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“Portugal de excelência e justo”: mérito, mediocridade e os casos Évora 2027 e Lince-Ibérico

Mulher a organizar caixa com inscrição "Évora 2027" numa sala com mapa e fotografias na parede.

“Portugal de excelência e justo” e o nó do mérito

“Portugal de excelência e justo” - a expressão que o Presidente da República usou como bússola na candidatura e que continua a convocar como ambição orientadora do mandato - ganha eco porque aponta para uma ferida conhecida: a distância entre o país que Portugal poderia ser e o que efectivamente é depende, em grande parte, da maneira como tratamos as pessoas.

Dizer que se quer excelência é simples; o difícil é torná-la regra. Para que a excelência deixe de ser slogan e passe a prática, é indispensável perceber por que motivo Portugal se dá tão mal com o mérito. Entendo que essa dificuldade assenta em duas patologias que se alimentam uma à outra: de um lado, uma tolerância estrutural à mediocridade; do outro, a incapacidade de proteger o mérito quando ele dá resultados.

Duas patologias em Portugal: mediocridade tolerada e oportunismo meritocrático

A tolerância estrutural à mediocridade cresce em instituições onde a competência poucas vezes funciona como vantagem decisiva. A lealdade, a proximidade, a antiguidade e a aptidão para não causar incómodo tendem a contar mais do que a performance. Daí que pessoas verdadeiramente competentes apareçam, não raro, como excepções importadas - em vez de serem o produto natural de sistemas concebidos para as formar, segurar e fazer progredir.

A segunda patologia pode chamar-se oportunismo meritocrático. Quando o problema é tão exigente que a mediocridade instalada não o consegue resolver, recorre-se a quem sabe. Mas assim que a questão fica resolvida, os detentores de mérito passam a ser vistos como rivais na disputa pelo crédito. E é precisamente nesse ponto que são afastados.

As duas patologias obedecem à mesma engrenagem. A convivência com a mediocridade é o terreno que permite o oportunismo. Se o mérito fosse valorizado de forma consistente, os seus portadores não seriam recursos externos convocados para momentos de crise: fariam parte do corpo da organização. Substituí-los provocaria resistência interna, activaria memória institucional e acarretaria custos reais. Não provoca. E não provoca porque o sistema nunca precisou deles estruturalmente. Saem sem efeito porque, na verdade, nunca chegaram a ser integrados.

Dois casos recentes - um no campo cultural, outro na conservação da natureza - mostram com nitidez como este mecanismo funciona.

Évora 2027: “vagar”, co-criação e a perda de conhecimento tácito

Comecemos por Évora. A cidade conquistou o título de Capital Europeia da Cultura em 2027 com uma equipa conduzida por Paula Garcia, que alcançou o que muitos consideravam improvável: montar uma candidatura vencedora num ambiente de competição extrema, contra propostas robustas e cidades com ambições há muito sedimentadas.

Paula Garcia não era alentejana. Vinha do norte. Chegou a Évora em plena pandemia, trazendo 21 anos de experiência à frente do Teatro Viriato, em Viseu - uma das referências da programação cultural no interior do país. Em vez de impor uma narrativa vinda de fora, comprometeu-se com um processo de escuta e co-criação com os actores locais. Falou com centenas de pessoas. Ouviu instituições, artistas, associações e cidadãos. A partir desse trabalho, desenhou uma narrativa vencedora ancorada num conceito que dificilmente sairia da retórica habitual sobre História e património: o vagar.

O vagar resultou da combinação entre um olhar profissional amadurecido, um envolvimento pessoal intenso e um método de co-criação com a comunidade. Foi também a demonstração de que, por vezes, a perspectiva externa ajuda uma região a reconhecer em si aquilo que, sozinha, dificilmente conseguiria enunciar. O êxito de Évora nasceu de uma tensão criativa entre conhecimento vindo de fora e identidade local. Foi essa tensão - bem gerida - que produziu o olhar capaz de convencer o júri internacional.

Depois da vitória, porém, a equipa que ergueu a candidatura foi “desincentivada” a permanecer. Paula Garcia saiu. E com ela não se perdeu apenas uma coordenadora: perdeu-se algo bem mais difícil de recompor - a memória do processo, as relações de confiança construídas com os agentes locais e a aptidão para prolongar a co-criação que tinha tornado a vitória possível.

O que desaparece quando uma equipa especializada é trocada sem transição é aquilo a que Michael Polanyi chamou conhecimento tácito: um saber incorporado em rotinas, critérios e relações, que não se transmite por escrito e que deixa de existir quando as pessoas que o transportam vão embora.

Évora 2027 acontecerá, porque existe financiamento competitivo obtido pela equipa de missão entretanto descartada e porque há um enquadramento institucional que obriga à execução. Mas dificilmente será o projecto que venceu. Será outra coisa. E essa outra coisa dificilmente teria conquistado o concurso altamente competitivo que Évora ganhou.

Silves e o Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico: o risco de trocar equipas sem transição

Num plano completamente distinto, surgiram esta semana notícias que expõem o mesmo mecanismo de substituição. O Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico, em Silves, é uma das raras histórias bem-sucedidas da conservação da natureza em Portugal. Integra o programa ibérico de conservação de uma espécie que esteve à beira da extinção e que, graças a dezassete anos de trabalho e dedicação profissional especializada, passou de caso crítico de conservação a exemplo internacional de recuperação.

Programas deste tipo assentam em saber acumulado durante anos: equipas treinadas, protocolos de maneio, experiência com animais específicos - os seus comportamentos, historial reprodutivo, temperamentos individuais -, capacidade veterinária diferenciada e ligação contínua a redes internacionais.

O percurso do programa espanhol mostra a dependência entre liderança técnica e resultados. O primeiro nascimento bem-sucedido de lince-ibérico em cativeiro aconteceu em 2005, no centro de El Acebuche, sob a direcção de Astrid Vargas - cientista que chegou a Doñana em 2003 vinda dos Estados Unidos, onde tinha liderado um programa de reprodução em cativeiro do turão-de-patas-negras, o carnívoro mais ameaçado da América do Norte. Trouxe uma cultura técnica e uma rede internacional que tornaram viável aquilo que, durante anos, não se tinha alcançado. O conhecimento não veio com os animais. Foi sendo construído com eles, ao longo do tempo, por uma equipa formada em torno de uma liderança com trajectória destacada. O esquema criado por Astrid Vargas transformou-se no modelo para os centros seguintes - incluindo Silves.

O centro português tornou-se uma peça relevante desse esforço ibérico, sob a direção de Rodrigo Serra - veterinário especializado em felinos selvagens que, antes de se dedicar ao Lince-Ibérico, trabalhou em África com leões no programa de investigação do Okavango, no Botswana, e abandonou um doutoramento em Zurique para se concentrar naquilo que considerava ser o topo da sua carreira de conservacionista. Uma trajectória que lhe valeu a integração no Grupo de Especialistas de Felinos da União Internacional para a Conservação da Natureza ainda antes de o centro abrir portas. Lidera o centro desde a sua inauguração em 2009 e acumula também a coordenação do programa ibérico de conservação ex situ da espécie.

Dezasseis anos de trabalho continuado com as mesmas instalações, os mesmos protocolos e as mesmas redes internacionais. Por isso, perante notícias de uma substituição abrupta da equipa técnica que assegura o funcionamento do centro, há questões a que a liderança do ICNF não pode fugir, sob pena de se desqualificar para gerir aquilo que afirma querer proteger: que diagnóstico técnico sustenta esta mudança? Que plano de transição está previsto? Como será preservada a memória técnica acumulada? De que modo a decisão foi articulada com Espanha e com o programa ibérico de conservação da espécie?

Até agora, as respostas a estas perguntas têm variado entre o silêncio e a evasão feita de palavras de circunstância. Contudo, sem uma transição ordenada, corre-se o risco de pôr em causa o sucesso de um programa que levou quase duas décadas a construir e de voltar a afectar a confiança e o prestígio institucional de Portugal no exterior.

O mesmo padrão: quando o sucesso passa a espólio

Os exemplos de Évora 2027 e do Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico pertencem a mundividências distintas. Um situa-se na cultura; o outro, na conservação da natureza. Ainda assim, ambos expõem a mesma patologia: o sucesso fica fragilizado no exacto momento em que ganha valor político, financeiro ou simbólico.

Este é o paradoxo que Portugal continua sem resolver, e cuja persistência alimenta o nosso atraso estrutural. Um “Portugal de excelência” exige encarar duas realidades incómodas: a mediocridade tolerada como norma e o sucesso capturado como espólio. Enquanto assim for, a excelência continuará a ser uma aspiração escrita em papel molhado.

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