Jessica Chastain, vencedora de um Óscar por "Os olhos de Tammy Faye" e nomeada por mais duas vezes, tem-se afirmado como presença recorrente no cinema de autores como Terrence Malick, Gullermo del Toro e Kathryn Bigelow. Agora volta a juntar-se ao realizador mexicano Michel Franco, depois de já terem trabalhado em "Memória".
No novo drama "Sonhos", a atriz e produtora dá vida a uma figura da alta sociedade norte-americana que, de um momento para o outro, recebe a visita inesperada do namorado: um bailarino mexicano que deixou o país sem documentos. Entre ambos existe uma ligação marcada por toxicidade. O filme já pode ser visto nas salas de cinema.
A personagem que faz é muito sofisticada. O guarda-roupa acaba por funcionar quase como outra personagem...
Como se trata de um filme com orçamento curto, as roupas são minhas [riso]. A responsável pelos figurinos foi a minha casa e escolheu as peças de que mais gostou. Por isso, é possível que me veja com alguns destes vestidos em passadeiras vermelhas ou noutros eventos. Ainda assim, sim: eram fundamentais para ajudar a contar esta história.
Em "Memória" também aconteceu o mesmo?
Na verdade, foi precisamente ao contrário. Em "Memória" fui eu que fui às compras a uma loja para "vestir" a personagem; em "Sonhos", as compras foram feitas no meu guarda-roupa.
A sua vida antes de ser atriz não tem nada a ver com o universo desta personagem. Concorda?
Continuo a ser uma pessoa muito distante dela. A maneira como me visto é muito diferente da forma como a personagem se apresenta. Mas a Jennifer também muda consoante o lugar: em São Francisco veste-se de uma forma e, quando vai à Cidade do México, já surge com o cabelo mais desalinhado e com mais padrões e cores na roupa. O mesmo acontece com os espaços onde vive: a casa na Cidade do México não se parece com o apartamento em São Francisco. No México, ela está mais viva, longe do pai - afastada do patriarcado, por assim dizer.
Como descreve o mundo onde vivia antes de entrar no cinema?
As pessoas não fazem ideia, porque só me conhecem como sou hoje. Mas a minha vida anterior não podia ser mais diferente, e por isso sei bem o que isso significa. Sem entrar em demasiados pormenores, sinto uma enorme empatia por quem passa dificuldades para comer: houve períodos, enquanto crescia, em que a minha mãe tentava perceber o que é que nos iria pôr na mesa. E eu gosto de interpretar pessoas que não se parecem comigo.
Dentro desse contexto, como construiu esta personagem?
Tive de trabalhar bastante para lhe dar essa distância. Distância em relação à experiência dos imigrantes, às desigualdades de riqueza, de classe e de poder. Era importante que ela se visse como alguém muito correto, que devolve à comunidade. Na cabeça dela, está do lado certo de muitas destas causas e, por isso, não consegue reconhecer a forma como participa no abuso ou na marginalização de outras pessoas.
No filme, e ao contrário do que é mais comum, a história é entre uma mulher mais velha e um homem mais novo...
Fico, claro, entusiasmada com isso, porque cresci numa indústria e numa cultura onde é muito frequente vermos o inverso: o homem mais velho com a mulher mais nova. Este tipo de representação mostra que as mulheres estão a ser encaradas mais como seres humanos e não apenas como objetos. Como espectadora, gosto que existam diferenças de idade.
Como foi contracenar com Isaac Hernández, mais conhecido como bailarino do que como ator?
Durante as filmagens, quase não conversávamos. A certa altura perguntei-lhe porquê. Ele respondeu que era porque tinha medo de estragar tudo: não sabia como ser ator, como construir uma personagem. Era o método dele, e eu respeitei isso.
As cenas de intimidade são bastante intensas...
Como ele é bailarino, está habituado a posições íntimas e vulneráveis - é o que ele faz. Por isso, não parecia estranho. Era como se eu também fosse bailarina e estivéssemos a montar uma cena para contar uma história. Nesse aspeto, foi ótimo trabalhar com ele.
O filme toca nos temas da emigração e das deportações. Como olha para isto sob a presidência de Trump?
Sempre existiram problemas na forma como os emigrantes são tratados nos Estados Unidos. Agora fala-se mais sobre isso, mas também houve muitas deportações durante a administração Biden. A verdade é que ninguém lida com este tema como deveria, tratando seres humanos com respeito. Mas não estou numa fase em que queira sair dos Estados Unidos. Sinto que partir seria abandonar as pessoas. Quero ficar e contribuir para a sociedade em que acredito. Eu acredito no lado bom dos Estados Unidos.
Prefere viver em Nova Iorque, longe de Hollywood?
Sempre soube que iria viver em Nova Iorque. Quando visitei a cidade pela primeira vez, ainda adolescente, senti um estalo. É o meu lugar preferido no mundo. Adoro ouvir tantas línguas diferentes na rua. Toda a gente anda de metro. Independentemente da classe social, as pessoas cruzam-se. É um sítio excelente para viver. Em Nova Iorque nunca és a pessoa mais importante do dia de alguém: toda a gente tem a sua vida - e eu também.
A parceria com Michel Franco vai continuar?
O primeiro filme dele que vi foi "New order" e pensei: este tipo tem muito para dizer. E não joga pelo seguro, o que eu aprecio. Ele arrisca. Eu também tento fazer o mesmo, dentro do que a indústria permite. Temos outras ideias para mais tarde. Gostamos de explorar os lados mais sombrios da humanidade.
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