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O fim do The Late Show de Stephen Colbert e o futuro do late-night

Apresentador de costas numa mesa em estúdio com público e múltiplos ecrãs ao fundo.

O cadáver de Stephen Colbert ainda mal arrefeceu e já me apetece declarar mais óbitos. O apresentador prepara-se para entrar na derradeira semana de “The Late Show”. O formato tem funeral marcado para 21 de maio.

Já em modo de despedida, o humorista recebeu em estúdio Jon Oliver, Seth Meyers, Jimmy Fallon e Jimmy Kimmel. Os dois últimos - cujos programas disputam o mesmo horário do “The Late Show” - optaram por emitir um episódio repetido no dia em que Colbert se despede, para ajudá-lo a alcançar a maior audiência possível.

Stephen Colbert, “The Late Show” e o adeus com os rivais ao lado

Durante anos, a regra nos talk-shows de fim de noite foi a rivalidade: Jay Leno e Conan O’Brien chegaram a travar um confronto público, com acusações trocadas em direto. Naquele período, até Letterman e Kimmel se colocaram do lado de O’Brien, também publicamente.

Agora, o cenário é outro. Desta vez, juntaram-se todos para sinalizar apoio perante a saída de Colbert - um dos rostos mais críticos de Trump - num caso em que já quase ninguém leva a sério as supostas justificações financeiras. Entre os atuais ocupantes destes lugares, ainda altamente desejados no entretenimento, parece imperar a camaradagem.

O desgaste do late-night: audiências a cair, clipes a subir

Ainda assim, o género tem perdido centralidade. Os programas somam cada vez menos espectadores na emissão tradicional, embora consigam encontrar público na transmissão em streaming e através de conteúdos recortados para as redes sociais.

A dúvida é simples: isso chega para manter o modelo viável? Ou Fallon, Kimmel, Oliver e Meyers serão mesmo os últimos representantes desta espécie?

Celebridades, promoção e a alternativa digital aos talk-shows

Os talk-shows de fim de noite foram, durante muito tempo, uma etapa incontornável para celebridades em plena promoção. Entretanto, a lógica deslocou-se: conteúdos fora das grandes estações tornaram-se igualmente apetecíveis para lançar um filme, um álbum, uma série ou um novo espetáculo de stand-up.

A televisão deixou de controlar em exclusivo as press tours. No digital, as figuras públicas surgem com frequência em formatos mais curtos, mais diretos e com um ar de maior autenticidade.

“Hot Ones”, com Sean Evans; “Chicken Shop Date”, com Amelia Dimoldenberg; e “Subway Takes”, com Kareem Rahma, são alguns exemplos que conquistaram audiência ao ponto de receberem os mesmos convidados que, antes, pareciam reservados aos talk-shows de fim de noite.

YouTube quer a sua versão de late-night: “Outside Tonight”

Ainda assim, o YouTube quer medir forças com a televisão de forma frontal e vai apostar num formato de fim de noite adaptado ao ambiente digital. Julian Shapiro-Barnum, criador de “Recess Therapy”, estreia-se como anfitrião de “Outside Tonight”.

Sinceramente, fazer televisão no YouTube poderá ser tão trágico quanto fazer YouTube na televisão. Além disso, muitos dos formatos que referi já funcionam, até certo ponto, como uma extensão do que os talk-shows de fim de noite sempre fizeram.

No fundo, se os convidados deixam de valorizar tanto a presença em televisão, estes programas ficam sem parte do seu propósito. E para conversas longas, fomos sendo “treinados” a desejar podcasts - um território onde os atuais apresentadores podem encontrar futuro.

Veja-se a mudança de Conan O’Brien, que caminha para apresentar os Óscares pela terceira vez consecutiva. Stephen Colbert, para já, vai dedicar-se à escrita do novo filme de “O Senhor dos Anéis”.

Trump pode muito bem decidir perseguir outro apresentador, como já ameaçou. E o digital pode acabar por roubar definitivamente o protagonismo aos programas de fim de noite nos próximos anos, como tem vindo a acontecer.

Estes programas acabam por servir de alimento em dois sentidos. Resta perceber se ainda vêm aí mais bolos - ou se, no fim, só ficam as migalhas.

É SÓ UMA PIADA

Enquanto andava à procura de uma piada de Stephen Colbert que servisse de despedida, o canal de YouTube do “The Late Show” empurrou-me esta bizarria poética.

O convidado, Donald Trump, repetia que, se fosse eleito presidente, construiria um muro entre o México e os EUA. Estávamos em 2015, Obama ainda vivia na Casa Branca, e Colbert não fazia ideia de que estava a entrevistar quem lhe viria a tirar o emprego. Com ironia extra, o “The Late Show” termina antes do próprio muro.

SUGESTÕES

Tenho falhas bastante óbvias, mas há uma que descobri há pouco como a maior de todas: nunca ter visto “Curb Your Enthusiasm”. É o mais imperdoável. Mesmo que não seja, dá jeito dizê-lo - assim não deixo margem para alguém imaginar que outras grandes séries de comédia ainda estão por ver.

Faltam-me apenas 118 episódios para terminar e, finalmente, tirar este peso de cima.

Em minha defesa, a série estreou na HBO em outubro de 1999. Eu ainda nem um ano de vida tinha, quanto mais autoridade para decidir o que se via na televisão lá de casa. E, escusado será dizer, também não havia acesso à HBO.

Fica a promessa: vou ver as doze temporadas completas, do início ao fim. Só preciso de uns três anos - termino antes de a grande muralha dos EUA estar concluída.

Prometo ainda não esperar 27 anos para começar a ver “Life, Larry and the Pursuit of Unhappiness: An Almost History of America”. A nova série de sketches criada por Larry David, com o casal Obama como produtores, goza com os EUA no ano do seu 250º aniversário. Estreia-se a 26 de junho, na HBO Max.

Nas últimas semanas, recebi no podcast os humoristas André de Freitas e Ricardo Araújo Pereira. Daqui a quinze dias há mais Humor À Primeira Vista em newsletter. Na próxima semana sai um novo episódio em podcast, com a segunda parte da conversa com Ricardo Araújo Pereira.

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