nas conversas. Comecei a pensar na família, nos meus filhos e nos meus pais. Foi muito difícil", sublinha. Acrescenta ainda que, por não ter colocado fita-cola na boca - como é habitual entre alguns peregrinos - acabou abordada por outra peregrina e não pôde responder, o que a incomodou.
Este ano, diz, o motivo é outro: "Este ano, venho agradecer, porque tive os meus pais muito mal", explica.
"Gosto muito de Nossa Senhora e é sempre um gosto ir a Fátima. Esta é a sexta vez", conta a operária fabril, natural de Espinho. E refere, com orgulho, que este agradecimento à Virgem de Fátima se relaciona também com a filha, Filipa Martins, de 21 anos, que concluiu o curso de Design em Vila do Conde. A jovem, que caminha ao lado da mãe há quatro dias, quis experimentar a peregrinação e agradecer "não só pelo curso, mas por tudo".
Assistência na caminhada do grupo de Espinho
Durante o trajeto, o grupo de fiéis de Espinho contou com acompanhamento clínico: um médico, três enfermeiros, três fisioterapeutas e um osteopata. Essa equipa deu assistência à Filipa e a outros peregrinos. "Como a Filipa é diabética, com o esforço, o açúcar no sangue baixa, e as bolhas nos pés demoram mais tempo a cicatrizar", explica Marta.
Apesar das dificuldades, a jovem quer regressar a Fátima no próximo ano e levar consigo a irmã.
Entrada no Santuário com o lema dos peregrinos de Espinho
Para as 16 horas desta terça-feira, ficou combinado que os 260 peregrinos se juntariam junto aos bombeiros, para entrarem todos ao mesmo tempo no Santuário, com t-shirt, lenço e chapéu iguais. "Saímos juntos e chegamos juntos é o lema dos peregrinos de Espinho", esclarece Marta Sousa.
Corredor das promessas
Já no Santuário, Bisendra Thapa, de 38 anos, avançava devagar no corredor das promessas, de joelhos ou de gatas, interrompendo o percurso para, por instantes, se deitar. Mas, ao contrário do que muitos poderiam supor, o nepalês - residente em Lisboa há 11 anos e carpinteiro - não se encontrava ali a rezar: procurava apoio para voltar a encontrar a filha portuguesa, hoje com 9 anos, levada pelo avô quando tinha três meses, e que nunca mais viu. "Tenho esse desejo, e toda a gente diz que se cumpre aqui, e eu acredito que se pode cumprir", conta ao JN.
"Amo a minha família e perdia-a. Quero saber porquê eu? Sinto-me confuso e não sei o que fazer", confessa o hindu Bisendra, que tem a deusa Shiva tatuada no peito, embora afirme respeitar todas as religiões. Como nas 10 vezes anteriores, foi a Fátima de autocarro e voltou a percorrer o corredor das promessas, onde, este ano, via mais peregrinos do que o habitual.
A irlandesa Beth Warren, de 19 anos, estava no Santuário com a tarefa de se disponibilizar para rezar com os peregrinos. A estudar Teologia numa universidade do Algarve desde outubro, integra um percurso académico que inclui uma semana em Fátima, para falar nas "boas notícias sobre Deus". E admite que lhe "parte o coração ver pessoas a fazer o corredor das promessas em sofrimento", sem compreender por que razão o fazem, uma vez que "Deus já fez esse sacrifício". "Respeito, mas não concordo."
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