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Kia: Ho Sung Song detalha a estratégia de eletrificação até 2030

Carro elétrico branco Kia PEV EV estacionado em espaço interior moderno com carregador e planta ao lado.

Durante uma conversa com vários órgãos de comunicação social internacionais, em Barcelona - encontro em que também estivemos presentes -, o diretor-executivo da Kia, Ho Sung Song, apresentou a visão da marca para os próximos anos e os principais obstáculos no caminho da transição para a mobilidade elétrica.

À frente da Kia desde 2020, Ho Sung Song chegou ao cargo depois de ter passado por várias funções de topo no construtor sul-coreano, incluindo a liderança das operações na Europa. Desde então, tornou-se a figura central da transformação da marca, com a eletrificação assumida como pilar estratégico.

Apesar de, por enquanto, os elétricos representarem uma parcela ainda limitada do volume mundial da Kia - 201 mil unidades em 2024, num universo de 3,1 milhões -, o roteiro para os próximos anos é tudo menos contido.

A ambição é clara: vender 1,6 milhões de veículos 100% elétricos até 2030, o que equivale a cerca de 30% do volume total estimado para esse ano. Já em 2025, a oferta elétrica deverá contar com seis modelos de passageiros e 11 comerciais.

EV4, EV2 e PV5: novos modelos para acelerar as vendas

O anúncio de novos modelos elétricos coloca a Kia numa posição mais forte neste mercado?

Ho Sung Son: Com o EV4 e o EV2, a intenção é fechar a gama de automóveis elétricos. No caso do primeiro, iremos mostrá-lo com carroçarias de dois e três volumes, formatos que ainda não tínhamos neste segmento (C, o dos familiares compactos). Já com o EV2 passamos a ter uma proposta de citadino compacto, com um preço de entrada de 30 mil euros.

Em paralelo, a família PV5 pretende mudar o panorama dos comerciais ligeiros, oferecendo um conjunto de soluções muito personalizáveis, pensadas para responder a necessidades muito diferentes.

“O EV2, que será produzido na Eslováquia, tem potencial para vender mais de 100 mil unidades anualmente, o que representa um grande salto em relação aos números alcançados até agora.”
Ho Sung Song, CEO da Kia

Europa: procura por elétricos e metas até 2030

O mercado europeu de automóveis elétricos não está a crescer como previsto e há cada vez mais marcas a entrar. Como irá a Kia conseguir aumentar as vendas e quota de mercado neste contexto?

HSS: É verdade que ainda se nota alguma hesitação do consumidor na compra de um carro elétrico, mas considero que o investimento que a maioria dos fabricantes está a realizar irá, inevitavelmente, impulsionar esse crescimento.

As projeções mais recentes indicam que, até 2030, o mercado mundial de automóveis elétricos deverá chegar a aproximadamente 29 milhões de unidades, o que corresponderá a cerca de 1/3 do mercado total global. Entendemos que a Europa seguirá um percurso semelhante.

No nosso caso, começámos pelos segmentos superiores, com modelos como o EV6 e o EV9. Com a entrada de modelos mais compactos e com preços mais acessíveis, é expectável que os volumes de vendas cresçam de forma expressiva. O EV2, que será produzido na Eslováquia, tem potencial para vender mais de 100 mil unidades por ano, o que representa um salto significativo face aos resultados atingidos até agora.

Em 2030, penso que cerca de 30% das nossas vendas serão carros elétricos, já contando com os modelos que vão derivar da plataforma do PV5. O EV4, por exemplo, deverá atingir um volume global na ordem das 160 mil unidades, com 80 mil destinadas à Europa, 50 mil à América do Norte e 30 mil ao mercado doméstico, na Coreia do Sul. O EV4 de dois volumes será fabricado na Europa e a berlina de três volumes na Coreia do Sul.

Caso a Kia não consiga cumprir as normas de emissões (UE) até 2027, coloca a hipótese de pagar multas pelas emissões excessivas, reduzir a produção de veículos a combustão ou uma mistura das duas soluções?

HSS: Nunca considerei reduzir a produção de motores de combustão, porque isso teria impactos evidentes na satisfação dos nossos clientes e é algo que não podemos fazer.

A via é, inevitavelmente, aumentar o peso dos elétricos no nosso mix de vendas. Esse é o caminho, até porque não estamos longe dos limites de emissões de CO2 e vamos lançar agora modelos elétricos mais acessíveis, o que nos dá confiança de que iremos cumpri-los. Se não acontecer, não teremos alternativa a não ser pagar as multas.

China e a pressão das marcas domésticas

Olhando para as vendas globais da Kia em 2024, apresentou uma posição sólida com números equilibrados entre os EUA (800 mil un.), Europa (500 mil un.) e Coreia do Sul (também cerca de 500 mil un.). Mas o que se passou com a China onde registou quedas na produção, quota de mercado e vendas. Porque é que é tão difícil para as marcas coreanas terem sucesso na China?

HSS: Tornou-se cada vez mais complexo acompanhar o crescimento das marcas chinesas, que estão a ganhar mercado a praticamente todas as marcas estrangeiras - e nós não somos exceção. Há fatores culturais e conjunturais que ajudam a explicar isso.

Em 2024, vendemos 80 mil carros na China (Nota da Redação: menos 5,3% do que em 2023 e muito abaixo das 650 mil unidades do seu melhor ano de sempre, em 2016). Ainda assim, aproveitámos a produção na China para exportar (Nota da Redação: 141 mil carros para mercados emergentes, nomeadamente 54 mil para o Médio Oriente e 47 mil para a América Latina).

Com esta decisão, conseguimos aumentar a produção local e as vendas em mais de 50% face ao ano anterior, o que devolveu a rentabilidade à operação na China - algo que não acontecia há oito anos.

Como avalia a concorrência das marcas chinesas que estão a dominar vários segmentos em vários países?

HSS: As marcas chinesas são concorrentes muito fortes e, sem dúvida, estão a ganhar influência no mercado global. Na América do Sul, por exemplo, já representam cerca de 30% da quota de mercado em alguns países, e uma tendência semelhante verifica-se em vários mercados do Médio Oriente.

A nossa presença nesses mercados ainda não está a ser afetada de forma significativa - aliás, temos crescido. Não conseguimos competir diretamente em preço, que é, em média, mais de 20% baixo do que o nosso, por isso temos de continuar a oferecer melhor qualidade global, um serviço pós-venda superior e uma experiência de cliente mais completa.

Comerciais ligeiros e plataforma PBV: aposta e produção

O segmento dos comerciais ligeiros é praticamente desconhecido para a Kia e agora querem ser líderes nesse negócio na Europa. Não é uma aposta de risco?

HSS: Não considero. O plano de produto é muito ambicioso, mas é igualmente consistente. A partir da mesma plataforma, iremos desenvolver nada menos do que 11 veículos diferentes até 2026.

Acompanho o mercado europeu de comerciais ligeiros há 15 anos e vejo nele um potencial muito relevante. O mercado total na Europa ronda as quatro milhões de unidades e estimamos que, em 2030, 1,2 milhões dessas vendas sejam de veículos elétricos. Entendemos que este é o momento certo para entrar, sobretudo com propulsão elétrica, que representa uma grande oportunidade.

Em paralelo, a entrada simultânea de novos sistemas de equipamento e de software dá-nos uma oportunidade rara para transformar em profundidade o modelo de produção.

Hoje, as linhas de montagem estão condicionadas, já que os veículos avançam por uma sequência de estações, o que limita a diversidade de modelos possíveis numa mesma linha. No sistema que vamos estrear na nova fábrica na Coreia do Sul, poderemos ter 10 ou até 20 veículos diferentes na linha de montagem. Será um novo paradigma para a indústria.

A nova plataforma PBV foi desenvolvida para comerciais ligeiros. Há planos para que esta base possa ser utilizada também em automóveis de passageiros?

HSS: A plataforma PBV foi pensada especificamente para os nossos comerciais ligeiros. É uma base orientada para veículos de maiores dimensões, com interiores amplos, funcionais e muito versáteis.

O objetivo foi criar uma «prancha» comum (um chassis em prancha) que permita adaptar com facilidade diferentes carroçarias e configurações de habitáculo, de acordo com as necessidades de cada cliente ou aplicação.

Os vossos modelos de topo, EV6 e EV9, têm sistemas de 800 V, os novos modelos mais compactos e acessíveis terão sistemas de 400 V. Claro que a diferença de custo não permite ainda que os segundos usem a tecnologia dos primeiros. Estamos longe de que isso possa acontecer?

HSS: Os clientes que compraram EV6 e EV9 eram os primeiros adotantes e empresas com maior capacidade financeira. Agora, com EV4, EV3, EV2 e também os PBV, estamos a chegar a outro perfil de cliente - muitos deles particulares - que carregam frequentemente em casa, como fariam com um telemóvel.

Além disso, baterias de menor capacidade exigem menos tempo de carregamento. É uma decisão racional. Dito isto, sim, ainda deverá demorar algum tempo até que os 800 V sejam o padrão da indústria, se é que algum dia o serão.

Qual é a resposta da Kia para os clientes que não conseguem chegar aos 30 mil euros e que apenas podem despender entre 2025 mil euros por um automóvel novo elétrico? Vai haver um EV1, como a Hyundai tem o Inster?

HSS: Estamos naturalmente a analisar esse patamar de mercado e talvez em breve, dentro de dois anos, possamos dar uma resposta mais concreta a essa questão…

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