As grades metálicas a meio, caixas empilhadas na montra, um segurança com olhar cansado. Na porta, uma folha A4 branca com uma frase seca: “Esta loja da marca irá encerrar de forma definitiva.” Sem contagem decrescente, sem “voltamos já”, apenas o fim. Um casal jovem cola o rosto ao vidro; uma senhora mais velha abana a cabeça. Alguém resmunga: “Primeiro aqui, depois a próxima marca - e o que é que sobra?”
Há um tipo de despedida que quase toda a gente reconhece: a de uma loja que, sem darmos por isso, fazia parte do nosso dia a dia. Só percebemos quantas vezes “entramos só um minuto” quando já não dá para entrar. E aqui não está em causa apenas um ponto de venda. O que está a desaparecer do mapa é uma marca de grupo da H&M, que sai das ruas comerciais sem ruído e sem cerimónia. A pergunta fica a pairar.
O que é que isto significa, na prática - para nós, para os centros urbanos, para a moda que se escolhe com as mãos?
A H&M desliga a ficha: o que está por trás do grande fecho de lojas
No dia seguinte ao anúncio, o espaço já parece meio desmontado. As araras desaparecem em carrinhos metálicos, e o cheiro típico de produto recém-chegado mistura-se com pó. A equipa vai enchendo caixas em silêncio, com olhares ocasionais para o telemóvel, como se a resposta estivesse ali. A versão oficial fala em concentrar recursos, reestruturar, apostar mais no online. Traduzido para a rua: esta marca do grupo está a abandonar por completo as artérias comerciais.
Quem observa com atenção percebe rapidamente que não é apenas uma decisão fria de gestão. Sai de cena uma marca que, durante anos, funcionou como laboratório de tendências - uma espécie de “irmã mais nova” dentro do universo H&M, onde se testavam públicos e se falava com quem não se revia no formato principal. Para muitas pessoas, foi o primeiro emprego no retalho, o primeiro uniforme, a primeira reunião de equipa a um sábado de manhã. E, de um momento para o outro, isso passa a passado.
Numa cidade de média dimensão na Renânia do Norte‑Vestefália, há meses que um cartaz de “liquidação total” está pendurado por cima de uma loja desta marca do grupo. Ao início, parecia o típico período de promoções, como tantos outros. Depois, as prateleiras foram ficando mais vazias e o reabastecimento deixou de acontecer. Uma vendedora confidenciou a uma cliente, quase em sussurro, que o contrato não seria renovado. Pouco tempo depois, veio a confirmação numa nota de imprensa: a H&M vai fechar todas as lojas desta marca - não só na Alemanha, mas também em vários países europeus. Uma onda discreta a atravessar o mapa, cidade a cidade, centro comercial a centro comercial.
Os números oficiais aparecem sempre embrulhados em prudência. Fala-se de “mudança nos hábitos de consumo”, de “foco estratégico” e de “optimização do portefólio”. Por trás destas fórmulas há pessoas com rendas para pagar, filhos, prestações. E há clientes que, durante anos, sabiam exactamente onde ir quando era preciso um vestido rápido para o fim de semana ou um blazer acessível para actualizar o guarda-roupa. Sejamos francos: ninguém consulta um relatório anual antes de entrar num provador.
Para perceber a decisão, costuma bastar olhar para três linhas óbvias em qualquer gráfico: custos de renda e de pessoal a subir, comércio online a ganhar peso, centros urbanos saturados. Nos últimos anos, a H&M testou repetidamente novos formatos - marcas próprias para ganga, minimalismo, gama premium, consumo mais consciente. Algumas ideias aguentaram-se bem; outras ficaram como nicho. E quando chega pressão da Suécia para cortar “conceitos ineficientes”, são precisamente estas marcas que tendem a ser as primeiras a sair. Na sede, é uma escolha de portefólio; na cidade, é a perda de mais um ponto de passagem.
Ao mesmo tempo, a forma como compramos está a mudar. Há quem, ao fim do dia, percorra aplicações meio a dormir, em vez de enfrentar a fila da caixa num sábado de manhã. As devoluções tornaram-se mais fáceis do que experimentar roupa. Parece moderno, poupa tempo e deslocações, mas vai corroendo o modelo das cadeias físicas tradicionais. Se, além disso, uma marca apresenta vendas instáveis e pouco reconhecimento junto do grande público, acaba rapidamente no fundo do ranking. Para a sede, não pesa o valor emocional - pesa a célula do Excel.
Como clientes e trabalhadores podem reagir agora - e o que podes fazer, em concreto
Se a tua cidade está na lista de encerramentos, a sensação inicial pode ser de murro no estômago. Primeiro, o choque; depois, a questão prática: e agora, onde compro? A boa notícia é que, mesmo com pouca margem, ainda há escolhas. Como cliente, pode fazer sentido uma última visita consciente. Não apenas pelos descontos, mas para confirmar o que vale mesmo a pena manter no tempo. Em vez de “levar tudo a correr”, mais vale escolher duas ou três peças que realmente combines e uses - e não compras feitas só para aliviar a sensação de perda.
Para quem trabalha na loja, o impacto é mais directo. Candidaturas internas dentro do grupo H&M podem ser um caminho antes de as portas se fecharem de vez. Uns passam para lojas maiores da H&M; outros seguem para logística; outros ainda aproveitam o fim como sinal para sair do sector da moda. Pode soar duro, mas também pode ser libertador. Um passo prático ajuda: actualizar o currículo e descrever com clareza o que foi feito - atendimento ao cliente, operação de caixa, apresentação de produto, coordenação de equipa. Competências que contam muito para lá de uma arara.
E, como cliente, dá para fazer mais do que apenas lamentar. Os centros urbanos vivem de movimento, e esse movimento não aparece por magia. Se queremos lojas abertas, temos de aparecer nelas. Não só quando há promoções. Não só quando um vídeo no TikTok dita um novo “must”. A verdade é simples e implacável: cada compra funciona como um voto no tipo de comércio que queres encontrar amanhã.
O erro clássico nesta fase é cair no fatalismo. “Eles fecham todos, não há nada a fazer.” Só que isso é verdade a meias. É evidente que uma pessoa sozinha não muda estratégias globais de um grupo. Mas decide se a sua cidade caminha para um alinhamento de lojas de telemóveis, padarias de cadeia e espaços vazios. Quem hoje apoia marcas e lojas locais - da pequena loja‑conceito a um rótulo sustentável - ajuda-as a ocupar o espaço que fica quando uma marca do grupo H&M desaparece.
Muita gente sente ainda uma espécie de culpa: “Será que encomendei demasiado online? Devia ter ido mais vezes à loja?” A resposta fria é esta: não és a única pessoa responsável por estratégias de mercado globais. Ainda assim, faz diferença quando o nosso consumo não se guia apenas pelo que entra no carrinho em dois cliques. É precisamente quando nomes conhecidos desaparecem que se percebe quão resistente - ou frágil - é, afinal, o centro de uma cidade.
Uma gerente de loja, que prefere manter o anonimato, resume a situação de forma seca:
“Durante muito tempo disseram-nos: ‘Somos um conceito importante dentro do grupo.’ Depois chega um e-mail, três reuniões - e, de repente, somos um número que se risca. O que fica são as pessoas que amanhã têm de decidir como seguir em frente.”
Para ti, enquanto cliente, isto pode servir de pequeno guia:
- Pergunta-te antes da próxima compra: quero ver esta marca a longo prazo na vida real - ou basta-me um carrinho anónimo?
- Usa as liquidações de encerramento não só para “caçar pechinchas”, mas para te despedires de forma consciente e tratar quem trabalha com respeito.
- Experimenta lojas alternativas na tua cidade que até agora ignoraste - mesmo que não tenham a notoriedade de uma marca da H&M.
- Fala com quem é afectado pelo fecho. Um “obrigado pelo vosso trabalho” pode parecer pequeno, mas nesta fase pesa.
- Pensa que lugar queres dar à moda: um impulso de tendência de curto prazo ou parte de um estilo de vida com que ainda te identifiques daqui a cinco anos.
Quando as marcas desaparecem: o que este encerramento diz sobre o nosso futuro
O encerramento definitivo de todas as lojas desta marca do grupo H&M é mais do que uma nota na secção de economia. É um retrato de como os nossos hábitos mudam depressa - e do que acontece quando os grupos transformam essas mudanças em métricas. Há poucos anos, era normal passar um sábado a entrar e sair de lojas, sacos na mão, amigas ao lado. Hoje, um deslizar do polegar parece oferecer um mundo infinito, enquanto as ruas vão ficando mais vazias.
Há um contraste curioso: ao mesmo tempo que grandes grupos reduzem redes físicas, surgem formatos pequenos e recentes. Boutiques de segunda mão, modelos de aluguer de roupa, ateliers de upcycling que são mais oficina do que loja. Talvez exista aqui uma oportunidade silenciosa. Quem voltar a tratar a moda como encontro - e não só como uma encomenda à porta - pode preencher precisamente o espaço que uma marca da H&M deixa agora. E sim, isto é menos cómodo do que comprar com um clique. Mas pode ser mais humano.
No fim, fica uma pergunta em aberto: quantos encerramentos destes são necessários para percebermos que o consumo desenha uma paisagem - e não apenas o nosso armário? Menos uma marca pode parecer pouco. Mas, para quem estava na caixa a tirar o crachá ao final do dia e para a cidade que perde uma montra iluminada, é uma mudança real. Talvez, daqui a alguns anos, falemos desta fase como uma transição: do excesso das grandes cadeias para algo mais pequeno, mas mais consciente. Ou talvez acordemos e descubramos que entregámos os centros urbanos ao caminho mais fácil.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A H&M fecha uma marca inteira do grupo | Todas as lojas desta marca são retiradas do mercado de forma permanente; o foco desloca-se para o online e para os conceitos centrais | Perceber porque desaparece a loja de eleição e que estratégia está por trás |
| Consequências para centros urbanos e trabalhadores | Perdas de emprego, mais espaços vazios, mas também oportunidades para novos conceitos e mobilidade interna no grupo | Avaliar de forma realista como o comércio local e percursos profissionais podem mudar |
| Margem de manobra para clientes | Comprar de forma consciente, descobrir alternativas, apoiar quem foi afectado | Ideias concretas para não ser apenas espectador e participar na mudança |
FAQ:
- Que marca da H&M vai ser encerrada? A H&M refere, nas comunicações oficiais, conceitos diferentes consoante o país, que são retirados do mercado ou fortemente reduzidos. O elemento comum é que se trata de marcas autónomas do grupo, e não das lojas clássicas da H&M.
- As lojas normais da H&M vão continuar abertas? Sim, regra geral as lojas tradicionais da H&M mantêm-se. O fecho incide sobretudo em marcas especializadas ou mais pequenas dentro do portefólio do grupo, com menor rentabilidade.
- O que acontece aos vales/ofertas da marca afectada? Em muitos casos, os vales ainda podem ser usados por um período limitado, por vezes também online ou noutras marcas do grupo. As condições variam, por isso vale a pena consultar as FAQ da H&M ou da própria marca.
- Os trabalhadores podem mudar para outras lojas da H&M? Muitas vezes existem programas internos de candidatura ou transferência, sobretudo em cidades maiores. No entanto, não há garantia automática: depende de vagas e da estrutura regional.
- Isto significa que em breve vão desaparecer mais marcas? O sector da moda está, de forma geral, sob forte pressão. Se o comportamento de compra continuar a deslocar-se para o online, outras cadeias também irão reavaliar as suas redes de lojas. Se mais marcas vão desaparecer depende da evolução económica de cada uma e da estratégia dos respectivos grupos.
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