Enterrado sob o norte do Sinai, um santuário circular construído em torno de água do Nilo surgiu como um templo esquecido da antiga Pelúsio.
A descoberta altera a leitura da cidade, transformando o que parecia uma ruína cívica num santuário onde lama, água e crença local se encontravam.
Bacia à vista no Tell el-Farama
No Tell el-Farama, um sítio arqueológico que assinala as ruínas da antiga cidade de Pelúsio, no norte do Sinai, a bacia exposta mede cerca de 35 metros de largura e ainda está ligada a um antigo canal do Nilo.
Com base na bacia desenterrada, o supervisor da escavação, Dr. Hisham Hussein, reinterpretou a estrutura como um santuário.
Ao longo de seis campanhas, o Ministério do Turismo e das Antiguidades do Egito foi revelando cada vez mais do local, à medida que muros, canais e entradas iam ficando visíveis.
Chamar o edifício de santuário é importante porque coloca a vida ritual, e não a rotina municipal, no centro de Pelúsio.
Água tornada sagrada
Alimentada pelo antigo braço do rio, a bacia terá guardado água rica em lodo, ligando Pelúsios à lama fértil do Nilo.
Em torno do círculo, canais construídos drenavam e orientavam a água, enquanto uma base quadrada no centro provavelmente sustentava a estátua da divindade.
Como Pelúsios pode derivar da palavra grega para argila, toda a disposição transforma a própria lama em significado religioso.
Em vez de responder a necessidades comuns de abastecimento, o conjunto encenava um ato repetido de devoção sempre que era enchido.
De sala a santuário
Em 2019, a equipa dispunha apenas de um quarto do círculo, e essa visão parcial levou à identificação errada.
Quando surgiram as aberturas do lado leste, sul e oeste, as entradas e o sistema hídrico deixaram de fazer sentido como um edifício senatorial.
As escavações subsequentes e as comparações com construções afins afastaram a equipa da hipótese do senado.
“Agora sabemos que isto era uma instalação sagrada de água, usada em rituais religiosos, não uma estrutura política”, afirmou o Dr. Hussein.
Papel de cidade fronteiriça em Pelúsio
Para a antiga Pelúsio, um santuário centrado na água fazia todo o sentido dentro de uma cidade portuária que guardava a extremidade oriental do Egito.
Caravanas, navios, soldados e migrantes passavam por ali, por isso as ideias religiosas podiam viajar com mercadorias e exércitos.
O intenso movimento através de Pelúsio ajuda a explicar por que razão o santuário misturava devoção local com formas reconhecíveis sob os domínios grego e romano.
Numa cidade construída para as passagens, a bacia era mais do que um desenho invulgar, porque tornava visível o sentido de pertença.
Design entre impérios
Os hábitos construtivos do antigo Egito continuavam a moldar o santuário, mas a planta geral também emprestava traços dos gostos mediterrânicos mais tardios.
Em vez de seguir um eixo direto de templo, a estrutura centrava o culto no movimento em torno da água e de uma figura elevada.
O plano circular sugere que os arquitetos não estavam a copiar um único modelo, mas a adaptar várias tradições para uma divindade local.
O resultado encaixa numa cidade de fronteira onde os estilos importados chegavam com frequência, mas os costumes sagrados antigos continuavam a ter autoridade.
Uma divindade da lama
A lama pode parecer humilde, mas aqui transportava identidade, porque Pelúsio recebeu o seu nome grego da lama e do lodo.
As divindades locais ligavam muitas vezes o culto a uma paisagem, e Pelúsios parece estar associado ao rio que alimentava a cidade.
Ao erguer um santuário em torno de água lamacenta, em vez de salas secas de pedra, os fiéis tornavam o próprio lugar parte do ritual.
A ligação entre crença e ambiente pode explicar por que motivo a instalação parecia tão invulgar, mesmo para padrões egípcios.
Séculos de retorno
As camadas enterradas mostram que o lugar permaneceu ativo desde o século II a.C. até ao século VI d.C.
Ao longo desse vasto período, os construtores alteraram apenas pequenas partes, o que significa que a ideia principal continuou a funcionar durante gerações.
O uso prolongado também sugere que o santuário sobreviveu à rotação de poderes, mesmo com a mudança contínua de governantes, línguas e parceiros comerciais.
Poucos locais sagrados preservam esse tipo de continuidade, e isso dá a este um peso invulgar no Norte do Sinai.
Novo valor para os sítios do Sinai
O norte do Sinai é muitas vezes tratado como um corredor, mas descobertas como esta continuam a mostrar uma vida religiosa estável e estratificada.
O ministro Sherif Fathi classificou o achado como um sinal do valor estratégico e arqueológico da região, e não como uma nota marginal.
Os pormenores arquitetónicos que misturam hábitos egípcios, gregos e romanos sustentam esse argumento sem transformar o local numa simples cópia estrangeira.
Cada nova trincheira faz com que a fronteira pareça menos terreno vazio e mais um lugar que molda a cultura.
Mais escavações necessárias
Grande parte do lado norte ficou fortemente danificada, por isso o santuário ainda oculta parte do seu plano completo.
Os trabalhos futuros terão de testar como as pessoas entravam, onde ficavam as oferendas e se as construções próximas pertenciam ao mesmo culto.
As comparações com a Sorbonne ajudaram a derrubar a teoria do senado, mas só mais escavações poderão mostrar como os rituais decorria(m) de facto.
Mesmo com essas lacunas, o santuário já mudou as perguntas que os estudiosos colocarão sobre Pelúsio a seguir.
Novo olhar sobre Pelúsio
O novo santuário torna Pelúsio mais legível, como uma cidade onde água, comércio, memória e culto se encontravam no mesmo lugar.
Mostra também como um único erro corrigido na escavação pode reabrir um capítulo inteiro do passado religioso do Egito.
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