Os investigadores identificaram em Köstrimägi um castro até agora desconhecido, que terá existido por um período muito curto, há quase 2 000 anos.
O seu desenho invulgar e a sua curta duração obrigam a rever a escala e a instabilidade dos primeiros sítios fortificados no Báltico oriental.
Anéis no terreno
Numa crista arborizada perto de Kambja, no sul da Estónia, padrões circulares muito ténues num mapa de relevo desenhavam uma fortificação escondida sob as árvores.
Ao interpretar esses círculos em relação à encosta, Heiki Valk, doutorado, da Universidade de Tartu, associou os anéis a um antigo forte. A tradição oral já apontava para uma fortificação nas imediações, mas foi Valk quem lhe deu, pela primeira vez, uma forma clara.
Essa confirmação tornou-se rapidamente importante, porque os trabalhos previstos de extração de brita colocavam a crista em risco antes de os arqueólogos conseguirem definir o seu valor.
Desenho invulgar do castro de Köstrimägi
Em vez de uma única muralha alta, o sítio recorria a vários taludes baixos e fossos que envolviam um amplo pátio interior.
Essas barreiras em camadas teriam abrandado a subida, obrigando quem se aproximasse a ultrapassar vários obstáculos antes de alcançar o centro.
Medido ao longo do pátio, o recinto ocupava cerca de 51 700 pés quadrados (4 800 metros quadrados). Ao descrever a sua estrutura, Valk disse: “Há uma colina, rodeada por muralhas e fossos.”
Os anéis múltiplos são raros na Estónia, e foi precisamente esse traçado estranho que fez Köstrimägi destacar-se assim que os investigadores o cartografaram.
Datar uma ocupação breve
As sondagens abertas junto às margens produziram apenas pequenos fragmentos de cerâmica, pedra queimada, carvão e casca de bétula carbonizada.
Esses restos revelaram-se decisivos, porque a datação por radiocarbono – um método usado para datar material que esteve vivo – permitiu situar a curta vida do local num intervalo estreito.
“No total, realizámos três amostras de carbono e todas caíram dentro do mesmo intervalo”, afirmou Valk.
As datas coincidentes situavam-se entre 41 a.C. e 9 d.C., o que torna a existência do castro surpreendentemente breve para uma construção desta dimensão.
Sinais de destruição
Solo queimado e um buraco de poste perto da borda mostram que ali existiram defesas de madeira, que mais tarde arderam.
O fogo altera de forma duradoura a madeira, a casca e o solo, deixando camadas enegrecidas muito depois de muralhas e cercas desaparecerem.
Como o castro parece ter sido ocupado por pouco tempo, esse incêndio lê-se menos como simples desgaste e mais como um fim súbito e violento.
Tendo em conta a curta ocupação, o fogo sugere um desfecho repentino e possivelmente violento, em vez de um abandono gradual do sítio.
Os arqueólogos não conseguem identificar os atacantes, mas as evidências apontam para conflito.
Para lá da defesa pura
Um detalhe impede que isto seja visto como uma simples fortificação de guerra: a via de acesso mais fácil não estava melhor protegida.
Essa opção enfraquece uma leitura exclusivamente defensiva, porque o percurso mais simples não dispõe de barreiras mais robustas.
Aqui, os anéis rasos podem ter servido para orientar o movimento ou delimitar o espaço, e não apenas para barrar a entrada.
Essa hipótese alarga a narrativa, porque o poder nas comunidades iniciais podia exercer-se tanto por cerimónia como por defesa.
Indícios vindos da Letónia
Foram identificadas fortificações semelhantes, baixas e com anéis, mais a sul, no atual território da Letónia, e não no padrão mais familiar da Estónia.
Os estilos de construção podem ser relevantes porque o estudo liga estes anéis ao movimento e à tensão entre comunidades.
Essa comparação não prova que tenham sido recém-chegados a construir Köstrimägi, mas coloca a colina num mapa báltico mais amplo.
Em vez de parecer isolado, o castro passa a assemelhar-se a uma pequena peça de mobilidade e contacto.
Vida no topo
O planalto tinha pouca camada espessa de ocupação, o que sugere que as pessoas não viveram ali de forma contínua durante gerações.
Os arqueólogos chamam a esse terreno alterado uma camada cultural, isto é, solo modificado por atividade humana repetida ao longo do tempo.
Os vestígios escassos em Köstrimägi encaixam numa permanência curta e prática, que poderá ter combinado defesa, trabalho e abrigo temporário.
Essa marca mais ligeira também explica porque não surgiram ali camadas profundas de detritos domésticos.
Possíveis descobertas futuras
É provável que objetos metálicos valiosos tenham desaparecido há muito, porque o metal era demasiado escasso para não ser recuperado, transportado e reutilizado.
Os edifícios deixam outro tipo de registo, já que buracos de poste, pisos queimados e pedras de fogão podem permanecer fixos no mesmo lugar.
Escavações futuras poderão, por isso, revelar casas ou áreas de trabalho no interior do recinto, mesmo que não apareçam achados vistosos.
Esses vestígios mais discretos mostrariam como as pessoas organizavam a autoridade, o armazenamento e as tarefas do dia a dia dentro do castro.
Salvar o sítio
A Estónia deu agora proteção legal à colina, travando o risco imediato de que a extração de brita ou o desenvolvimento a apagassem.
As autoridades reconheceram a sua natureza única e bem preservada e consideraram-na importante a nível nacional o suficiente para entrar no registo de monumentos do país.
A proteção também compra tempo, porque os arqueólogos só podem regressar quando novas questões justificarem mexer novamente na terra.
Por agora, deixar grande parte de Köstrimägi intacta mantém a prova mais forte exatamente no lugar onde sobreviveu.
Reescrever a Estónia antiga
Köstrimägi apresenta-se agora como uma fortificação grande e de curta duração, cujo desenho invulgar, os danos causados pelo fogo e o abandono rápido tornam mais nítida a história da Estónia antiga.
Mais escavações poderão afinar esse quadro, mas a colina já mostra quanta história pode permanecer escondida sob uma floresta aparentemente comum.
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